3 DE MAIO DE 2008 - 00h17
  A Festa do Bode
*por Eduardo Bomfim**

A Festa do Bode é uma adaptação para o cinema, já nas locadoras, do livro
homônimo do peruano Mario Vargas Llosa, que narra, através de personagens, a
história de uma das ditaduras mais sangrentas e corruptas da América Latina,
que durou trinta e um anos (1930-1961). O regime na República Dominicana sob
o comando do tirano Rafael Trujillo.


  Trata-se de uma obra que deixa a marca de um dos grandes escritores do
nosso continente, politicamente conservador, que consegue construir
personagens densos, reais como a vida. Ele afirma que a história é uma obra
de ficção sobre um acontecimento verdadeiro, cuja figura principal é o "bode
velho", apelido que o povo conferiu a Trujillo.

Apavorado com as lutas democráticas que floresciam no continente, os EUA
apoiaram os perversos déspotas que se prestavam a combater impiedosamente o
anseio pela liberdade, com receio de que surgissem, principalmente na
América Central e no Caribe, regimes socialmente avançados.

Assim, investiu na sobrevida de vários carrascos da região, estratégia que
se estendeu para a América do Sul.

Todas as ditaduras possuem muito em comum, mas algumas são mais bizarras que
as outras, pelo caráter extremamente centralizado do poder, além da quase
infinita capacidade de produzir atrocidades, da paranóia que cerca a sua
sobrevivência, transformando tudo e todos em adversários reais e potenciais.


Havia inimigos em toda a parte e em perspectiva. Bastava que algum
desavisado resolvesse achar alguma coisa diferente do pensamento do "chefe",
outra alcunha dada a Trujillo, pelos seus fiéis seguidores.

Existiam os áulicos que tentavam aplacar suas consciências com o argumento
de que não participavam do trabalho imundo do arbítrio. Eram burocratas ou
profissionais capacitados que ajudavam o governo sem maiores envolvimentos.

Certo dia, Trujillo contrariado com a opinião de um subordinado de "mãos
limpas", disse-lhe: "você acha que é melhor do que os meus homens que sujam
as mãos de sangue. Pois eu vou lhe dizer uma novidade, todos somos iguais já
que eu sou a própria lama que fede".

Trujillo, virou um fardo insuportável e acabou fuzilado em uma emboscada
orquestrada pela CIA. Uma história latino-americana, como tantas que
ocorreram, de poder, ódio, transgressão, corrupção e violência.


------------------------------

**Eduardo Bomfim*, Advogado

Responder a