Da terra dos Janduís aos caminhos de São Bento do Bofete 

 Por Alexandro Gurgel
Foto: AG Sued

Naqueles sertões, quem passa serelepe pela estrada em direção à Serra do Lima 
percebe a brisa catingueira trazendo todos os aromas da terra dos índios 
janduís, da nação Tarairiú, extintos depois de vários combates em defesa do seu 
habitat. Situada na ribeira do Riacho dos Sacos, a cidade é encravada 
estrategicamente no cruzamento de vários caminhos entre o sertão do Rio Grande 
do Norte, da Paraíba e do Ceará, sendo núcleo convergente entre várias fazendas 
e os grandes centros urbanos.

É verdade que o município de Janduís não possui grandes monumentos ou lugares 
famosos para o turista visitar. Porém, o incentivo às manifestações culturais 
deu ao seu povo um talento inato para as artes, como se a identidade dos 
janduienses estivesse sempre ligada as suas tradições e seus costumes, sem 
intervenção externa. Um dos grandes alumbramentos culturais da cidade fica por 
conta da Companhia Cultural Ciranduís e seu teatro mágico pelas ruas do 
município.

Desde cedo, o pequeno jaduiense aprende que durante a colonização do sertão, 
existia na região uma confederação de tribos indígenas, hostis à Coroa 
portuguesa. Entre as nações indígenas, uma das mais destemidas era a dos 
Janduís, cuja denominação deriva do tupi "nhandu-í-a", uma corruptela para "a 
ema pequena". A ema seria o totem da tribo. Depois que os índios foram 
dizimados, surgiu o Sítio São Bento.

Conforme o historiador Luiz da Câmara Cascudo, em seu livro Nomes da Terra 
(editora Sebo Vermelho, 2002. Natal RN), a localidade ficou por muito tempo 
conhecida como São Bento do Bofete. O nome do lugar deve-se ao fato de que, as 
feiras ali realizadas, sempre terminavam em tumultos, havendo uma farta 
distribuição de tabefes, pontapés e bofetões. 

A fundação da povoação é atribuída a Canuto Gurgel do Amaral, dono da maior 
parte das terras, que fez doação de um terreno foreiro para o padroeiro, 
tentando desenvolver a comunidade. Em 1938, a localidade passou a ser distrito 
de Caraúbas com o nome de Getúlio Vargas, mudando em 1943 para Janduís, em 
homenagem aos índios pioneiros da região.

Numa terra seca, castigada por longas estiagens, distante 286 km quilômetros de 
Natal, o município de Janduís está situado na região do Médio-Oeste, sertão do 
Rio Grande do Norte, às margens do pequeno rio "Adquinhon" ou "Rio das Croas". 
O município sofre com o calor nesses tempos de verão por causa do terreno 
baixo, situado entre as partes altas do Planalto da Borborema e da Chapada do 
Apodi.

Por que é necessário redescobrir a história que, recentemente, um grupo de 
estudantes encontrou inscrições rupestres na localidade conhecida como "Pedra 
da Biluqueza", um forte atrativo para a exploração de um turismo de 
conhecimento e ecológico. Do imaginário popular nascem as lendas da "Oiticica 
do Bode", no caminho da cacimba que abastecia a cidade; e do "Serrote da 
Negra", que conta a história de uma antiga escrava que morava numa Casa de 
Pedras e se transformou em serpente.

A noite em Janduís fica mais curta e mal-assombrada. As janelas e portas das 
casas mais humildes se fecham mais cedo para ouvir as histórias de Lázaro de 
Liuliu, um artista plástico dedicado a fervilhar a cultura janduiense n'alma 
dos mais jovens, no recanto chamado "Canteiro das Artes", onde os pássaros e 
bichos da região são talhados em madeira e chegam para interromper a monotonia 
sertaneja, resgatando antigas brincadeiras de criança.

Em outubro, Janduís se adorna para celebrar sua padroeira, Santa Terezinha, 
quando a solidão das ruas e o ermo dos becos são quebrados pelas ladainhas dos 
devotos que acompanham o andor, arrastando a Santa até o altar. Da Casa Grande 
da Fazenda São Bento é possível ouvir o badalar do sino da matriz, avançando 
sobre os telhados da cidade e anunciando um sertão de lembranças.

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