O Invasor
(Invasor, O, 2001)

Por Alexandre Koball
10/01/2003

   Um ótimo policial urbano ambientado nas ruas de São Paulo. O cinema
nacional cresce.

Beto Brant mostra que o cinema brasileiro já voltou à fase adulta, e não nos
faz depender apenas de eventuais sucessos (*Cidade de Deus*, por exemplo),
pra ser respeitado. Isso mesmo, *O Invasor* é um filme ousado, inteligente,
com uma fotografia inovadora, realista, mas acima de tudo, é um filme bom
pra cacete, que faz pensar mas também entretém o espectador.

Temos como figuras centrais Ivan (Marco Ricca) e Gilberto (Alexandre
Borges), dois amigos e sócios de uma construtora, juntamente com Estevão
(George Freire). Acontece que este último, o sócio majoritário, está criando
problemas para os outros dois, ameaçando desfazer a sociedade. A solução
encontrada é contratar um assassino de aluguel (o titã Miklos) para acabar
com Estevão. O que eles não esperavam é que, após o serviço feito, Miklos,
com seu jeito de bandido malandro, do tipo "não tou nem aí pra esses caras",
resolve se intrometer na empresa. Acuados, Ivan e Gilberto não podem fazer
nada a não ser ver esse completo e perigoso desconhecido fazer parte do
dia-a-dia da construtora.

O melhor de O Invasor é ser um suspense policial tenso desde o início,
ajudado pela ótima atuação de Paulo Miklos e sua cara-de-pau para se
intrometer nos negócios dos outros personagens. O ator-cantor se dá muito
bem em sua estréia na profissão, embora cometa erros primários em um ou dois
momentos (o principal é olhar para a câmera quando não devia). Ele tem
inclusive um monólogo rápido em frente ao espelho imitando De Niro em *Taxi
Driver*.

As coadjuvantes Mariana Ximenes (que já fez papel de patricinha em algumas
novelas da Globo), e sobretudo Malu Mader (como é bom vê-la de novo na
tela), estão ótimas no filme, esbanjando sensualidade e bastante talento
também. Ximenes talvez tenha o papel mais ousado de sua carreira, até o
momento, com seu relacionamento utópico entre ela e Anísio (o personagem de
Miklos). Filha do empresário morto por ele, a atriz vive a típica
adolescente rebelde de classe média-alta. A sua atuação é muito convincente,
e o filme dá de presente a seus fãs momentos bem "calientes".

Contudo, nem o clima tenso, muito menos as boas atuações de todo o elenco
seriam capazes de segurar tão bem o filme se não fosse a ótima direção de
Beto Brant. Câmeras trêmulas, atores encarando o espectador, cores fortes,
com muito contraste, longos takes sem cortes dão o tom do filme, o que faz
'O Invasor' ser fácil de ser apreciado visualmente, a não ser que você seja
um espectador deveras antiquado. Brant também nos brinda com cenas ousadas
das atrizes Ximenes e Malu Mader, porém evitando ao máximo (e sendo bem
sucedido) entrar no vulgar, fugindo do estereótipo de que todo filme
brasileiro deve ter sexo para vender. Há sim, sexo, mas você pode assistir
com qualquer pessoa sem se constranger muito (bem, pelo menos a maioria das
pessoas).

Outro tema presente no filme é a alienação que existe entre muitos
empresários bem-sucedidos, que tendo conquistado muita coisa na vida
(carreira, família, dinheiro), ainda não se vêem satisfeitos. Isso fica
muito explícito pelos personagens Ivan e Gilberto, cuja principal prioridade
é a de "se dar bem", doa a quem doer. O filme analisa as conseqüências desse
comportamento, traçando destinos interessantes para esses personagens.

Talvez o único ponto fraco de O Invasor seja o fato de que em certos pontos
a trama envolvendo algumas reviravoltas (como um final que tenta surpreender
o espectador) é bastante confusa, obrigando a quem assiste a ficar muito
atento para entendê-las. Caso você não consiga entender tais reviravoltas de
primeira, tudo bem, o filme não é apoiado aí, e a história, num sentido
generalizado, é de fácil entendimento. O final do filme é bem marcante e
forte, fazendo o espectador pensar no que viu assim que o filme acaba –
característica somente pertencente a filmes de ótima qualidade. Ah, faltou
citar a trilha sonora, que é pesada ao extrema, e dá ainda mais força ao
roteiro do filme.

Com seqüências marcantes, principalmente as envolvendo Miklos, 'O Invasor' é
a prova que o cinema brasileiro está em processo de evolução e, embora o
filme de Beto Brant não seja uma obra-prima, é bastante poderoso e muito bem
dirigido e interpretado. Para o mercado nacional, nos últimos anos, existem
apenas alguns poucos títulos superiores.


Por Alexandre Koball

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