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Meia-noite 


Cláudia MagalhãesMeia-noite. Desde que você partiu levando o Sol, é sempre 
meia-noite. Não te peço pra voltar. Hoje, não te quero mais. Todos os dias, na 
beira do abismo, entre a carne e a sombra, como os poetas, os bêbados, os 
loucos... Eu te reinvento, amor. Você nunca saiu do meu pensamento... 

Quando você partiu, amaldiçoei a minha vida. Em desespero, a solidão arrancou a 
minha língua, mas não calou os meus gritos. Sem suportar o peso da saudade, 
essa maldita ferida do amor, o meu coração parou de bater. Parado em minhas 
veias, o meu sangue, louco, fazendo-se de tinta, escorre pelos meus dedos e 
reinventa a vida sobre o papel. Nessa batalha contra a morte, busco nas 
palavras, alguma idéia que acalme o meu medo, quase insuportável, de morrer. E 
escrevendo eu te reencontro, amor... Crio um mundo onde você não é capaz de me 
dar adeus, de ir embora. Encharcado de sangue, suor, saliva e vida, te faço meu 
herói. Queimo o teu corpo. Mergulho as tuas carnes em minhas águas profundas, 
até você morrer, ressuscitar e, novamente, me ver chorar... Chorar pelo sexo 
como faz toda mulher diante do amor... 

Não! Não precisa voltar! Hoje, aprendi a te amar... Entre o mundo definido e o 
indefinido, sob o comando da voz louca do meu cérebro sem juízo, eu te perco e 
te reencontro, entregando-me com violência ao que me resta: escrever, escrever, 
escrever...


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