28/12/2007 - 07h00
"O DRM é demoníaco", diz o especialista em software livre Jon "Maddog" Hall
*CHARLES NISZ | do UOL Tecnologia*
"O cachorro louco está mais calmo". A frase é de Jon "Maddog" Hall,
presidente da Fundação Linux International e um dos maiores especialistas em
software livre do mundo. No dia 30 de novembro, "Maddog" (em português,
"cachorro louco") esteve em São Paulo para inaugurar uma sala de ensino de
software livre.
Viajando sempre sozinho, Hall dedica a vida a hastear a bandeira do software
livre nos quatro cantos do planeta. Após a cerimônia de inauguração da sala,
Hall conversou com o *UOL Tecnologia*.
CACHORRO LOUCO[image: Charles Nizs/UOL]Hall: defensor do software livre quer
Wimax disseminada no Brasil
Apesar da fala tranqüila e da aparência simpática ("o apelido me foi dado
por alunos, mas já não faz jus à minha postura"), Hall critica os softwares
de código fechado, chama o Digital Rights Management (DRM) de "demoníaco",
fala sobre mobilidade e um projeto para levar a Internet a 85% dos
brasileiros. E também elogia o Brasil.
*Vantagens do software livre*
"Quando quero mostrar as vantagens dos sistemas abertos em palestras, uso os
seguintes argumentos: programas proprietários dão problemas para 98% dos
usuários que eu pergunto e, se os erros são reportados ao fabricante do
software, não há feedback para 97% deles. A verdade é que as empresas
simplesmente não conseguem dar suporte a seus clientes. Se uma empresa tem
quatro mil funcionários e quatro milhões de licenças, cada funcionário teria
de dar suporte a mil problemas todo ano. É humanamente impossível".
Para Hall, "outra desvantagem é requisitar sempre pagamento pelo produto,
mesmo que seja só por uma atualização. Em suma, é pagar duas vezes pelo
mesmo serviço sem ter a certeza de suporte para versões antigas", finaliza.
*Pirataria*
"O software livre é mais barato e mais gente usa", afirma Hall. "Quando você
escreve o código, ele pode ser aprimorado por todos. O Windows tem cerca de
10 mil patentes criadas pela Microsoft. Alguém já leu todas para saber se
está infringindo alguma lei?" questiona.
"Há uma posição falsa sobre a pirataria de programas: eles querem que você
use os softwares, mas nem sempre as pessoas podem pagar (ainda mais nos
países em desenvolvimento)", avalia Hall. "Proteger a informação e dar
segurança ao usuário é bom. Tirar informação é ruim. O modelo de direitos
autorais que temos hoje é derivado das idéias do tempo de Gutenberg, no
século 15. O DRM é demoníaco".
*Linux x Windows*
O cachorro louco não economiza munição quando o alvo é o Windows. Em
resposta a Bill Gates, que prefere que produtos piratas da Microsoft sejam
usados em vez dos softwares livres, Hall pergunta: "Por que em vez de
guerrear contra o código aberto, a Microsoft não se aprimora? Uma das
vantagens do Linux é a facilidade no suporte. O Ubuntu tem suporte para mais
de 200 idiomas. Os programas proprietários são uma anomalia da computação".
"Hoje, o Linux corresponde a apenas 10% do mercado. Mas o Linux é
inevitável: 80% dos supercomputadores e um terço dos servidores usam
sistemas baseados em Unix (programa em que o Linux se baseia)" explica Hall.
"Uma pequena mudança na BIOS aliada ao abandono dos processadores Intel
faria com que 96% dos usuários mudassem para o software livre e desistissem
do padrão Wintel (junção de Windows e Intel)".
*Desafios*
"A maior dificuldade em relação ao software livre é a falta de documentação:
tanto para programas quanto para aprimoramentos. Eu gosto de fazer essa
tarefa, mas a maioria acha chato", responde Hall. "Existe uma inércia em
relação ao software livre. As pessoas reclamam da interface, dos aplicativos
e da necessidade de usar linhas de comando. Mas se eu resolver esses 10
motivos, as pessoas criarão outros 10. Ou seja, é um trabalho incessante de
persuasão e convencimento", sintetiza.
*Dicas sobre software livre*
"Para quem quer se aprimorar em software livre, dou os seguintes conselhos:
consiga expertise —se o cara da loja da esquina não sabe como fazer, ele
indicará alguém que saiba— leia bastante sobre Linux; procure grupos de uso
de software livre no seu bairro ou na universidade; e não tente aprender
tudo sozinho", enumera. "E lembre-se de uma coisa que poucos sabem: os
servidores que conectam você à Internet diariamente usam sistemas baseados
em Linux".
*Política*
"A maioria da empresas de software do mundo é americana. Se acontece um
incidente entre os dois países quem prestará manutenção desses programas? É
uma questão também política", explica. "Sustento minha tese com a seguinte
constatação: quais são os quatro países para quem as empresas americanas não
vendem software? Síria, Irã, Coréia do Norte e Cuba. Óbvio que há uma
conotação política nesse fato".
*Brasil*
"O Brasil é a estrela ascendente do software livre. Há outros países fazendo
bons trabalhos nessa área, como Alemanha, Uruguai e Japão. Mas, sempre digo
que o Brasil faz coisas interessantes" elogia. "Contudo, é preciso criar um
"ecossistema de software". Não é apenas uma questão de informática. Envolve
negócios e a segurança nacional", insinua Hall.
*Inclusão digital*
Outro projeto que leva a mão de Maddog é a popularização no Brasil de redes
Wimax (conexão à Internet de banda larga sem fio e grande quilométrico). "A
intenção é fazer o índice de penetração da Internet chegar a 85%. É um
projeto para médio prazo, cerca de cinco anos", explica. "O projeto da OLPC
(a Fundação One Laptop per Child, de Nicholas Negroponte, celeiro do laptop
de US$ 100) tem uma falha. Alguém sabe onde está o servidor Web para esses
PCs? Uma empresa chamada Koolu está ajudando a Linux International no
projeto sobre o Wimax", afirma Hall.