Nesse particular, aliás, eu não dou sorte. Num encontro aqui no Rio
com García Marquez, na casa de Rubem Braga, contaram-lhe que quando me
perguntam se sou Ferreira Gullar, tenho mania de responder: "Às vezes." E o
faço por uma razão simples: tenho dois nomes, o outro, de batismo, é José
Ribamar Ferreira. E também porque nem sempre sou capaz de escrever os poemas
que o Gullar escreve ... ainda que maus. Pois bem, não é que o García
Marquez chegou de Portugal e, numa entrevista, atribuiu essa frase a Jorge
Luis Borges? É claro que tais confusões só me lisonjeiam.
Mas a verdade é que certo dia me vi induzido a
escrever uma série de aforismos sobre a crase, esse grave problema
ortográfico e existencial que boa parte dos escritores, jornalistas e
escrevinhadoras em geral não conseguem resolver. A crase tornou-se assim um
pesadelo nacional. Hoje menos, porque já ninguém, sabe o que é escrever
certo ou errado. Mas, naqueles idos de 1955, as pessoas tremiam diante de
certos "aa". Talvez por isso o meu aforismo teve tão boa acolhida e
rapidamente espalhou-se pelo país.
A mania de forjar aforismos eu a adquiri dos
surrealistas, que criaram obras-primas como: "Bate em tua mãe enquanto ela é
jovem.". Em 1955, no suplemento literário do Diário de Notícias,
publiquei os meus "Aforismos sobre a crase", antecipados de uma introdução
que não vou transcrever aqui porque não tenho comigo o recorte, extraviado
em alguma das tantas pastas que guardo no armário do escritório. Os
aforismos, tentarei relembrá-los e reconstitui-los. Vamos a
eles.
A crase não foi feita para humilhar
ninguém.
Maria, mãe do Divino Cordeiro, craseava
mal, e o Divino Cordeiro, mesmo, não era o que se pode chamar um bamba na
crase.
Zaratusta, que tudo aprendeu com os
animais do bosque, veio aprender crase numa universidade da
Basiléia.
Quem tem frase de vidro não atira crase na
frase do vizinho.
Frase torcida, crase
escondida.
Antes um abscesso no dente do que uma
crase na consciência.
Uns craseiam, outros ganham
fama.
Os campeões da crase quando erram ditam
leis.
O ditadores não sabem que em frases como a
bala ou à bala, é indiferente crasear ou não.
Oh!, Univac, que craseais sem pecado,
craseai por nós, que recorremos a vós!
Nota: Univac era o computador mais avançado na
época. Anos depois, abro uma revista e lá está no alto de um anúncio de
página inteira: "A crase não foi feita para humilhar ninguém _
computadores IBM. Não me pediram permissão para usar o aforismo,
claro, porque ninguém sabia de quem era. E eu estava clandestino,
foragido da ditadura, sem poder botar a cabeça de fora. Não me atrevi a
cobrar os meus direitos autorais. Mas a IBM bem que podia, agora que estamos
em plena democracia, pagar o que me deve ...
Ferreira Gullar, in A Estranha Vida Banal,
1989.