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 Desculpem, a adaptação livre é minha. Gilson.

***

Eis que à profunda noite, por volta das doze badaladas, o corcunda resolveu
cortar caminho até a taberna, pelo meio do campo santo.
Célere, por entre as tumbas, apertava o passo já antecipando o sabor do
vinho em suas papilas.

Foi então que, tomado de um misto de horror e surpresa, ouviu uma voz
lúgubre, oriunda das catacumbas:

- "Ó lazarento, o que carregas nas costas?"

Parou, de imediato, olhando nervosamente à sua volta.

E ouviu, de novo, mais alto:
- "Ó lazarento, o que carregas nas costas?"

Estupefato, sentindo eriçar todos os pelos do corpo, simplesmente conseguiu
balbuciar:
- "U... u... uma co... corcunda!"

E a voz:
- "Pois livrar-te-ei deste mal!"

E assim, num piscar de olhos, o corcunda sentiu o peso de anos abandonar
suas costas cansadas e, assustado mas revitalizado, nem voltou os olhos para
a fonte das mágicas palavras, correndo feito púbere até a taberna.

Nela adentrando, ofegante porém ereto, foi alvo de olhares dos que o
conheciam há anos.

A todos os curiosos, o antes corcunda, relatava sua experiência
sobrenatural entre um cálice e outro de vinho.

Todos na taberna se regozijaram com a súbita transformação do antigo corcova
e a isso brindaram dezenas de canecas.

Menos um.
Num canto escuro, um coxo invejoso e rabujento a tudo assistia e a tudo
amaldiçoava.
Desgostoso pela bênção do corcunda, tomou para si a possibilidade de
livrar-se do próprio mal e, coxeando, dirigiu-se até o campo santo.

Lá permaneceu horas mancando por entre as lápides e tumbas.
Mesmo implorando pelas vozes lúgubres, nenhuma lúgubre voz foi ouvida, para
seu infortúnio.

Ao raiar do novo dia, praguejando e amaldiçoando o campo santo prestes a
deixar, eis que o coxo finalmente ouve a voz lúgubre proveniente das
catacumbas:

" Ó lazarento, o que carregas nas costas?"

Súbito, impregnado pela surpresa, consegue simplesmente resmungar:

- Nada!

E a voz lúgubre:

- "Então toma uma corcunda!"

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