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A Paz do
Dirigível?
;) Marcos Alvito
;)
26.Set.2002 | Há algo a mais no céu da cidade do Rio de
Janeiro, além das pipas coloridas e dos aviões de carreira. Sobrevoa as
nossas cabeças um dirigível equipado com duas câmeras e três sensores de
última geração, capazes, como nos informa uma reportagem, “de registrar a
placa de um carro ou o rosto de um bandido a 15 km de distância” (O Globo,
3/9/2002). Foi batizado com o singelo nome de “Pax Rio” e é branco como a
neve. Faz parte de um programa chamado “Olho no céu” e nos custará a
módica quantia de R$ 586 mil mensais, isto sem falar em cada uma das
câmeras, importadas dos Estados Unidos, no valor de mais de um milhão de
reais cada uma.
De onde surgiu esta idéia? O ponto de partida, sem
dúvida, foi uma proposta apresentada por um professor da COPPE-UFRJ à
Secretaria de Segurança Pública no mês de junho. Era, basicamente, um
plano de vigilância high-tech, usando rádios, câmeras de rastreamento
termográfico e sensores sonoros, ‘para ver de longe, em detalhe e no
escuro’ (JB, 21/6/2002). Que locais seriam vigiados ? Para o autor da
idéia, informava a mesma reportagem, ‘o crime organizado se dá num local
concreto, os morros’. Previa sobretudo a ocupação do território ‘inimigo’
por policiais lotados em quartéis pré-moldados de concreto e placas de
aço, que seriam transportados por helicópteros especiais. Outro
pesquisador da mesma instituição definia a situação do Rio de Janeiro como
a de um confronto ‘entre a civilização e a barbárie’. Pouco mais de um mês
depois, já em julho, o Secretário de Segurança apresentava um conjunto de
medidas que incluía o uso de helicópteros, do dirigível e a construção de
muros nas favelas vizinhas às vias expressas (JB, 24/7/2002). De início, o
‘Pax Rio’ seria utilizado somente como auxiliar no patrulhamento das vias
expressas, mas logo se propôs um emprego mais amplo, prevendo inclusive
seu deslocado para além da região metropolitana (JB, 31/7/2002). A
coordenadora de segurança e justiça afirmava que o alto custo da aeronave
seria “compensado pelo melhor aproveitamento dos recursos policiais”,
otimizando a utilização das viaturas em terra.
Há mais de duzentos
anos atrás, Jeremy Bentham, fazia a seguinte observação: “o ponto mais
importante seja, talvez, o de que as pessoas a serem inspecionadas devam
sempre sentir-se como se estivessem sob inspeção ou, pelo menos, como
tendo uma grande possibilidade de estarem sob inspeção” e que “quanto
maior for a probabilidade de que uma determinada pessoa, em um determinado
momento, esteja realmente sob inspeção, mais forte será a persuasão – mais
intenso, se assim posso dizer, o sentimento que ele tem de estar sendo
inspecionado”. O que Bentham estava propondo, pouco antes da Revolução
Francesa, era um novo tipo de Casa de Inspeção aplicável sobretudo a
penitenciárias mas também passível de ser utilizado em fábricas,
hospícios, escolas e outros tipos de prédios onde houvesse a necessidade
da vigilância sobre um grupo de pessoas. O princípio fundamental era a
circularidade na disposição das celas individuais, isoladas umas das
outras e totalmente devassadas pelo olhar do inspetor situado na torre
central (informa o JB em 24/7/2002: “o Batalhão da Maré, ainda em fase de
construção, vai passar por uma reformulação. Para ajudar na vigilância,
será construída uma torre de 10 metros de altura”). O importante é que
este inspetor podia ver a todos sem ser visto por ninguém.
Esta
utopia da vigilância absoluta com economia de meios foi muito bem
analisada por Michel Foucault. Este princípio da vigilância sobre o
indivíduo, visando a internalização das normas e dos padrões, foi chamado
por Foucault de “sociedade disciplinar”. A escola, a prisão, o hospital, o
quartel, funcionariam como uma rede institucional de seqüestro e
confinamento do indivíduo, visando seu disciplinamento. Depois da morte de
Foucault, Gilles Deleuze escreveu um artigo em que postulava a passagem
das sociedades disciplinares às sociedades de controle. Esta mudança
corresponderia a uma mutação do capitalismo, que teria substituído a
estrutura localizada e concreta da fábrica pela a mobilidade volátil da
empresa, da linha de montagem para a programação via computador e,
finalmente, da vigilância para o monitoramento. Não mais o confinamento
nas instituições, agora em crise, mas o controle à distância, através de
“coleiras eletrônicas”, de cartões magnéticos permitindo ou bloqueando a
circulação dos indivíduos em determinadas áreas.
A Segurança
Pública virou o grande tema, praticamente o único tema das campanhas ao
governo do Estado do Rio de Janeiro em 2002. Uma análise dos programas de
governo dos candidatos nos dá uma amostra da tendência geral de
desrespeito à liberdade individual em nome da nova utopia. Um candidato
propõe um sistema de monitoramento dos carros através da instalação de
chips pelo DETRAN. A atual governadora, além do ‘Olho no céu’, acena com
um Sistema de Monitoramento por Câmeras de Vídeo, para controlar e reduzir
os índices de criminalidade. Outra candidata acena com a “pulseira
eletrônica”, “para acelerar a liberação provisória dos (presos que) não
oferecem risco à sociedade”, além de também prever a utilização de câmeras
de vídeo, inclusive “a criação de um sistema de MONITORAMENTO eletrônico
através de pontos e de câmeras fixas e móveis (...) instaladas inclusive
em equipamentos de vôo”. Ou seja, entre a esquerda e a direita, parece não
haver diferença: todos falam em monitoramento e em controle. As favelas e
áreas empobrecidas da nossa cidade serão submetidas a um duplo panoptismo.
Vigiadas em terra pelos traficantes que impedem a livre movimentação dos
moradores e controlam com mão de ferro as atividades comunitárias,
destruindo o espaço de produção da cultura popular carioca, agora estarão
também submetidas a um “Olho no céu”.
Tais políticas, além de se
constituírem numa perigosa escalada totalitária, reforçam a idéia de que o
crime organizado esteja enraizado nas favelas, privilegiando a sua face
mais visível e espetacular (as bocas de fumo e seus soldados pesadamente
armados) e ocultando o crime enquanto um processo amplo que envolve redes
mundiais de importação de drogas e armas, lavagem de dinheiro e corrupção
em vários níveis (policiais, magistrados, políticos). Será o dirigível
capaz de filmar a movimentação das contas numeradas ? Suas câmeras serão
potentes o suficiente para registrar a desigualdade social, o desemprego e
a falta de perspectivas que tornam os jovens moradores de favelas uma
mão-de-obra descartável a ser empregada na ponta mais perigosa deste
processo ? Os sensores instalados no ‘Pax Rio’ darão conta do processo de
globalização que tudo transforma em mercadorias, dentre as quais a droga é
a mais rentável ?
O crime não está enraizado nos morros. Ele não
brota da miséria. O crime organizado está estruturado como uma empresa
capitalista ultra-moderna, móvel, volátil, anônima. O crime deve ser
entendido como parte de um processo de produção da riqueza perverso e cada
vez mais global. Nenhum dirigível nos trará a paz.
Marcos
Alvito é professor do Departamento de História da UFF
[EMAIL PROTECTED]
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