24/06/2008
Campanha de Obama tem ligações com interesses do etanol

Larry Rohter
Do The New York Times

Quando a VeraSun Energy inaugurou uma nova usina de processamento de etanol em 
Charles City, Iowa, no ano passado, alguns dos mais proeminentes incentivadores 
do setor estavam presentes. Líderes da Associação Nacional dos Produtores de 
Milho e da Associação dos Combustíveis Renováveis, por exemplo, vieram ajudar a 
cortar a fita -assim como o senador Barack Obama.

Na época bem atrás da senadora Hillary Rodham Clinton em reconhecimento de nome 
e nas pesquisas, Obama estava no meio de uma viagem de campanha ao Estado onde 
mais adiante obteria sua primeira vitória em uma convenção eleitoral. E como é 
adequado a um senador por Illinois, o Estado que é o segundo maior produtor de 
milho do país, ele fez um forte endosso do etanol como combustível alternativo.

Obama está concorrendo como um reformista que visa reduzir a influência dos 
interesses especiais. Mas como qualquer outro político, ele tem eleitorados 
poderosos que ajudam a definir suas posições. E quando se trata do etanol 
doméstico, quase todo produzido a partir do milho, ele tem assessores e 
simpatizantes proeminentes com laços estreitos com a indústria, em um momento 
em que a política de energia é um ponto de profundo contraste entre os partidos 
e seus candidatos presidenciais. No coração do Cinturão do Milho naquele dia de 
agosto, Obama argumentou que a adoção do etanol como substituto para a gasolina 
"no final contribui para nossa segurança nacional, porque no momento nós 
estamos enviando bilhões de dólares a alguns dos países mais hostis do 
planeta". A dependência americana de petróleo, ele acrescentou, "torna mais 
difícil para nós moldarmos uma política externa que seja inteligente e crie 
segurança a longo prazo".

   

Atualmente, quando Obama viaja pela zona rural, ele às vezes é acompanhado por 
seu amigo e representante, Tom Daschle. Um ex-líder da maioria no Senado por 
Dakota do Sul, Daschle participa dos conselhos consultivos de três empresas de 
etanol e trabalha em uma firma de advocacia de Washington onde, segundo a 
descrição online de seu cargo, "ele passa uma quantidade substancial de tempo 
fornecendo conselhos estratégicos e de política para clientes no setor de 
energia renovável".

O principal conselheiro em questões energéticas e ambientais de Obama, Jason 
Grumet, veio da Comissão Nacional para Política Energética, uma iniciativa 
associada a Daschle e a Bob Dole, também um ex-líder da maioria no Senado e um 
grande defensor do etanol, que tem laços estreitos com a gigante do agronegócio 
Archer Daniels Midland, ou ADM.

Não muito depois de chegar ao Senado, o próprio Obama provocou brevemente uma 
controvérsia quando voou duas vezes a tarifas subsidiadas em aviões 
corporativos da ADM, que é a maior produtora de etanol do país e tem sede em 
seu Estado natal.

Jason Furman, o diretor de política econômica de Obama, disse que as decisões 
políticas do senador são baseadas nos méritos. "Isto é o que sempre o motivou 
nesta questão e continuará a determinar sua política à frente", disse Furman.

Ao ser perguntado sobre se Obama trouxe qualquer predisposição ou inclinação no 
debate do etanol por representar um Estado produtor de milho que se beneficia 
com o boom, Furman disse: "Ele deseja representar os Estados Unidos da América, 
e suas políticas se baseiam no que é melhor para o país".

Daschle, que freqüentemente serve como representante para a campanha de Obama, 
falando em nome dele no domingo no programa "Fox News Sunday", disse que seu 
papel de consultoria à campanha de Obama sobre assuntos de energia é limitado. 
Ele disse não ser um lobista para as empresas de etanol, mas fala publicamente 
sobre as opções de energia renovável e trabalha "com várias associações e 
grupos para orquestrar e coordenar suas atividades", incluindo a Coalizão de 
Governadores Pró-Etanol.

Quanto a Obama, ele disse, "ele tem uma equipe de política excelente e se apóia 
principalmente nestas pessoas-chave para orientá-lo em questões-chave, seja 
energia, mudança climática ou outras coisas".

O etanol é uma área onde Obama discorda fortemente de seu adversário 
republicano, o senador John McCain. Apesar de ambos os candidatos presidenciais 
enfatizarem a necessidade dos Estados Unidos obterem "segurança energética", 
freando ao mesmo tempo as emissões de carbono que supostamente contribuem para 
o aquecimento global, eles oferecem visões profundamente diferentes para que 
papel o etanol, que pode ser feito a partir de vários materiais orgânicos, deve 
ter nestes esforços.

McCain, que não é de um Estado rural, defende a eliminação dos subsídios anuais 
multibilionários que o etanol doméstico conta há muito tempo. Como defensor do 
livre mercado, ele também é contrário à tarifa de 54 centavos de dólar por 
galão que os Estados Unidos impõem ao etanol de cana-de-açúcar importado, que 
contém mais energia do que o etanol a base de milho e cuja produção é mais 
barata.

"Nós cometemos uma série de erros ao não adotarmos uma política energética 
sustentável, sendo um deles os subsídios ao etanol de milho, que alertei em 
Iowa que iriam destruir o mercado" e contribuir para a inflação, disse McCain 
neste mês em uma entrevista a um jornal brasileiro, "O Estado de São Paulo". 
"Além disso, é errado" taxar o etanol de cana feito no Brasil, ele acrescentou, 
"que é muito mais eficiente do que o etanol de milho".

Obama, por sua vez, defende os subsídios, que em parte terminam nas mãos das 
mesmas companhias de petróleo que ele diz que deveriam ser taxadas pelo lucro 
imprevisto. Em nome de ajudar os Estados Unidos a construírem uma 
"independência em energia", ele também apóia a tarifa, que alguns economistas 
dizem poder ser ilegal segundo as regras da Organização Mundial do Comércio, 
mas que seus assessores dizem que não é.

Muitos economistas, defensores dos consumidores, especialistas em meio ambiente 
e grupos de defesa dos contribuintes criticam os programas de etanol de milho 
como algo improdutivo que mais beneficia os conglomerados do agronegócio do que 
os pequenos produtores rurais. Estas queixas se intensificaram recentemente, à 
medida que os preços do milho subiram acentuadamente juntamente com os preços 
do petróleo, com o milho normalmente usado para ração e alimento desviado para 
produção de etanol.

"Se há o interesse em remover parte da pressão deste mercado, o óbvio é reduzir 
a tarifa e permitir a entrada do etanol brasileiro", disse C. Ford Runge, um 
economista especializado em commodities e política comercial do Centro 
Internacional de Política Agrícola e Alimentar da Universidade de Minnesota. 
"Mas um dos motivos fundamentais para a política de biocombustíveis estar tão 
fora de sintonia com os mercados e a realidade se deve ao fato de políticas de 
grupos de interesse predominarem na elaboração dos subsídios que a apóiam."

O milho gera menos de duas unidades de energia para cada unidade de energia 
usada para produzi-lo, enquanto a proporção de energia para a cana-de-açúcar é 
de mais de oito para um. Com custos de produção mais baixos e preços das terras 
mais baratos nos países tropicais onde é cultivada, a cana-de-açúcar é uma 
fonte mais eficiente.

Furman disse que a campanha continua examinando a questão. "Nós queremos 
avaliar todos os nossos subsídios de energia para assegurar que o contribuinte 
esteja recebendo à altura do dinheiro gasto", disse.

Ele acrescentou que Obama "é a favor de uma série de iniciativas", que visam 
"diversificação de países e fontes de energia", incluindo o etanol de celulose, 
e que, diferente das propostas de McCain, visam especificamente "reduzir a 
demanda geral por meio de conservação, nova tecnologia e maior eficiência".

Na campanha, Obama não explicou sua oposição ao etanol de cana-de-açúcar 
importado. Mas em comentários no ano passado, feitos enquanto o presidente Bush 
estava prestes a assinar um acordo de cooperação em etanol com o presidente do 
Brasil, Obama argumentou que "o esforço de nosso país no sentido da 
independência energética" poderia sofrer se Bush relaxasse as restrições, como 
McCain agora propõe.

"Não atende à nossa segurança nacional e econômica substituir o petróleo 
importado pelo etanol brasileiro", ele argumentou.

Obama fala regularmente sobre desenvolver a gramínea switchgrass, que é 
abundante no Meio-Oeste e nas Grandes Planícies, como fonte de etanol. Apesar 
da proporção de energia para a switchgrass e outros tipos de etanol de celulose 
ser muito maior do que a do milho, os economistas dizem que investimentos que 
consomem muito tempo em infra-estrutura seriam necessários para torná-lo 
viável, e que com o milho próximo de US$ 8 o bushel, os agricultores têm poucos 
incentivos para mudar.

Os executivos e defensores do setor de etanol não fizeram nenhuma grande doação 
a nenhum dos candidatos presidenciais, como mostra uma análise dos registros de 
doações de campanha. Mas eles notaram a diferença entre Obama, que mudou sua 
política a respeito de viagem em jatos corporativos após o caso de 2005, e seu 
rival.

Brian Jennings, um vice-presidente da Coalizão Americana pelo Etanol, disse que 
espera que McCain, "enquanto busca o mais alto cargo do país, adote uma visão 
mais ampla da segurança energética e reconheça o importante papel do etanol".

Os pontos de vista dos candidatos foram testados recentemente no Projeto de Lei 
Agrícola aprovado pelo Congresso, que prorrogou tanto os subsídios ao etanol de 
milho, apesar de tê-los reduzido ligeiramente, quanto as tarifas sobre o etanol 
de cana-de-açúcar importado. Como McCain e Obama estavam em campanha, nenhum 
dos dois votou. Mas McCain disse que se fosse presidente, ele vetaria o projeto 
de lei, enquanto Obama emitiu uma declaração o elogiando. 

Tradução: George El Khouri Andolfato 

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