Viver Pega de Boi resgata uma tradição seridoense TRADIÇÃO - A Pega de Boi ainda é praticada no Rio Grande do Norte 25/12/2007 - Tribuna do Norte
Alexandro Gurgel - Jornalista O pequeno curral espreme dezenas de bois, devidamente escolhidos, que se mexem de um canto ao outro, levantando poeira e fazendo algazarra, como se já soubessem que seriam mascarados naquela manhã. Quando o boi é solto, rapidamente se embrenha na caatinga, tendo ao seu alcance dois vaqueiros encourados que seguem o badalar do chocalho, rasgando o mofumbal entre espinhos de juremas secas e touceiras de xique-xiques. O boi é perseguido, laçado, derrubado e mascarado, num curto espaço de tempo. A parelha de vaqueiros vence o boi e a caatinga, ostentando na rusticidade natural de seu aspecto grotesco uma imagem viva e militante da grandeza selvagem daquela gente simples e forte. Encourado, de perneiras, gibão, guarda-peitos e chapéu de couro com barbicacho a apertar-lhe um queixo protegido por uma barba escassa, o vaqueiro tem no seu rosto, rasgado pelos espinhos de jurema, um troféu da sua valentia. O mês de novembro marcou o início da temporada sem chuva no sertão, onde a terra esturricada pela seca é cenário para uma das mais tradicionais manifestações nordestina: a "Pega do Boi no Mato", quase esquecida pela modernidade. Pensando em preservar a memória do sertanejo, valorizando a figura do vaqueiro, a Fazenda Pitombeira, em Acari, realizou a "II Pega de Boi no Mato", o "III Encontro dos Vaqueiros da Ribeira do Acari" e a "Missa do Vaqueiro". A tradição da Pega de Boi no Mato chegou ao Seridó com a colonização e a expansão da criação de gado, quando não havia as cercas delimitando as fazendas e o boi era solto na caatinga. Ao final da estação chuvosa, os fazendeiros reuniam os vaqueiros da região para pegar o boi, marcar a ferros e conduzir para áreas onde os pastos eram mais abundantes. Quando a bravura dos vaqueiros prevalecia, os fazendeiros recompensavam concedendo o direito de saborear uma boa cachaça enquanto comiam a carne de um boi gordo. Conforme Marcus Nepomuceno, fazendeiro e idealizador do evento, a "Pega de Boi no Mato" é uma maneira de resgatar uma das mais autênticas tradições seridoenses e preservar uma cultura genuinamente nordestina. "Valorizamos o vaqueiro porque sempre foi um homem de muita confiança na fazenda. Além de sua fama de valente. Sou um entusiasta das nossas tradições sertanejas e o evento é uma forma de homenagear a grande figura do vaqueiro", ressaltou. Tecendo comentários sobre a Pega de Boi, Câmara Cascudo escreveu em Vaqueiros e Cantadores: "Prova legítima de habilidade e força, torneio sagrador de famas, motivo de cantadores que imortalizaram a façanha".
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