NATIVIDADE
   
   
                                                                  Neide de 
Camargo Dorneles
   
  É quase Natal!
  Comemoram, saem às lojas, vão às igrejas os cristãos e dão de ombros, aqueles 
que não.
  Busco no armário da dispensa a caixa certa... deixa ver...acho que é aquela – 
aquela em que guardei o pinheirinho, da outra vez. Perto dela as outras, as dos 
enfeites que brilham aos olhos de meninos de meninas como as luzinhas coloridas 
que enfeitam casas e ruas nesse período.
  Ao olhar direito vejo que está velho o meu pinheiro de tantos natais. E os 
enfeites, já ultrapassados, alguns até amarrotados. Tenho que comprar outros, 
não tem jeito. Um sentimento de nostalgia toma conta de mim. Levanto-me 
devagar, e olho no espelho de uma bolinha cor de prata, a minha imagem 
distorcida. Limpo uma das mãos na calça jeans e toco meu rosto, meus cabelos 
tingidos, olho minhas mãos. Meus olhos percorrem novamente o armário procurando 
uma coisa, que não sei bem onde guardei... ou que talvez nem mais esteja aqui. 
Ah! ali, coberto de poeira, passando totalmente despercebido o meu baú 
precioso, onde fui guardando, um a um, todos os meus sonhos. Alguns que já nem 
lembro mais. Assim como eu, continua fechado com um cadeado forte, cuja chave 
foi jogada fora. Dou de ombros e enxugo, com as mãos empoeiradas uma lágrima 
que escorre, sem querer. Então penso: quantos natais, quantos renasceres  
precisaria para realizá-los todos? 
  É duro descobrir que Papai Noel não existe e que, nesta tarde de novembro, 
Jesus é um bebê que ainda nem nasceu e que vagueia, léguas e léguas, na barriga 
de sua mãe, ao lado de seu pai, procurando um lugar onde ficar. 
  Já que o baú não abre nunca mais, vou tentar abrir meu coração a esse menino, 
que traz com ele, sempre, a Esperança.
   
   
   

       
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