O povo menino 
no seu presepe de palmeiras 
aguardou as oferendas de Natal.
 
A nau primeira 
trouxe o Rei do Ocidente 
que lhe deu o tesouro sem-par 
do Cantar do Amigo, 
dos Autos de Gil Vicente 
e, depois, a epopéia de Camões.
 
No navio negreiro 
veio o Melchior do mocambo 
talhado em azeviche como um ídolo benguela, 
com a oferta abracadabrante e gutural 
dos monossílabos de cabala. 

Nos transatlânticos e cargueiros, 
o Rei Cosmopolita, 
que tem as cores do arco-íris 
e os ritmos de todos os idiomas, 
trouxe-lhe o régio presente 
das articulações universais. 

Os três reis fizeram um acampamento das raças 
e ensinaram o povo menino 
a falar língua misturada 
de Babel e da América. 

E assim nasceste, 
agil, acrobática, sonora, rica e Fidalga, 
ó minha língua brasileira. 

poema de Menotti Del Picchia

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