Os Gatos de Sabino"PARA DIZER DE ALGUM modo, Sabino não acabava de morrer
nunca. Não que fosse um homem revelho. Era um homem remoto, sim. E gasto
pelo uso, talvez melhor pensar assim." Do conto "Os Gatos de Sabino", de
Napoleão de Paiva Souza, postado em *PROSA*.

Tácito Costa
Data: 13/07/2008 - Horário: 10h03min
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Os Gatos de Sabino* 'Nada mais morto
Que um gato duro'*
*NPS*


*NAPOLEÃO DE PAIVA SOUSA*
ESCRITOR


PARA DIZER DE ALGUM modo, Sabino não acabava de morrer nunca. Não que fosse
um homem revelho. Era um homem remoto, sim. E gasto pelo uso, talvez melhor
pensar assim.

O fato é que sua existência era anterior a de quase todos os homens do
lugarejo. O que também não diz tudo. Ali se vivia pouco. Aos cinqüenta não
sobrava mais que o projeto do que se tinha sido um dia. E a medalha da
velhice a fulgurar no peito. Ou na boca godê, ou no trêmulo das mãos, ou no
queixo fletido sobre o tronco, ou no andar empenado. Sabino mesmo, um dia,
confidenciou que se deu conta do que era - ou já não era -, quando, ao
descer por aquela rua lateral à igreja, espalhou a criançada que brincava e
corria e gritava assustada 'lá vem o velho'. Mal completara os quarenta, por
então.

Depois de iguais noites e dias, foi-se parecendo um espantalho. Um
espantalho gordo. Existe? No caso dele, sim. A camisa feito túnica, larga e
comprida, em tecido grosso - pano de saco, talvez -, menos limpa, quase
andrajo. O chapelão de palha de carnaúba, com a copa rasa encardida na base,
pelo suor do uso, de onde partia a grande aba. As calças largas e curtas,
desajeitadas, não chegavam ao tornozelo, deixando às vistas a currulepe.

Inventou naqueles ermos o que hoje corresponde à ocupação de garrafeiro. Não
se conhecia ainda isso de descartável. A tudo se tinha um apego de objeto de
estimação, a uma garrafa velha inclusive, pra falar não sem um certo
exagero. Querências da necessidade, pode parecer; valorização do pouco
possuído, também. Descobria-se, pois, um lucro para o entulho do fundo dos
quintais e outros despejos.

Semanalmente por ali passava Sabino, e era uma festa, rua acima e abaixo,
fazendo cair três ou quatro tostões naqueles bolsos furados. Garrafa, lata,
vidro, papel, cobre, flandres – gritava de longe com voz rouca, mas de tom
simpático. Não chegara ainda, aos confins, jornal para negociar. De escrita,
só de três em três meses, a folhinha 'Missionários da Fé', distribuída porta
a porta por um padre alemão, alto e andarilho.
Por aquela quadra o garrafeiro era saudado – e como não? – como grande
benfeitor. Sabino, Seu Sabino, venha aqui, leve isso, veja aquilo! Os braços
curtos, passos pequenos, andadura sacudida de cambaio, mais conhecida na
brenha como cambota, um quase chouto, ondulada para a direita e para a
esquerda. Engraçado.

Ia vexado ajuntando uma coisa com outra, apertando, acomodando-as no fundo
do saco de juta (não aderira aos práticos cestos trançados de vime, com
raios de corda presos a pau roliço, oscilante, equilibrado nos ombros), e,
depois de ajeitá-lo nas costas, rumava para a estação onde pegava o primeiro
e único trem do dia com destino a Sousa, entreposto do seu negócio.

Nunca se soube dos lucros ou prejuízos. Como de resto do seu oculto fio de
vida, o lado de lá de sua porta intransponível, represa de enorme tralha -
imaginava-se; sendo, por obra dos cotovelos rijos – figura reservada em
terra onde tudo caía no domínio público.
As aparições eram de meteoro ou de um ator que cortasse a cidade as quintas
ou sextas-feiras para encenar o mesmo ato, em anos: compra da ninharia que
lhe aparecesse, ida a Sousa, volta no dia seguinte, passagem pela feira,
para por fim, nos outros dias, amofumbar-se.

Não era de rir. Desde que ficou viúvo, há bons vinte ou trinta anos, ninguém
mais lhe ouvira uma risada. Havia, entretanto, um rudimento de sorriso. Ria
com os olhos, talvez; como aquele cachorro magro, com o rabo. E parecia
sentir o que os outros sentiam. Mesmo tendo quase dispensado as palavras e,
certamente, as companhias. O único filho, para seguir a regra, tinha coisas
mais importantes a fazer, e o velho desaparecera-lhe do horizonte como um
balão.

Não se pode comparar os dias de Sabino a um manso lago azul, mas,
certamente, ao leito de um rio, um riacho. Seco. De areia fofa, atoladeira e
seixos arredondados por muitas águas. Sem nascente ou deságüe. Vida
rasteira, sem sobressalto.
Foi assim, até o dia em que resolveu despejar gatos.

Se o leite sequer chega para os meninos, Seu Sabino, como vamos poder
dividi-lo com a bicharada? Isso aqui é hoje um nasceiro de gato. E ninguém
já consegue pregar olho, veja, estão por toda a parte, tramelando nas
pernas, farejando a fome, choramingas, um inferno. Leve daqui esses bichos,
pelas cinco chagas!

Sabino imperturbável ouvia o pedido que era mais uma súplica. Depois de
reouvir calado algumas vezes a história da mulher, e da vizinhança, que se
achegara e confirmava a explosão da gataria nascediça, fez pausa longa e,
quase inaudível, disse que ia pensar.

Na outra quinta-feira estava ele na porta da freguesia, banzeiro de dar dó,
portando dois sacos grandes sobre os ombros. Não se explicava, mas, entre os
dentes o resmungo: nesse aqui vão colocando as garrafas e tudo que tiver e,
no outro – (após pigarro custoso), os gatos.

Com paciência intuiu-se o plano de Sabino: levar os bichos, em saco cheio, e
no meio do caminho soltá-los. Alguém ponderou que morreriam secos. Ele se
mantinha irredutível, esse é o único jeito! – entendam. A muito custo
aceitou despejá-los quando o trem estivesse deixando Santa Cruz ou São Pedro
ou São Francisco, nos arredores dessas cidades; é mais humano, Seu Sabino,
dar-lhes ao menos uma chance, louvado seja Deus.

E os gatos começaram a viajar. Não sem antes o cortejo pelas ruas, becos e
ladeiras. O velho na frente arrastando os sacos, recebendo novas capturas,
em meio ao júbilo e também ao choro de crianças inconformadas com a
apartação, a discórdia entre casais, as discussões de vizinhos; e ele
resoluto em direção à estação de trem.

O som estranho da comitiva ouvia-se de longe, e depois de semanas seguidas
incorporou-se à vida do lugar: parecia uma sinfonia atonal, ora um choro
rasgado, um fungado, um gozo sem fim, até se decidir o ouvido por um miado,
um imenso miado, sinfônico.

O falatório, tal o vermelho e azul do pastoril, espalhou-se em fogo brando a
dividir as pessoas em partidos, insuficiente entretanto para impedir o
ajuntado de gato, que só crescia a cada leva desterrada. A aura de benfeitor
do velho parecia expandir-se, os elogios se sucediam e ele saboreava-os;
quem não os consentia, calava-se em fogo de monturo.

A primeira vez que alguém miou à sua passagem, Sabino não entendeu ou
fingiu-se desentendido. Riu surpreso, depois, sem jeito, fechou a cara. Isso
lhe desassossegou a alma, todavia. Dias depois, na rua do açougue, sem saber
de onde partira, ouviu outro miado. Ajeitou o chapéu, olhou para os lados e
apressou o passo.

Por jamais localizar o amaldiçoado invisível, após o undécimo miado, chegou
a pensar que estivesse caindo na fraqueza; parou, fez o balanço do seu corpo
no mundo, franziu o cenho, embrenhou-se em si, e teve a certeza de que não
estava alucinando.

A desconfiança, no entanto, se vestia: bastava pôr o pé na rua que lá vinham
os mios. O timbre já não era só de homem, mas de mulher e até de criança.
Uns sonoros, outros abafados, cavernosos, desmanchando-se às vezes em
gargalhadas.

De onde provinham as vozes horrendas? Sabe-se lá...

Dúvida? Que nada. Era troça. E a lanceta afiada do ódio.

Apareça o infeliz das costas ocas! – foi seu primeiro desafio ao oculto.

O baque chegou-lhe, moroso, num tremor fino das mãos, na cara travada e no
apetite a lhe roubar as carnes. Olhem como está magro; as calças dançando, a
camisa sobrando, o olhar escavacado.

Agora, um espantalho completo. Esfiapado.

Saber-se como - o cada vez mais decrépito - conseguia forças para suas
subidas e descidas, com dois sacos apinhados de gatos, pois a essas alturas
deixara o seu comércio pra se dedicar exclusivamente à gataria - nunca foi
unanimidade entre os do lugar.

Capricho, birra, coisa odiada, penitência, injúria sofrida – eram as
explicações mais consagradas. Alguma coisa muito de dentro, isso sim!

Espalhara-se a notícia de que Sabino não mais escolhia os locais onde
despejar a bichanada. Tão logo se afastava da Barriguda, o homem sentava-se
nas escadas, entre os vagões, e enquanto a máquina ganhava velocidade, e a
poeira nos cortes tingia tudo de ocre, ia ele levantando os bichos pelo
cabelouro, esticando-lhes o couro a mais não poder, soltando-os
aleatoriamente. Fala-se de uma ninhada voando na praça de Santa Cruz.

Quem, de dentro do trem, presenciou a cena não esconde o espanto: o velho
sobre as ferragens, os trilhos passando rapidamente sob os pés, o olhar
perdido, pra logo em seguida, mostrar-se possuído de leve euforia, de
trejeitos e risos sem motivação aparente. No ar, o miaauu intermitente a
musicar a tarde. Quando terminada, a volta ao vagão, encurvado, lento, como
se carregando exausto todos os anos do tempo.
Miau... Miau... Não era mais a questão de voltar a ouvir vozes. Elas estavam
por toda a parte. No desembarque da missão, ainda na plataforma, no caminho
de casa, dentro dela, nos arredores infestados de bufidos, naquela janela
estridente. Sabino indormido, acuado, faz novo balanço, assunta, pensa pra
dentro, e apura que está mesmo alucinando.

As ruas, de quem queria distância, transformadas agora numa miaria só. Corja
de maldizentes! - pra uns; condenados, perversos! - pra outros. Vão pras
profundas! A caixa de insultos pronta para uso. Dizia-se que ninguém
praguejava tanto e tão mal, pois, nada se entendia. Se a voz havia sido
rouca, não mais seguia a escala humana. Um rumor grave de rouquido e piado,
bufo.

Num sábado de feira, na esquina da tamarina, gritos de um lado, miados de
outro, e Sabino por entre as bancas, rodopiando, sem conseguir identificar a
cambada; partia numa direção, noutra, voltava, o chapelão no chão,
revelando-lhe a cabeçorra quadrada, suada, calva - sem saber a quem
enfrentar. Ao primeiro perverso, a quem intuiu como um dos martirizantes,
mostrou seu ódio fervoroso, desferindo-lhe uma pedrada que não mais o deixou
caminhar com elegância. Finalmente o velho enxergara a cara do seu tormento.

Apiedai-vos desse pobre cristao. Acabai com esse coro de maldiçoes, onde
vejo o fogo dos infernos... E por aí o padre alemão ia tropeçando no seu
sermão do domingo. Alguns choravam, outros engoliam o choro e todos juravam,
de mãos postas, refrear, em si e nos outros, o que bem não sabiam ser.

Como acatar - pelos céus, pela terra – a cessação de um circo tão divertido?
Nesse entretanto, enquanto se chegava a augurar ares novos, um dos dois
praças do destacamento local - de farda, cassetete e certo tipo de boné
militar - foi detido por miar junto àquela janela, convertida desde há muito
em abusado microfone de transeuntes e desocupados.

Havia um prazer de miar, incontornável. Um desejo vicioso. Uma irrefreável
sujeição ao mel do riso e da zombaria. As pessoas apuravam o mio, disputavam
entre si o mais belo miado, se satisfaziam em ouvir a sedução da própria
voz.

Quando visto pela última vez, num quebrar-da-barra, o ex-garrafeiro era um
fruto seco, corcovado, de gesticulação centenária, caminhando num chouto
destoante de seu estado. O lugar, dentro dos semi-tons da aurora, guardava
ainda sono profundo, não respeitoso, pois, certamente, ansiado pelo sonho de
um sonoro miau. Se o teve, não se sabe. Carecia não.

Sabino, mesmo, aderira. Carregava agora o fantasma dos seus tigres sob os
sovacos. Absorvera suas vozes ocultas, e as levava consigo aonde fosse, e as
ouvia a todo tempo e lugar. Vozes estridentes a lhe pisarem os ouvidos e os
calcanhares açodados, impulsonando-os confusamente a becos e ladeiras e,
sobretudo, a esquinas devassadas, onde tudo era possível e medonho.

Inclusive, o afligimento a lhe apontar o caminho vexado de casa.

Que ele já não sabia onde.

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