O carrinho de metal

Cefas Carvalho


Sujo, feio, mal ajambrado, triste em sua velha camisa do Flamengo e em seu 
calção roto, o menino olhava pela vitrine da loja fechada, o carrinho de ferro. 
Sonhara com aquele brinquedo. Imaginava a inveja dos amigos de favela ao verem 
o carrinho, vermelho, brilhante, novinho em folha. Não tinha comido nada 
naquele dia inteiro, salvo um pão com mortadela. Mas não pensava em comprar 
comida. Pensava no brinquedo. Percebeu que um veículo parou no meio fio, bem 
atrás dele. Do carro, desceu um senhor gordo, de cabelo e barbas brancas, com 
um sorriso no rosto. Parece Papai Noel, pensou o menino. Viu que o homem botou 
a mão no bolso. Ganharia uns trocados. Estava com fome, queria um sanduíche, 
mas se economizasse o dinheiro, poderia comprar o carrinho dali a alguns dias. 
Ah, quando os amigos o vissem com o brinquedo. Sentiu, de repente, uma pontada 
seca no peito, como uma agulha a furar sua pele. Um gosto estranho lhe subiu à 
garganta. Uma vontade de cuspir. Tossiu sangue e percebeu, então, a camisa do 
Flamengo úmida, com o tecido queimado. Olhou para o homem e só então observou a 
arma fumegante em sua mão direita. Caiu no chão, sentado, não sabendo se olhava 
para o homem ou para o brinquedo pela vitrine. Sentiu que um sono lhe invadia. 
Parecia Papai Noel, pensou, antes da dar a última olhada para o carrinho de 
metal

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