CARTA À
GERALDO VANDRÉ
Soldados perdidos de arma na mão.
No quartel lhes ensinam antigas lições.
De
morrer pela Pátria e viver sem razão...
Geraldo
Vandré.
"Caminhando" - ou "Para Não Dizer que Não Falei das Flores" - a
famosa canção de Geraldo Vandré, continua repercutindo no seio das
Forças Armadas. Ainda agora, um poema-resposta àquela canção vem obtendo
intensa circulação em todos os setores militares. Assinada pelo
Capitão-Engenheiro João Batista da Silva Fagundes, com sede em Itajubá,
Minas Gerais, o poema-resposta é o que transcrevemos a
seguir:
1 - Eu sempre
gostei de arte
música e do
violão!
Por isso peço
atenção
Ao pobre e singelo
aparte.
Que mando cá desta
parte
Do fundo do
coração
Ouvindo a tua
canção
Que fala sobre os
soldados
E julgas - pelo teu
lado
"Perdidos de armas na
mão..."
2 - E vendo a
toada bonita
Que deste ao
Maracanã
Não pude ficar teu
fã
No meio de tanta
grita,
Pois eu conheço a
desdita
Ao longo desta
Nação
E sei que as armas na
mão
Não andam sem
resultado.
Bendigo todo o
soldado
Que cruza o nosso
torrão.
3 - Não vi
soldados perdidos
Na vastidão deste
chão,
Se existem armas na
mão
Também existem
bandidos...
Gente que perde o
sentido
Banhada em tola
vaidade
E muito cedo se
invade
Por cantilenas
descrentes
Falando em nomes de
gentes
Que nunca viu de
verdade!
4 - Andei por
vales e serras
Sertões, caatingas e
matas...
Não trago o ouro nem
prata...
Do fundo de tantas
terras.
Fui muito feliz na
guerra
E fiz gigantesca
obra
A qual me deixa de
sobra
Bom saldo na vida
eterna
Pois trago a marca na
perna
De três picadas de
cobra...
5 - Vibrei de
emoção um dia
Ouvindo um primeiro
trem
E a gente que o viu
também
Chorava ali de
alegria.
E em cada apitar
sentia
O raio de nova
aurora
Dos novos Brasis que
agora,
Surgiam naquelas
frentes
No meio daquela
gente
Que sofre mais do que
chora.
6 - Levei à
Amazônia as cores
Do nosso verde e
amarelo
Fiz nosso Brasil mais
belo
No passo dos meus
tratores.
Semeei milhares de
flores
Em terra virgem
nativa
Que a gente verde
oliva
Pisava por vez
primeira
Levando junto à
Bandeira
Mensagem mais que
altiva.
7 - Semeei milhões
de dormentes
Sulcando
brasileira.
Fiz coisas que na
verdade
Nem eram para um
tenente!
Fiz partos e arranquei
dentes...
Dei aulas, semente e
pão.
Do povo - fiz a
Nação
E agora vem um
Vandré
Dizendo que é tudo em
vão!
8 - Por isso sem
ter violão
Também fabrico
protesto
Pois vejo neste teu
gesto
Pobreza de
coração...
Que lança só
confusão
No meio do povo
inculto
Mas nada constrói de
vulto
Olhando a tua
Nação.
Que te dá paz, luz e
pão
Enquanto bradas
estulto.
9 - Que trazes
junto contigo
Além do violão e o
ouro?
Cantando com tal
desdouro
Quem nunca negou-te
abrigo
Quisera ver-te
comigo
No fundo lá das
fronteiras!
Levando a nossa
Bandeira
A terras de gente
nossa
E ver se ainda essa
bossa
Ladrava dessa
maneira.
10-Que sabes tu de
pobreza?
Que sabes tu de
Nação?
Se os passos que dás no
chão
Nem sempre vêm com
firmeza
Jamais sentiste na
mesa
A falta do vinho e do
pão
E agora vens ao
violão
Com ares lá do
Calvário
Fazer da asneira um
hinário
Em nome desta
Nação...
11-Não temos
velhas lições
No culto da
tradição.
Pois ela forja a
Nação
O povo das
multidões
Mas tuas fracas
canções
Não sentem que esse
argumento
É chama, é calor, é
alento
É tudo nos bons
ideais
Dos bons soldados
leais
Que ofendes neste
momento
12-Nação é povo
idealista
Nação - é feita de
ideais
Não são cantigas
banais
Das folhas de uma
revista
Ninguém de pequena
vista
Verá fundamento ou
graça
Nas coisas que dão à
raça
Sabor de grande
Nação
São coisas que o teu
violão
Não troca pela
cachaça...
13-Tu nunca viste
outra frente
Sem ser a do
castelinho
Por entre copos de
vinho
Por entre uísque
fluente.
Mal sabes que toda
gente
"Perdidas de armas na
mão"
É que te assegura o
pão
De filho de papai
rico
E evitam calar teu
bico
De arauto da
ingratidão.
14-Coitado de ti,
meu filho
Que enterra nobre
alento
Com gritos, sem
fundamento
Que tanto te ofusca o
brilho
Tu nunca viste em teu
brilho
O pranto, a tristeza, a
dor
Rodando em rico
motor
Com o sol e praia por
lema:
O sol lá de
Ipanema
A praia lá do
Arpoador...
15-Enquanto
aumentas a prata
Na pompa dos
festivais
Há gente boa
demais
Lutando por entre as
matas
Levando vidinha
ingrata
Sem água, sem luz, sem
pão
Pregando a "velha
lição"
Que aquilo é terra da
gente
E alguém precisa ir à
frente
Porque milhares não
vão.
16-Alguém precisa
ter raça
Porque milhares não
têm!
Alguém precisa
também
Zelar por toda esta
massa
Antes que a voz da
desgraça
Espalhe cantos
bestiais
E à sombra dos
festivais
Cultivem gritos de
guerra
Fazendo de nossa
terra
Sepulcro dos bons
ideais.
17-Por isso faz
heresia
Quem julga velha
lição
Que foi-me posta na
mão
Nos bancos da
Academia
E hei de sentir um
dia
De ver meu Brasil de
pé
Embora vários
Vandrés
Se ponham no seu
caminho
Tentando lançar
espinhos
Nas flores da nossa
fé.
18-As flores que
não mataste
Quando pisaste sobre
elas
Pois são mais fortes e
belas
Que aquelas que lá
semeaste
As tuas nascem sem
haste
Sem brilho, sem luz, sem
nada
As minhas nascem
douradas
Com muito mais
fundamento
Deixando as tuas ao
vento
Na poeira da minha
estrada.
19-Desculpa se de
meu posto
Respondo como
soldado,
Não pude ficar
calado
Com tal ofensa no
rosto
Senti profundo
desgosto
Nos gritos da
multidão
E vi que as armas na
mão
Não podem ficar de
lado
Bendigo a voz do
soldado
Que faz de um povo - a
Nação!