Fausto Wolff, última crônica no JB
A última crônica de
Fausto Wolff:
'À sombra do medo em flor'
JB Online (05.09.08)
RIO - O escritor e jornalista Fausto Wolff morreu nesta sexta-feira, dia 5, no
Rio de Janeiro. Confira a seguir a última crônica do colunista, publicada nesta
sexta no Caderno B, do Jornal do Brasil.
À sombra do medo em flor
Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um
tirano
Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito
de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o
resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre
caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de "desculpe, não
era bem isso que eu queria dizer".
Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto
deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de
suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos
ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.
Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos,
vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à
medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais
sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.
Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito,
era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até
virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com
minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia
sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.
Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e
não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia
seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que
os rateios estavam contra mim.
Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial
energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua
mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o
princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e,
como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão
angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à
tentação de não dar um tiro na têmpora.
Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa
condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram
com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice.
Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos
escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando,
estuprando.
Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada
a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem "responsabilidade criminal
aos 16 anos". Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via
significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação
literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa
lei só valerá para crianças pobres.
Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é
sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha
vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse
aleijado interiormente pelos anos que me restam?
Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar
oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o
assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.
Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria
resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso
atenuaria um pouco a minha dor.
Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil
dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder
imediatamente acima dele.
O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que
consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem
escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.
[21:45] - 05/09/2008, JB.
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