Não quero ganhar na Mega Sena

Cefas Carvalho

Não quero ganhar na Mega Sena. Pronto, está dito. Também não rasgo dinheiro, 
não como excrementos nem me jogo na frente de carros em alta velocidade. Não 
sou doido, ou talvez seja só um pouquinho, como convém aos poetas e 
jornalistas. Sem um pouco de loucura como viver neste mundo estranho? Mas, 
voltemos à loteria. Sempre me assombrei com a paixão do brasileiro médio pela 
Mega Sena, principalmente quando ela está acumulada. Conheço amigos que pouco 
ou nunca arriscam gastar suado dinheiro em jogos, mas quando a Mega Sena 
acumula lá vão eles para a fila das lotéricas. Não que cada um de nós não tenha 
o direito de sonhar em ganhar uma bolada, de mudar de vida, de ficar rico. O 
que me fascina é a falta de noção do brasileiro quando a dinheiro (pelo menos 
em grandes quantias) e oportunidades. É como se uma vez acumulada, a Mega Sena 
fosse uma oportunidade mais fácil, mais real e a quantia maior fosse 
significativa. Mas, afinal, para quem recebe um ou dois salários mínimos, qual 
a diferença entre ganhar 10 milhões ou 20 milhões? A bem da verdade, para quem 
não tem quase nada, ganhar 500 mil difere de ganhar 5 milhões? É estranho um 
cidadão que recebe um caraminguá de 380 reais por mês não querer jogar na 
Lotofácil ou na Lotomania porque na maioria dos jogos eles pagam “apenas” 600 
mil como prêmio máximo. Talvez esta postura algo macunaímica do brasileiro 
explique muito da nossa situação atual. O sujeito trabalha feito um cão para 
ganhar um dos salários mínimos mais baixos do mundo Ocidental e  se sente 
lesado se jogar numa loteria e ganhar um prêmio que não o deixe milionário. 
Aliás, retorno agora ao título deste texto: não quero ganhar os 22 milhões na 
Mega Sena (e não tenho chances de ganhar, posto que não jogo na Mega Sena) 
porque sei que com um dinheirama destes minha vida se tornaria um inferno. Eu 
seria brindado com pedidos de parentes e amigos que eu nem lembrava que 
existiam e seria alvo preferencial de gente sem caráter, interesseiros em geral 
e marginais. Já com uns 200 ou 300 mil pouco chamativos, minha vida mudaria da 
mesma forma, mas em escala mais suave: eu compraria um bom apartamento, 
montaria minha editora, ajudaria a amigos, parentes e conhecidos sem muito 
exagero ou ostentação, pegaria minha amada Cláudia e passaria meses entre 
Veneza e Paris. Depois continuaria tocando minha vida, trabalhando, indo ao 
Beco da Lama, visitando os poucos e bons amigos. Tudo o que eu não poderia 
fazer se recebesse os 22 milhões da Mega Sena. Que o felizardo (?) que os 
ganhar faça bom uso deles.

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