Conto de Natal


  MARCOS FERREIRA

  Escritor

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  O trânsito nervoso e congestionado não era empecilho para a frágil bicicleta. 
Cruzou o amarelo da Lucas Mateus feito uma bala. Por pouco não colidiu com o 
entregador de pizzas, que avançara cerca de um metro sobre a faixa de pedestres.

  Na velocidade em que vinha, inclinando-se ao extremo, fez a curva da João 
Batista com arrojo e destemor. Quase raspou sobre o asfalto novo da rua a ponta 
do joelho. De dentro de um veículo estacionado em frente a uma agência 
bancária, o menininho gorducho o fitou com surpresa e fascínio, ajeitando sobre 
o nariz sardento os óculos de grau.

  No bagageiro da bicicleta, preso por uma dessas borrachas com ganchos 
metálicos nas pontas, o disforme saco dos brinquedos tremulava ao sabor dos 
catabis e do vento. Na junção da Pedro Malaquias com a Judas Cordeiro, 
desviou-se de uma boca de esgoto com imprevista agilidade.

  Era um Papai Noel esguio, de porte atlético e bastante seguro nos pedais. 
Cortava o ar da noite impulsionado por trinta e três anos de rudez e explosão 
muscular. Abrigava ainda nas fibras do corpo os reflexos adquiridos sobre os 
carrinhos de rolimã na quadra da escola. Fazia ele mesmo os brinquedos que 
pudesse engendrar com folhas-de-flandres, pedaços de madeira e peças 
imprestáveis que adquiria nos arredores de casa.

  Ao cabo das aulas, em conjunto com outros garotos pobres da escola, investia 
contra as goiabeiras, sapotas e cajás-mangas do monsenhor André Cardoso. Ali se 
esbaldava até o pôr-do-sol no festivo recreio da infância periférica. Depois, 
sem dar pelo cansaço ou distância, regressava ao modesto lar no Morro do Belém.

  Agora, no entanto, a cena era bem menos pueril. Entre uma e outra pedalada, 
Nazareno voltava agilmente a cabeça, como a querer certificar-se de que não 
estava sendo perseguido. Poderia o pulha do gerente ter acionado alguém para 
prendê-lo em flagrante com o produto do crime. Uma moça da loja, justamente a 
que mais lhe enfeitiçara os olhos pirilampos, seria arrolada como testemunha 
ocular. Dera um azar tremendo em ser flagrado logo por Madalena — era este o 
nome impresso no crachá da funcionária. Ainda repicava-lhe na concha dos 
ouvidos o estridente e acusador alarma:

  — Pega ladrão!... Pega ladrão! — gritou Madalena ao vê-lo escapulindo com o 
saco nas costas.

  — Pega ladrão!

  Na disparada, Nazareno livrou-se primeiro da obesidade postiça que lhe haviam 
enxertado por entre a roupa vermelha. Até alcançar a bicicleta (já em ponto de 
fuga no outro lado do muro), deixou cair a reluzente faixa de ‘Boas Festas!’, 
que usava atravessada sobre o peito viril. Depois, ao longo das curvas e retas 
da cidade, foi-se embora o pequeno gorro e a sedosa peruca de cabelos brancos. 
Somente uma parte da nívea barba de algodão permanecia grudada à pele suarenta 
da face. O resto se despregara ao longo do caminho. Os olhos, vivamente azuis e 
precipitados para fora das órbitas, tinham neste momento um quê de 
marginalidade e ternura.

  Teria a cor dos olhos do rapaz influenciado de algum modo o gerente ao ter 
escolhido a ele, Nazareno, para a função de Papai Noel da loja? Decerto que 
sim. Pois um sujeito de físico muito mais de acordo com o posto fora 
sumariamente dispensado pelo empregador, que fez o seguinte comentário ao 
avistar Nazareno:

  — Ora, vejam só... Os olhos dele são azuis como anil!

  Mas, dissolvendo a amenidade do comentário, o alarde da funcionária ainda 
ecoava-lhe nos tímpanos feridos:

  — Pega ladrão!... Pega ladrão!

  Era a primeira vez que lhe aplicavam o famigerado título da marginalidade com 
tanta ênfase. Decidira-se pelo furto a partir do momento em que o gerente da 
loja, de nome Bartolomeu, recuou no preço acertado por uma diária de Papai 
Noel. Ao fim de uma semana na “pele” do Bom Velhinho, recebera apenas dois 
terços do valor combinado.

  — Não foi isso que acertamos.

  — Sim, é verdade, mas as vendas também estão fracas. Ao menos por enquanto 
não posso lhe pagar mais que esse valor.

  — O senhor não está sendo justo.

  — Ora, meu rapaz, não seja mal-agradecido.

  — Mal-agradecido, eu?

  — Isso mesmo. Estou lhe dando uma oportunidade, aproveite. Há outros por aí 
que a essa hora gostariam de ficar com esse trabalho.

  — Mas nós...

  — Você é um privilegiado, lembre-se disso. Veja como anda o desemprego neste 
país. Claro que o seu salário ainda é pequeno, mas tem essa oportunidade que 
lhe dei. E outras podem surgir aqui na loja. Deixe terminar o mês. Não se 
afobe. Aguarde as vendas melhorarem. Agora vá se trocar, já está atrasado.

  — Mas não é correto. O senhor me prometeu que...

  — Depois! Agora vá se vestir.

  Nazareno não atravessaria essa noite de Natal sendo explorado pelo 
unha-de-fome do Bartolomeu. Além de mal pago, havia ainda a chatice de cumprir 
horário. Postava-se à entrada da loja das oito da manhã até as nove da noite. 
Uma horinha só para o almoço e outra para o jantar. Engolia à pressa e 
retornava ao trabalho, vestido a caráter, para atrair os supostos clientes, que 
passavam arredios.

  — Você é um privilegiado — a frase o insultava.

  Antes houvesse permanecido na incerta rotina de flanelinha. Ao menos havia 
mais liberdade e o pedágio feminino no entorno da Praça do Vigário era muito 
mais sortido. No biscate da loja só baixavam por ali aquelas mãezonas com a 
filharada de nariz empinado. Raramente algum moleque se deixava atrair por sua 
personagem.

  — Você é um privilegiado.

  Sentia-se mais no papel do Homem Invisível do que em qualquer um outro. 
Entendia que as crianças de hoje já não alimentavam essa lorota de Papai Noel. 
Ele próprio, filho unigênito de um simples carpinteiro e de uma humilde 
dona-de-casa, constatara muito cedo a tal farsa natalina. Pobrezinhos de jó, os 
pais de Nazareno não tinham dinheiro para presenteá-lo com os brinquedos da 
moda.

  — Não seja mal-agradecido.

  Não era. Muito menos devia gratidão ao picareta do gerente. Então, para 
vingar-se do unha-de-fome e descolar um trocado no comércio clandestino do 
Morro, ele saltou o muro da loja com o saco cheio de brinquedos. Venderia 
alguns artigos e distribuiria o restante com os moleques da comunidade. O jipe 
com controle remoto seria ofertado ao menininho Baltazar, sempre tão resignado 
em sua perpétua cadeira de rodas. A locomotiva ficaria nas mãos do extrovertido 
Belchior, filho de um amigo guardador de carros. O circunspeto Gaspar ganharia 
os soldadinhos de borracha da ONU. A boneca Barbie e o jogo de maquilagem iriam 
para a filhinha da lavadeira Ester.

  Nazareno pedalava a plenos pulmões. Alcançou o bairro de Nova Canaã e 
atravessou a ponte Ezequiel Habacuque. Descia agora em alta velocidade a 
íngreme ladeira do Bom Pastor. De quando em quando virava a cabeça para trás, 
perseguido pela desconfortável idéia de que a polícia poderia surgir a qualquer 
momento no seu encalço.

  — Pega ladrão! — a voz da garota parecia ecoar em cada esquina.

  Por viver à margem da sociedade, embora com outros meios de entendimento e 
raciocínio, sabia-se marginal. Mas ninguém lhe marcara ainda com o infame 
título.

  — Pega ladrão!

  Não era um bandido, não tinha antecedentes criminais nem índole malfazeja. 
Até se considerava um elemento de bom coração, figura benquista no meio social 
de que era integrante. Daria o jogo de damas com estojo de fórmica ao estudioso 
Davi, filho caçula do amigo Moisés. As vaquinhas, os bois, os cavalinhos e a 
fazendola de plástico seriam do moleque Jonas, que não tinha nem pai nem mãe e 
era criado pela benzedeira Rute.

  Tudo teria transcorrido na mais completa felicidade, caso o semáforo da 
ladeira do Bom Pastor não houvesse bruscamente saltado do verde para o vermelho.

  Essas lâmpadas costumam queimar e os filisteus deste lado do mundo levam 
tempo demasiado longo para fazer a troca. Daí acontece de alguns sonhos e 
ilusões se apagarem com as lâmpadas que queimam nos sinais de trânsito. Pois de 
nada adiantaram a enorme freada e o esforço do motorista para conseguir livrar 
Nazareno. Junto à bicicleta destruída, em meio aos brinquedos espalhados sob o 
caminhão-tanque da White Martins, uma frágil bailarina rodopiava em sua 
caixinha de música.



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