Colunista: Vicente Serejo E-mail: [EMAIL PROTECTED]
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"TUDO ISSO O TEMPOO DILUIU. MAS A HISTÓRIA FICOU" *Como é sexta, e há uma
alegria de viver em toda parte, os leitores descansam os olhos num texto de
Plínio Sanderson, lembranças sobre a ribeira salesiana, na sua expressão tão
lírica, quando olhava o mistério da pequena ponte da Praça Augusto Severo. E
ainda transcreve os versos de Zila Mamede, a inesquecível, em seus
belíssimos versos,esculpidos sobre a ponte e seu vão.*
*"TUDO ISSO O TEMPOO DILUIU. MAS A HISTÓRIA FICOU**" *
*PLÍNIO SANDERSON*
Os processos de (re)urbanização, sempre norteados pela falta de
memória que nos assola, dilapidam o depauperado patrimônio arquitetônico.
Escrevi um texto preocupado com o futuro do velho Pontilhão da Praça Augusto
Severo - "uma ponte para o passado"? Dias depois, os matutinos destacaram o
tombamento (literal) da Ponte do Salgado. Imaginem como o rei vassalo
Cascudo narraria ato tão bestial e cruento com nossa já usurpada história.
Na minha infância ribeirinha-salesiana, a Ponte despertava um
enigma profundo: ligava nada a bulhufas, coisa nenhuma a nonada. Seria agora
mero elemento de ligação entre os tempos de efêmeras lembranças?
Ponte viva! Em arqueologia urbana, in loco constatei-a soerguida
(entre amontoados de entulhos). Revisitei Cascudo num ponteofício
cronológico.
Assim descrita em 1603, a par da cidade, uma campina alagada
pelas marés do Potengi. As águas lavavam os pés dos morros, onde se tomava o
banho salgado. Terreno ensopado, pantanoso, enlodado. A corrente de água
viva obriga a existência de uma Ponte, simples de tronco de árvore,
transposto em equilíbrio instável.
Desaparecera em 1604, quando um tal de Bernardo da Costa,
"ambicionou" ser útil: "no rio desta cidade não há passagem certa como algum
tempo houve e ser tão necessária como era para o povo, se quer ele
suplicante obrigar a dita passagem"; dando-se o sítio por quatro vidas com
seus logradouros para cultivar e plantar o que lhe parecer...
Intermitente e teimosa, ao labor dos movimentos incessantes das
marés, a Ponte volta a ser mencionada em 1633, justamente onde "continua
estando".
Acordando da letargia dos três séculos inerte, no bairro da
Ribeira de 1878, "o oceano espraiava-se sobre plantas rasteiras, ficando ali
as águas estagnadas como uma vasa lodacenta. Um istmo unia a Ribeira à
cidade Alta, através de uma Ponte por baixo da qual as águas do mar
atravessam um canal e vão derramar-se em uma extensa superfície, banhadas de
águas salobras". Lugar em que Odorico Pelinca, esperava à hora de acompanhar
o entregador de pães, mergulhando, nas madrugadas de luar, n'água salgada
das enchentes.
No governo de Tavares de Lira, o pântano colonial que dera nome
à Ribeira foi enfrentado. Herculano Ramos realizou o aterro e ajardinamento
da Augusto Severo, em junho de 1904, gastou 62:446$86, mas o lamaçal
desapareceu. "Cercado de calçadas, o lodo salgado foi aterrado pela areia
alva dos morros". Herculano repetiu a façanha do conde Maurício de Nassau,
transplantando árvores adultas e transformando o recanto melancólico num
parque tropical cheio de sombras acolhedoras, bancos confortáveis, Pontes
toscas ("pequenas pontes de cimento armado que dão passagem sobre o estreito
canal"), graciosas alamedas, logradouro indispensável para as cidades de
clima quente, repouso para as amplas insolações.
Escabreado, o Príncipe do Tirol, vaticinou: "Esse parque,
maravilhoso de justiça urbanística, foi sendo pouco a pouco guerreado e
acabou no que esta praça banal. Mutilado e sem função é um lugar por onde se
passa e nada sugere parar e descansar". Na Natal, "cidade do já teve", o
desmando com o destino do patrimônio coletivo permanece secularmente
inalterado.
Pontilhão à mercê dos poderosos, alheios à recordação citadina.
Numa alegoria hilária e sarcástica, no ano da graça de 1923, Lucas da Costa,
desvenda o contexto de vicissitudes oligárquicas, tecendo carapuças para os
fiéis "Attachés" dos Albuquerque-Maranhão:
"Disfarçam os governos em administradores modelos, falando às
massas como exemplos de democracias, com o fim de alcançarem confiança e
conseqüente continuação dos viciosos regimes... Disfarçam os militares
impatriotas em garantidores das deturpadas e insustentáveis situações
políticas... Disfarçam os tiranos em generosos cavalheiros, doutrinando a
bondade como se fossem legitimo cultores desta religião... Disfarçam os
torpes sedutores da honra em gente de linha e hierarquia para terem entrada
no lar da família e na larga porta da sociedade... Disfarçam os ignorados
impulsos os cidadãos honrados em vagabundos e traficantes freqüentadores de
recantos... Disfarçam os cretinos em baluartes da justiça para ditarem
nobres princípios às almas essencialmente moralizadas... Disfarçam, enfim,
os infelizes que passam pelas avenidas, de cabeças erguidas, faceiros,
alegres, enquanto a farpa mais aguda lhes pene".
Insisto, contra a corja desmemoriada, é preciso ficar atento, e
destemido, forte! Receio que os vaidosos canalhocratas da atualidade, cheios
de si, tentem subtrair do horizonte a Fortaleza dos Magos Reis, com o
objetivo (insofismável) de abrigar um porto seguro para bacanas iates
globalizados ou mesmo surrealmente desnudar a paisagem para ressaltar o
designer da Ponte ícone Newton Navarro. Reavivar no Exercício da Palavra
(1975) de Zila Mamede: A Ponte
salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e aço
onde não
permaneço
passo.