Publicado em tempos remotos
(no sentido histórico, já que no geológico é menos que um ínfimo um frame)
Jornal de Hoje - dez. de 03
Eis o texto na íntegra ...
CASCUDO E CAR(NA)TÉIS
Verossímil ao tempo, a terra não pára. A proximidade com o solstício de verão
austral, traz a estação do desejo aos trópicos dos pecados tórridos. Um fim de
ano, marcado por dois eventos emblemáticos, mas díspares: a I Mostra de Cultura
Popular, promovida esplendidamente pela Secretaria Estadual de Educação, e, no
extremo antagônico, o Carnatal, produzido pela Destaque.
A Mostra revelou o elefante e suas entranhas mais sagradas: o sincretismo
cultural. A idéia da profª. Isaura Rosado de pragmatizar a educação via
cultura, é antídoto infalível contra a homogeneização global da aldeia. A
invenção e a auto-estima popular se reencontram em suas vestes mais íntimas:
Bois Calembas, Fandangos, Pastorinhas, Caboclinhos, Cheganças, Lapinhas, Congos
(de Saiotes ou Calçolas), Ararunas, Maneiros-paus, etc. Tatuando nos corpos
(docentes e discentes) práticas quase extintas ou semi-desaparecidas do
imaginário coletivo. Cascudo redimido acenderá charutos, regozijando-se ao
deleite das peripécias da massa em evoluções.
O Carnatal, maior evento do estado, encontrou porto seguro na nossa cidade,
sempre travestida de modernidade, seduzida pelo "outro", fadada à aculturação.
A Baianidade, azeitada pelo caldeamento de todos os santos e raças, lança
ritmos e concomitantemente consolida mercado, numa estratégia perfeita - sem
crise, nem baixa estação. Os defensores proferem argumentos hiperbólicos ("é o
maior fora de época do...") ou naturalizam ("é gerador de renda e emprego"). De
um lado, o Carnatal, do outro, a fome geral catando latinhas. Papangus
modernosos, fantasiados de abadébeis e a corriola, pipocando além das
fronteiras marginalizantes das cordas. Aqui, essa indústria transforma e
transtorna a cidade, que passa por toda uma reengenharia, do trânsito, da
iluminação, na segurança/policiamento e na saúde, os serviços públicos
tornam-se otimizados, com aparatos eficientes, enquanto que no cotidiano
real...
Car(na)téis. Na horda da política (estadual e municipal) orbitam vereadores,
deputados, secretários, interagindo numa clara intervenção estatal no processo
de acumulaçãode riqueza, introduzindo novos elementos para dinamizar a
economia, sob a égide do turismo e do folclore artificial. A configuração do
poder local, em comunhão com os principais grupos econômicos, sincronizam
interesses ávidos, que convergem para a sustentação da animosidade carnabestial.
O escritor Giba Felisberto Vasconcelos, brincava no Bar Mintchura em meados
dos 80, apelando para Maiakovski, se existe um homem feliz, é lá no Brasil,
afirmava convicto, e só pode ser o Cascudo. Giba, colunista da revista "Caros
Amigos", cita e recita o "Príncipe do Tirol" em todos os seus artigos.
Recentemente, chama o Luís da Câmara de "o filósofo do povo brasileiro". E
critica a "professorança universitária", que prefere erigir pensadores
estrangeiros como Lacan, Fucô, Weber, e não leva a sério o santo (de casa)
fazedor de milagres. "O pior de tudo que nem mesmo em Natal, aonde o mestre
veio ao mundo, ele não é assimilado na Universidade e em outras instituições,
ou seja, a sua obra ainda não se converteu em força material. Para desgraça e
infortúnio do povo potiguar".
O advento da Mostra Popular deve simbolizar a pedra fundamental no resgate de
nossa memória. Quem sabe, inaugurar uma cruzada pela inserção da disciplina
"Literatura Norte-rio-grandense" na grade curricular em estados vizinhos já
se cobra em concursos o conhecimento em suas literaturas peculiares. Não é
apenas reserva de mercado, mas uma forma eficaz de cultuar personagens,
imortalizando-os através de suas obras. Uma leitura ou grafia, atribuindo
sentido aos espaços imagéticos do RN, revisitando desde a concretude processual
(o "suspenso" de Jorge Fernandes os visuais e semióticos de Falves, A. de
Araújo, Jota Medeiros), até a identidade com o chão profundo, no nativismo de
Itajubá, Auta, Manuel Dantas, Palmyra, Otoniel...
Vivalha a lamaravilha. A SAMBA (Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e
Adjacências), em movimento de resistência ao estorvo micareta, realiza o II
Carnabeco, homenageando foliões etéreos e eternos: Maestro Mainha, Lelo
Melodia, Blackout, Boscopeta. Axé ou ôxente? Um paralelo de parabélum na língua
- mais forte são os saberes do povo!
Publicado Jornal de Hoje - 12/03
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