(30/09/2002)
A propaganda dos candidatos encobre os postes, avan�a pelas
cal�adas, largas faixas cortam a vis�o dos viadutos, qualquer
espa�o de muro ou fachada serve para o apelo dram�tico ao
voto.
Fica dif�cil, para quem passa de carro, ler todas aquelas
propagandas, se tivesse disposi��o para tanto. Para chamar a
aten��o um candidato ousado, e certamente com boa caixa,
postou ao longo da Rebou�as, a cada 50 ou 100 metros, homens
carregando um cartaz perguntando: "Quem � 1818?".
Para responder a essa pergunta, o passante s� tinha como
indica��o a legenda PST. Mas logo adiante vem o
esclarecimento: "Eu sou, 1818" (com v�rgula e tudo). "Marc�lio
Duarte, Deputado Federal. O voto � seu. A obriga��o � minha".
Parado pelo congestionamento, perguntei a um dos homens que
carregavam o cartaz quanto estava recebendo por aquele
trabalho. Ele n�o regateou informa��es. Aquele neg�cio de
ficar segurando cartaz no canteiro central da avenida �
chat�ssimo e quando uma pessoa chega para conversar deve ser
um al�vio.
- R$ 15, respondeu, para ficar de estaca entre as 7 da
manh� e sete da noite.
- E o almo�o?
- O candidato paga, disse ele com um sorriso franco, de
poucos dentes.
N�o contei, mas calculo que, no trecho entre a Av. Paulista
e a ponte Eus�bio Matoso - uns 2,5 quil�metros ou quase meia
l�gua caipira -, havia uns 30 daqueles homens carregando o
cartaz do 1818. Ou seja, brasileiros temporariamente
empregados. O que n�o chega a ser desprez�vel neste magro fim
de governo.
Havia outros compatriotas trabalhando. Uns agitavam
bandeiras, na esquina da Av. Brasil, para o governador e
candidato � reelei��o Geraldo Alckmin. Outro, solit�rio,
procurava escalar um poste de cimento, tentando arrumar o
cartaz do deputado Jos� Genoino, tamb�m candidato a
governador.
Na profus�o de cartazes naquele local, enforcaram Genoino
em ef�gie. Uma faixa gritando "QU�RCIA senador" estava sendo
tamb�m ajeitada. Seguiam-se cartazes de Romeu Tuma, tamb�m
candidato a senador, com a indefect�vel estrela de xerife,
que, aparentemente, � heredit�ria. Robson Tuma, candidato a
deputado federal, tem uma menorzinha.
A julgar pelas ruas e avenidas mais movimentadas de S�o
Paulo, est� correndo bastante dinheiro nessa elei��o. Falo da
grana legal. Da ilegal, n�o tenho id�ia. As gr�ficas, como
sempre, est�o faturando bem, e dando mais empregos, claro.
E, al�m dos milion�rios marqueteiros, advogados
especializados em pedir direito de resposta nos programas
eleitorais na TV, publicit�rios e jornalistas com habilidades
diversas, tem pregador e carregador de cartaz, tem pintor,
pichador, armador e arranjador de faixa, distribuidor de
santinho, motorista, motoqueiro, etc. Surgiu tamb�m uma nova
especialidade: os internautas que nos bombardeiam com e-mails.
(Depois da queda de alguns palanques, os carpinteiros est�o em
baixa.)
Mas quem est� ganhando dinheiro para valer nesta elei��o
s�o os operadores do mercado financeiro. Na coluna que aqui
foi publicada segunda-feira, procurei determinar a taxa m�dia
mensal de eleva��o da cota��o do d�lar desde os idos de
fevereiro. Tenho um velho v�cio profissional de fazer contas e
cheguei a aventurar que o d�lar chegaria a R$ 3,60 no segundo
turno, embora n�o me surpreendesse se ele fosse a R$ 3,80 ou a
R$ 4.
Ca� do cavalo. O d�lar subiu � taxa m�dia mensal de 4,99%
de fevereiro at� 20 de setembro. Do dia 23 em diante, a
cota��o do d�lar passou a saltar, em m�dia, 2,62% por dia. A
cota��o, que estava em R$ 3,405 (venda) no dia 23, pulou para
R$ 3,875 na �ltima sexta-feira, quando o d�lar chegou a bater
durante o dia em R$ 3,90. Em uma semana, a cota��o do d�lar
avan�ou 13,8%.
At� a alta c�pula do governo perdeu a esportiva desta vez.
Na sexta-feira, os jornais davam em manchete declara��es do
Fernando Henrique Cardoso condenando a absurda especula��o. O
ministro Pedro Malan, que est� em Washington para a reuni�o do
FMI, disse que o ganancioso mercado � movido por medo e
ignor�ncia. N�o adiantou nada.
Como n�o v�o adiantar os bons resultados do balan�o de
pagamentos, a boa palavra do FMI sobre o Brasil e as
afirma��es de banqueiros de que Lula n�o mais assusta. Dizem
que � um grupelho de operadores que maneja as cota��es, o que
� relativamente f�cil em um mercado estreito.
Surgiu a sugest�o de que o governo mude o c�lculo da Ptax
(taxa m�dia), alargando o per�odo de c�lculo, o que poderia
reduzir os gastos do Tesouro em rela��o aos t�tulos com
corre��o cambial. Mas bastou essa suspeita para jogar mais
lenha na fogueira. O governo parece manietado. N�o h� nada a
fazer sen�o ficar aguardando n�o se sabe bem o qu�. � como na
pe�a "Esperando Godot", de Samuel Beckett: os personagens,
Estragon e Vladimir, decidem no final ir embora, mas
permanecem im�veis.
Cai o pano.