A virtude do sofrimento é o poder de extrair do âmago das pessoas o que há
de mais puro e belo, que a dor impõe. Este texto, na minha humilde opinião,
é de uma pureza singela, que poucas penas, conseguem escrever.
Parabéns, pelo pai que você teve.

Chl.


Em 08/12/07, Yasmine <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
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>    *A SOLIDÃO E O PÁSSARO*
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> * *
>
>
> Sozinho.
> Todos os que vieram já estavam longe. Nem as ligeiras sombras de presença
> existiam mais.
>
> O estômago vazio e a gripe teimosa, o que sobrou enchendo o corpo e
> esvaziando a alma. A casa calada, irônica.O rádio azul falando e cantando
> sem que seus ouvidos escutassem. Deu-se conta: a solidão se plantara e ele
> se transformara em morcego desesperado procurando saída.
>
> Fechou-se a porta do quarto.Ruído suave do ar condicionado,único silêncio
> audível.
>
> Abriu o livro na página marcada,denunciando suspensão de leitura. A luz
> fraca e a própria vontade menor faziam as letras distantes. O pensamento
> escapulia, ia e voltava. Pessoas e mundos, tempos e estações passavam.
> Cumprimentavam-se, ignorando-. E resolveu deixar que a solidão deitasse ao
> seu lado. Ofereceu-se, sem forças.
>
> A solidão é fria, seu corpo é macio. O abraço veio sólido e silencioso.
> Como uma angústia que começa devagarinho e se torna súbita, em gigantesca
> montanha de neve e fogo. " Assim começam os pesadelos", admitiu. Deixou-se
> tomar pelo envolvimento. " A necessidade de não estar sozinho faz
> isso",pensou. Nem percebeu que voava.   Como um pássaro ferido, de asas
> pesadas.
>
> Pairava e bailava sobre a enorme cidade. E avistou a janela aberta.
> Estranha janela tão conhecida como um poema perdido entre papéis em completo
> esquecimento. " Ali estará o meu amor", disse com certeza. O peso das asas
> faziam-lhe o voo curto. Esforço supremo, aproximação. Lá dentro estaria   
> amor?
> Haveria abraço, um sorriso, uns olhos buliçosos e um beijo real?
>
> A janela aberta. E uma porta certamente fechada.
>
> Tentou arremeter voo rápido. Onde forças e coragem?
>
> "Nenhum amor me espera,nenhum". E deixou que o peso da alma aumentasse
> sobre as asas.
>
> E se foi deixando cair, despencar: ave baleada certeiramente.
>
> O livro caiu sobre o peito.
>
> Levantou-se  e apagou a luz. Com cuidado, deitou-se e num sussurro que
> explodiu como um grito, segredou:
>
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>
> - Boa noite, solidão. Abrace-me, indesejável amante.
>
> E durante noites e noites nunca mais dormiu.
>
>
>
> **Rubens Lemos*
>
> *São Paulo - 1983*
>
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> .
>
> 
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