|
Hacker ajuda polícia a combater abuso de menores
Grupo de cariocas desvenda
crimes de pedofilia praticados em todo o mundo
Ricardo Faria
Em 1999, navegando na internet, o adolescente Pedro, então
com 17 anos, recebeu de um americano várias fotos em que crianças
apareciam sendo violentadas por adultos. Chocado, mostrou o material
à mãe e pediu que desse queixa à polícia. Assim, a brasileira Marta
Serrat se tornou a primeira denunciante no país do crime de
distribuição virtual de fotos pornográficas envolvendo crianças. O
caso foi encaminhado ao Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro, ao FBI e à Alfândega Americana, que localizou e prendeu o
pedófilo americano.
-
Algumas das crianças fotografadas estavam desaparecidas nos Estados
Unidos e tiveram seus corpos localizados pelo FBI em covas
clandestinas nos cemitérios americanos. Após serem usadas como
modelos, foram mortas com requintes de crueldade, e os criminosos
ainda filmaram e distribuíram na internet as cenas dos assassinatos
- revela a jornalista Wal Ribeiro, 36 anos, que resolveu agir para
evitar que mais inocentes fossem vitimados pela cruel rede de
pedofilia.
Wal colocou no ar o www.kids-denuncia.org.br, primeiro
site brasileiro dedicado à defesa dos direitos da criança e do
adolescente. A seu lado, Jorge Duarte, 26 anos, um expert em
informática que já colaborou com a Polícia Federal. Na verdade,
Jorge é um hacker do bem, capaz de penetrar onde bem deseja,
ultrapassando qualquer obstáculo no mundo cibernético. Ele não
precisa se cadastrar para ter acesso a senhas que dão direito a
navegar em sites. Ou seja, não pede licença nem bate na porta, usa
apenas os dedos no teclado, que funcionam como chaves para todas as
portas do mundo virtual.
-
Eu analiso a denúncia, apuro a veracidade, faço o mapeamento e
rastreio até encontrar a fonte, ou seja, quem está violando a lei. O
resto é com a polícia, que pode, através de um mandado de busca e
apreensão, invadir a casa e recolher o computador e tudo mais que
possa ajudar na investigação - explica Duarte, um carioca capaz de
achar agulha em palheiro mas que faz questão de manter o anonimato.
-
Seria um risco desnecessário. Sou solteiro e gosto de sair à noite
com meus amigos, sem preocupação. Afinal, em três anos no site, na
função que eles chamam de especialista em rede, fiz muita gente ruim
responder pelos crimes cometidos contra menores de idade. - explica
o caçador virtual de pedófilos.
O
espaço Kids-Denúncia tem como objetivo educar e passar informações
para que os jovens naveguem com segurança, escapando assim dos que
fazem uso indevido da rede. O site também oferece aos pequenos
internautas a chance de exercer sua cidadania, opinando sobre os
direitos da criança e do adolescente e denunciando quem os esteja
violando.
Dois meses após a inauguração, um pai do Rio de Janeiro fez
contato para denunciar que o filho de 12 anos estava sendo assediado
por um grupo de homossexuais, donos de um site, para ir a um
encontro sexual na cidade de Campinas. Estranhando o comportamento
do menino, ele acessara os e-mails, descobrindo a farsa, em que os
adolescentes haviam sido orientados a inventar um encontro de férias
entre colegas de colégio. No grupo de aliciadores, havia uma mulher
que, passando-se por mãe de um dos menores, era encarregada de
telefonar para convencer os pais. Wal Ribeiro, que na época ainda
não contava com a ajuda de Duarte, encaminhou a denúncia ao então
ministro da Justiça Renan Calheiros, que acionou uma equipe da
Divisão dos Direitos Humanos da Polícia Federal de Brasília.
-
Resgatamos oito crianças de uma chácara, e os aliciadores foram
indiciados por corrupção de menores. Com a repercussão, num espaço
de 30 dias, tivemos mais de 500 denúncias - relembra Wal Ribeiro.
Este ano, o site já acusou o recebimento de 4 mil denúncias.
[22/SET/2002]
|