*Crítica/cinema/"A Maldição da Flor Dourada"

Chinês alcança seu melhor resultado com melodrama *

*Ação mantém lugar apoteótico em trama sobre poder e cobiça em família
imperial *

  Divulgação
*A atriz Gong Li (à frente) em cena do filme; diretor explora cores em
relato carregado de incestos, traições e envenenamentos*

*CÁSSIO STARLING CARLOS*
CRÍTICO DA FOLHA

Aambição de Richard Wagner de realizar uma obra de arte total, reunindo sob
o signo da grandeza elementos visuais, auditivos e narrativos já migrou, há
bastante tempo, do espaço da ópera para o cinema, um meio com muitos e mais
recursos. Ela assombra, por exemplo, obras de cineastas como Francis
Coppola, George Lucas, Peter Jackson e, em seus últimos filmes, o chinês
Zhang Yimou.
"A Maldição da Flor Dourada", lançado timidamente na última sexta, é o
melhor resultado da fase começada por Yimou com "Herói" (2002) e que teve
depois o sucesso de "O Clã das Adagas Voadoras". São filmes nos quais o
diretor chinês ajustou seu gosto freqüente pelo esteticismo a espetáculos de
ação capazes de agradar mais a platéias ocidentais não inclinadas aos ritmos
contemplativos de seus primeiros filmes.
Ao contrário, porém, dos títulos que o antecederam, em "A Maldição da Flor
Dourada" a ação deixa de ser a mola do espetáculo, mantendo para si um lugar
apoteótico ao final. O núcleo é uma trama de poder e cobiça no meio de uma
família imperial, retratada com tintas shakespeareanas, ao modo como, em
outros tempos, fazia o japonês Akira Kurosawa (que Zhang parece emular desde
"Herói", com a estrutura chupada do clássico "Rashomon").
Contudo, a tendência de Zhang pelos excessos converte o trágico
shakespeareano em puro melodrama, gênero mais popular e mais espetacular,
sem deixar de estar menos sujeito às reviravoltas traiçoeiras dos destinos e
apto ao comentário político subjacente.
No melodrama, o prazer da saturação pode se satisfazer sem precisar temer as
coerções do equilíbrio. É a este prazer que Zhang se entrega (e oferece à
platéia), com um trabalho visual grandioso que explora os amarelos e
vermelhos nos interiores, e os dourados e negros na apoteótica cena de
batalha.
Ao seu colorismo corresponde um relato carregado de som e fúria, em que
incestos, traições, envenenamentos e punhaladas pelas costas podem parecer
demais, mas nunca são poucos.
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*A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA
Produção:* China, 2006
*Direção:* Zhang Yimou
*Com:* Chow Yun Fat, Gong Li
*Onde:* em cartaz no Cine UOL Lumière e Iguatemi Playarte
*Avaliação:* bom

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