From: Cidade dos Reis http://cidadedosreis.blogspot.com/
by: Mario Ivo Cavalcanti

ah

ah se eu fosse um daqueles poetas que o Jorge Fernandes quis ser um 
dia eu saberia na hora na bucha no momento se é algazarra folia ou 
hino o esforço de pluma desses pássaros em descortinar a manhã como 
se o mundo fosse lar ninho caverna de milhõezinhos de manoelitos de 
barros um em cada esquina saltitando bicando alpistes insetos 
migalhas parando pra conversar com borboletas tecnicoloridas 
mariposas rola-bostas centopéias grilos joaninhas imbuás lacraus ah 
se eu fosse um desses poetas testosteronados a camiseta alargando 
músculos os tênis cadarços em desalinho planejado o jeans lavado 
descosturado os pés plantados bem firme no chão o olhar seguro 
confiante maduro jovial simpático sorridente displicentemente blasé 
marginal outsider aventuroso destino globe-trotter marca registrada 
caixa registradora bolsos vazios sem a bagana suja amarfanhada de 
antão ah se eu fosse um desses poetas sujos a barba por fazer o corpo 
franzino e magresquelético os dentes dedos nicotinados a cadência 
solta frouxa de palavras excêntricas quilométricas em seus 
centímetros aparentemente cordiais em seus milhões de anos luzes de 
novelos entrechos labirintos de teses antíteses sínteses em sua 
leitura objetiva concreta faca afiada de razões e dez mandamentos ah 
se eu fosse um desses poetas com as raízes bem fincadas na seca 
esturricada do sertão com direito a fardão de algodão cru armorial à 
sombra duma serra tresmalhando na malhada afugentando a canícula como 
o vacum espanta moscas berberes infiéis com seu rabo açoite vento 
abrigado ah se eu fosse um desses vates doutores pediatra de adultos 
e fêmeas infantis o açúcar-cande na ponta da lingüinha solta a mão no 
bolso alisando sensabor a grossura máscula do pau pai do rebanho os 
dentes sutis resfolegando no pescoço alvar das caçadoras em corsa com 
os lupus e os canis amārus ah se eu fosse um desses poetas 
consagrados com mulher e filhos e babá horas extras nanando nanindo 
ganindo vomitando babas salamaleques puxões no culhão do alheio 
cevando letras frases perguntas oblívios cartões postais de crédito 
imbecil vodka whisky cherish scottish bloomwish sandwich ah se eu 
fosse um desses poetas artistas que usam óculo escuro pra sua alma 
fingir tão bem o indizível o aprazível o canhoto destro sinistro do 
talão galão cheques choques chocos trinta dinheiros onze mil virgens 
nenhuma idéia na cachola cetácea e uma dama lilás por companhia 
promessa de felicidade amparo muleta de intelectual na finestra 
indiscreta barril de amontillado muro de pedras cal cã cio ah se eu 
fosse um daqueles poetas da guerrilha colombiana bolivariana cubana 
capim saia gomada plissê pot-pourri purpurina ocarina messalina 
púlpito douro entronizado no altar da malemolência e da decadência do 
samba roque baião rap hip hop melodia alcatrão nos prumos da irlanda 
da islândia de reykjavic costas quentes olhar profundo toco de 
charotos na comissura labial dedos ágeis soando bronzes sinos sonhos 
em tergal valise de couro boletim bainha duelo fim ah se eu fosse um 
poeta dicionarizado antologicizado dissecado de frente e de verso de 
costas e de prumo ventral dorsal olhos míopes boiando no fundo dum 
rosto azul aguardando impaciente na esquina mais um ganir de 
pneumáticos e a colisão metálica de ferro aço vidro borracha carne ah 
se eu fosse um daqueles poetas que o Jorge Fernandes quis ser um dia 
eu mas não eu não acredito em nada nada disso nem na ausência de 
vírgulas nem na descostura dos pontos na inflexão tesa dos verbos na 
desconstrução repentina do parágrafo em nada acredito eu nem



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