policia-livre  

[Policia Livre] Fw: CARTA À GERALDO VANDRÉ

ana_prudente
Sat, 05 Feb 2005 19:37:34 -0800

Buscando ler mensagens lá de trás, me deparei com essa maravilha de poema, enviado a mim pelo Flavio
e que só agora descobri. Se eu soubesse mexer com formatações, certamente esta não passaria sem.
Ana
 
 
                                        Este poema do capitão foi publicado em 1969, na mesma data da canção de Geraldo Vandré. Flavio
 
CARTA À GERALDO VANDRÉ
 
                          Soldados perdidos de arma na mão.
                          No quartel lhes ensinam antigas lições.
                          De morrer pela Pátria e viver sem razão...
                                                            Geraldo Vandré.
         "Caminhando" - ou "Para Não Dizer que Não Falei das Flores" - a famosa canção de Geraldo Vandré, continua repercutindo no seio das Forças Armadas. Ainda agora, um poema-resposta àquela canção vem obtendo intensa circulação em todos os setores militares. Assinada pelo Capitão-Engenheiro João Batista da Silva Fagundes, com sede em Itajubá, Minas Gerais, o poema-resposta é o que transcrevemos a seguir:
 
1 - Eu sempre gostei de arte
      música e do violão!
      Por isso peço atenção
      Ao pobre e singelo aparte.
      Que mando cá desta parte
      Do fundo do coração
      Ouvindo a tua canção
      Que fala sobre os soldados
      E julgas - pelo teu lado
      "Perdidos de armas na mão..."
2 - E vendo a toada bonita
      Que deste ao Maracanã
      Não pude ficar teu fã
      No meio de tanta grita,
      Pois eu conheço a desdita
      Ao longo desta Nação
      E sei que as armas na mão
      Não andam sem resultado.
      Bendigo todo o soldado
      Que cruza o nosso torrão.
3 - Não vi soldados perdidos
      Na vastidão deste chão,
      Se existem armas na mão
      Também existem bandidos...
      Gente que perde o sentido
      Banhada em tola vaidade
      E muito cedo se invade
      Por cantilenas descrentes
      Falando em nomes de gentes
      Que nunca viu de verdade!
4 - Andei por vales e serras
      Sertões, caatingas e matas...
      Não trago o ouro nem prata...
      Do fundo de tantas terras.
      Fui muito feliz na guerra
      E fiz gigantesca obra
      A qual me deixa de sobra
      Bom saldo na vida eterna
      Pois trago a marca na perna
      De três picadas de cobra...
5 - Vibrei de emoção um dia
      Ouvindo um primeiro trem
      E a gente que o viu também
      Chorava ali de alegria.
      E em cada apitar sentia
      O raio de nova aurora
      Dos novos Brasis que agora,
      Surgiam naquelas frentes
      No meio daquela gente
      Que sofre mais do que chora.
6 - Levei à Amazônia as cores
      Do nosso verde e amarelo
      Fiz nosso Brasil mais belo
      No passo dos meus tratores.
      Semeei milhares de flores
      Em terra virgem nativa
      Que a gente verde oliva
      Pisava por vez primeira
      Levando junto à Bandeira
      Mensagem mais que altiva.
7 - Semeei milhões de dormentes
      Sulcando brasileira.
      Fiz coisas que na verdade
      Nem eram para um tenente!
      Fiz partos e arranquei dentes...
      Dei aulas, semente e pão.
      Do povo - fiz a Nação
      E agora vem um Vandré
      Dizendo que é tudo em vão!
8 - Por isso sem ter violão
     Também fabrico protesto
      Pois vejo neste teu gesto
      Pobreza de coração...
      Que lança só confusão
      No meio do povo inculto
      Mas nada constrói de vulto
      Olhando a tua Nação.
      Que te dá paz, luz e pão
      Enquanto bradas estulto.
9 - Que trazes junto contigo
      Além do violão e o ouro?
      Cantando com tal desdouro
      Quem nunca negou-te abrigo
      Quisera ver-te comigo
      No fundo lá das fronteiras!
      Levando a nossa Bandeira
      A terras de gente nossa
      E ver se ainda essa bossa
      Ladrava dessa maneira.
10-Que sabes tu de pobreza?
      Que sabes tu de Nação?
      Se os passos que dás no chão
      Nem sempre vêm com firmeza
      Jamais sentiste na mesa
      A falta do vinho e do pão
      E agora vens ao violão
      Com ares lá do Calvário
      Fazer da asneira um hinário
      Em nome desta Nação...
11-Não temos velhas lições
      No culto da tradição.
      Pois ela forja a Nação
      O povo das multidões
      Mas tuas fracas canções
      Não sentem que esse argumento
      É chama, é calor, é alento
      É tudo nos bons ideais
      Dos bons soldados leais
      Que ofendes neste momento
12-Nação é povo idealista
      Nação - é feita de ideais
      Não são cantigas banais
      Das folhas de uma revista
      Ninguém de pequena vista
      Verá fundamento ou graça
      Nas coisas que dão à raça
      Sabor de grande Nação
      São coisas que o teu violão
      Não troca pela cachaça...
13-Tu nunca viste outra frente
      Sem ser a do castelinho
      Por entre copos de vinho
      Por entre uísque fluente.
      Mal sabes que toda gente
      "Perdidas de armas na mão"
      É que te assegura o pão
      De filho de papai rico
      E evitam calar teu bico
      De arauto da ingratidão.
14-Coitado de ti, meu filho
      Que enterra nobre alento
      Com gritos, sem fundamento
      Que tanto te ofusca o brilho
      Tu nunca viste em teu brilho
      O pranto, a tristeza, a dor
      Rodando em rico motor
      Com o sol e praia por lema:
      O sol lá de Ipanema
      A praia lá do Arpoador...
15-Enquanto aumentas a prata
      Na pompa dos festivais
      Há gente boa demais
      Lutando por entre as matas
      Levando vidinha ingrata
      Sem água, sem luz, sem pão
      Pregando a "velha lição"
      Que aquilo é terra da gente
      E alguém precisa ir à frente
      Porque milhares não vão.
16-Alguém precisa ter raça
      Porque milhares não têm!
      Alguém precisa também
      Zelar por toda esta massa
      Antes que a voz da desgraça
      Espalhe cantos bestiais
      E à sombra dos festivais
      Cultivem gritos de guerra
      Fazendo de nossa terra
      Sepulcro dos bons ideais.
17-Por isso faz heresia
      Quem julga velha lição
      Que foi-me posta na mão
      Nos bancos da Academia
      E hei de sentir um dia
      De ver meu Brasil de pé
      Embora vários Vandrés
      Se ponham no seu caminho
      Tentando lançar espinhos
      Nas flores da nossa fé.
18-As flores que não mataste
      Quando pisaste sobre elas
      Pois são mais fortes e belas
      Que aquelas que lá semeaste
      As tuas nascem sem haste
      Sem brilho, sem luz, sem nada
      As minhas nascem douradas
      Com muito mais fundamento
      Deixando as tuas ao vento
      Na poeira da minha estrada.
19-Desculpa se de meu posto
      Respondo como soldado,
      Não pude ficar calado
      Com tal ofensa no rosto
      Senti profundo desgosto
      Nos gritos da multidão
      E vi que as armas na mão
      Não podem ficar de lado
      Bendigo a voz do soldado
      Que faz de um povo - a Nação!
                                  (Itajubá, MG.- 10-11-68- João Batista da Silva Fagundes -                                      Capitão Engenheiro)
 
 
 

 


Esta mensagem foi verificada pelo E-mail Protegido Terra.
Scan engine: McAfee VirusScan / Atualizado em 15/12/2004 / Versão: 4.3.20 - Dat 4415
Proteja o seu e-mail Terra: http://www.emailprotegido.terra.com.br/

-----------------------------------
Endereços da lista:
Para entrar: [EMAIL PROTECTED]
Para sair: [EMAIL PROTECTED]
-----------------------------------

cancelar assinatura - página do grupo
  • [Policia Livre] Fw: CARTA À GERALDO VANDRÉ ana_prudente