*Aula Dra Karen Bolla sobre maconha na UNIAD*

Karen I. Bolla, PhD

PhD pela Universidade de Nova York e Pós-doutorado pela Univ. Johns Hopkins,
Baltimore/EUA. Atualmente é Diretora da Neuropsicologia no Departamento de
Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, Bayview
Medical Center, Baltimore/EUA. O Serviço de Neuropsicologia é parte integral
da equipe de diagnósticos para o Centro Geriátrico do Hospital da
Universidade Johns Hopkins, a Clínica de Memória, Neurologia Geriátrica e a
Unidade Psiquiátrica. O foco das pesquisas da Dra. Karen é a investigação
das relações cérebro-comportamento nas áreas de: 1) abuso de substâncias
(maconha, ecstasy, cocaína, etc) 2) exposição a agentes neurotóxicos e 3)
envelhecimento normal e patológico, com o uso de medidas neurocognitivas por
si ou em combinação com a metodologia de neuroimagem (ex: PET, ressonância
magnética funcional ou exames estruturais do cérebro).

Aula proferida em 30.11.2007 - UNIAD

Conseqüências neurobiológicas associadas com o uso pesado de maconha

Artigo original
Neurology 200259:1337-1343
(c) 2002 American Academy of Neurology
Dose-related neurocognitive effects of marijuana use
K.I. Bolla, PhD, K. Brown, MPH, D. Eldreth, BA, K. Tate, BA and J.L. Cadet,
MD

Background: Although about 7 million people in the US population use
marijuana at least weekly, there is a paucity of scientific data on
persistent neurocognitive effects of marijuana use.
Objective: To determine if neurocognitive deficits persist in 28-day
abstinent heavy marijuana users and if these deficits are dose-related to
the number of marijuana joints smoked per week.
Methods: A battery of neurocognitive tests was given to 28-day abstinent
heavy marijuana abusers.
Results: As joints smoked per week increased, performance decreased on tests
measuring memory, executive functioning, psychomotor speed, and manual
dexterity. When dividing the group into light, middle, and heavy user
groups, the heavy group performed significantly below the light group on 5
of 35 measures and the size of the effect ranged from 3.00 to 4.20 SD units.
Duration of use had little effect on neurocognitive performance.
Conclusions: Very heavy use of marijuana is associated with persistent
decrements in neurocognitive performance even after 28 days of abstinence.
It is unclear if these decrements will resolve with continued abstinence or
become progressively worse with continued heavy marijuana use.

A maconha é a substância ilícita de maior prevalência de uso, e um
levantamento conduzido (EUA), dentre usuários de drogas em 2005, aponta:
- uso e maconha e outras drogas – 19.6%
- uso de outras drogas que não maconha: 25.8%
- uso somente de maconha: 54.4%

Qual a importância de se estudar os efeitos neurocognitivos persistentes do
uso de maconha
- amplo uso
- pressão constante no sentido de descriminalizar ou legalizar o uso para
fins médicos
- falta de dados científicos sobre este assunto

É sabido que: usuários pesados de maconha apresentam alterações em:
- funções neurocognitivas
- metabolismo cerebral
- estrutura cerebral

Objetivos do estudo: saber se os déficits neurocognitivos persistiriam após
28 dias de abstinência, determinar se estes déficits estavam relacionados à
quantidade de maconha utilizada (baseados por semana).

Escalas utilizadas: DUS (Drug Use Survey), Escala de abstinência de maconha,
ASI, DIS (Diagnostic Interview Schedule).

Critérios para inclusão no estudo:
- Procurar tratamento por vontade própria
- Ter usado maconha aos menos por 2 anos
- Ter fumado maconha ao menos 3 vezes por semana
- Ter um exame de urina positivo para maconha
- Beber menos de 14 drinques por semana
- Não ter história de doença neurológica ou psiquiátrica, ou usar outra
droga ilícita que não fosse maconha
- Inglês como língua nativa
- Ter HIV negativo

Método: abstinência monitorada de 28 dias e quantificação da dose (baseados
por semana) ao invés de dias usados nos 3 últimos meses.

Aplicação de testes neuropsicológicos: de linguagem, memória verbal, memória
visual, atenção e concentração, funções executivas, percepção/construção
visual, velocidade psicomotora, destreza manual.

Conclusões:
- Usuários muito pesados de maconha tem performances com decréscimos
persistentes depois de 28 dias de abstinência na áreas:
- memória visual, memória verbal, funções executivas, percepção visual,
velocidade psicomotora e destreza manual.
- Usuários pesados de maconha tem sua atividade cerebral afetada nas áreas:
córtex orbitofrontal, córtex dorsolateral prefrontal e córtex cingulado
anterior.

Um outro estudo pretendia verificar se o uso de maconha estava associado com
alterações no desempenho de tarefas e na atividade cerebral do córtex
orbitofrontal e dorsolateral prefrontal utilizando teste de IOWA Gambling
(tomada de decisões).

Conclusões:
Comparados a controles, usuários de maconha:
- tiveram desempenho pior do que os controles
- usuários pesados tiveram desempenho pior que os controles, e que aqueles
considerados com uso moderado.
- Usuários de maconha mostram menor ativação no COF direito e no CDLP
direito e maior ativação no lado esquerdo do cerebelo
- Usuários pesados de maconha mostram menor ativação no COF esquerdo médio e
maior ativação no lado esquerdo do cerebelo e lobo parietal esquerdo do que
os usuários moderados.
- atividade cerebral era similar entre grupo de usuários moderados e
controles
- uso maior de maconha esta associado com menor ativação no lado direito do
cerebelo e no giro orbital direito e maior ativação no giro hipocampal
direito.

Um estudo conduzido por Matochick et al.(2004) conclui que:

- a área do córtex prefrontal (funções executivas), hipocampo (memória) e
cerebelo (destreza manual, velocidade psicomotora) possuem um grande número
de receptores canabinóides (CB1)

Conclusões:
- uso pesado persistente de maconha produz um decréscimo adicional no
desempenho, que pode ter significância clínica no futuro.
- não está claro se o desempenho tornar-se-á pior com o uso contínuo ou se
se resolverá com a abstinência


Distúrbios do sono em usuários pesados de maconha

Sintomas da síndrome de abstinência do uso de maconha
- dificuldade para dormir/ sonhos estranhos
- inquietação, nervosismo, ansiedade, irritabilidade, raiva aumentada e
agressividade.
- diminuição do apetite e perda de peso

Objetivos do estudo: caracterizar distúrbios do sono em usuários de maconha
após a cessação do uso, usando exame laboratorial em clínica do sono

Conclusões:
- usuários de maconha apresentaram diminuição no tempo de sono total e na
eficiência do sono e aumento na latência do sono ( o que pode refletir
abstinência)
- usuários de maconha apresentaram insônia inicial
- usuários de maconha mostraram níveis anormalmente baixos de ondas lentas
do sono (similares aos sintomas de abstinência em alcoolistas)
- durante a síndrome de abstinência os usuários de maconha tiverem uma
arquitetura do sono diferente dos do grupo de controle
- a magnitude e gravidade destes achados sugerem que a síndrome de
abstinência de maconha tem importância clínica


Comentado por: Neide A. Zanelatto (UNIAD-UNIFESP) –
[EMAIL PROTECTED]



Autor: *Ronaldo Laranjeira*
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