*A ARTE DE CONVERSAR
/por Clotilde Tavares
/publicada na Tribuna do Norte em agosto/2003

Nos dias de hoje, existe uma febre de aprender que toma conta de todas as pessoas. Mas não estou me referindo aos cursos formais, que devem ser frequentados nas escolas e faculdades e sim àquele tipo de conhecimento que a gente não sabe direito se precisa dele mas mesmo assim vai atrás. Os livros que começam por "Como fazer..." enchem as estantes das livrarias e você pode encontrar títulos tão variados como o pioneiro "Como fazer amigos e influenciar pessoas", de Dale Carnegie, passando por coisas práticas do tipo "Como resolver o problema de insônia do seu filho", "Como se faz uma tese", "Como lucrar na crise", "Como evitar preocupações e começar a viver" e chegando a títulos mais sugestivos: "Como se dar bem com as mulheres", "Como fazer amor à noite toda e levar uma mulher à loucura", "Como desmanchar feitiços" ou "Como falar com seu anjo".

Entre tantas coisas que as pessoas podem aprender a fazer, eu quero sugerir algo que se fazia muito bem mas que, últimos trinta anos, parece que se desaprendeu um pouco: conversar. Isso mesmo, conversar, bater papo, dialogar. A conversação é uma arte. Manuais sobre o tema existem desde o século XVI mas acredito que se aprende mais na prática do que nos livros. Conversar é como jogar tênis, porque os conversadores hábeis, os bons de papo, fazem o possível para manter a bola no ar, sem deixá-la cair no chão do silêncio, da falta de assunto ou do monopólio da palavra.

As pessoas hoje em dia, principalmente os mais jovens, não sabem mais conversar porque não sabem escutar, uma vez que a arte de conversar inclui também os momentos de escutar o que o outro diz. Hoje, interrompem sem necessidade, não prestam atenção ao rumo da conversa ou -- pior ainda -- se irritam, esbravejam e tentam impor suas opiniões.

Montaigne, em seu capítulo VIII do Livro III dos "Ensaios" diz que a conversação é o mais proveitoso e natural exercício do espírito; e que ensina e exercita ao mesmo tempo. Mas é preciso, para usufruir das benesses de uma boa conversa, estar atento para alguns detalhes. É importante discutir as coisas no plano do universal, sem puxar para o particular. Por exemplo: a discussão sobre as vantagens e desvantagens do casamento pode ser interessante, mas começar a contar tim-tim por tim-tim como é o casamento da vizinha transforma a conversa em fofoca. É preciso também entender que só podemos conversar se houver diferença de opiniões. Se todo mundo estiver de acordo não há necessidade de falar: basta ficar em silêncio e comungar espiritualmente com quem esteja do seu lado, uma vez que não há opiniões para serem confrontadas.

Para quem tiver interesse, recomendo três livros: "A Arte da Conversação", de Peter Burke (UNESP); "A arte de conversar", de Alcir Pecora (Martins Fontes), e "A Arte de Conversar", de James A. Morris Jr. (Record).

Olhe: a melhor maneira de deixar o nosso cérebro brilhante é dar-lhe um polimento, esfregando-o no cérebro dos outros, sendo a conversação a melhor maneira de fazer isso. Pratique essa arte cujas regras de ouro são: não monopolizar, não interromper, não teimar, não tentar impor seu pensamento. Você vai ver como é bom.*

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