*_Lendo Machado_**, /por Clotilde Tavares/*
/*publicada n'A União (João Pessoa-PB) em 17 de setembro de 2008* /
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Neste ano de comemorações em torno do nome de Machado de Assis, todo
mundo já escreveu sobre ele. Todo mundo, não: eu não escrevi. Sou
leitora de Machado desde a adolescência, para quem nunca foi obrigação e
sim prazer ler o Dom Casmurro como tarefa de colégio. E a coisa mais
curiosa deste espetacular romance é que eu já o devo ter lido mais de
dez vezes ao longo da minha vida, mas cada vez que o leio, ele sempre me
parece novo, e parece que o estou lendo pela primeira vez.
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*Há um ano, mais ou menos, empreendi de novo a sua leitura. Depois de
vinte páginas, fiquei aterrada pensando que o Alzheimer já havia
derretido as minhas conexões cerebrais, que Deus me livre! Era como se
eu nunca tivesse lido aquele texto! E saí me deliciando com a leitura,
me irritando às vezes com Bentinho, simpatizando e depois odiando
Capitu, e depois voltando para o capítulo inicial onde o autor relata
como escolheu o título do livro, e no segundo capítulo onde discorre
sobre a escolha do tema; uma coisa tão bem feitinha que não se sabe onde
realmente começa o romance.
Ao longo de todo o Dom Casmurro, Machado vai dando aulas de estilo.
Lendo-o com atenção, vamos aprendendo a empregar bem as palavras em toda
a sua rica sutileza, como no trecho que abre o capítulo IV: "José Dias
amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às idéias;
não as havendo, servia a prolongar as frases." Imediatamente me lembrei
de muito gente que conheço que, ao escrever, não havendo idéias,
contenta-se em prolongar as frases, emendando uma oração subordinada na
outra até que o texto fica complexo, o período longo, o entendimento
difícil, mascarando o pensamento rarefeito que o alimenta (a ele, o
texto) e fazendo os incultos dizerem: "Doutor Fulano escreve muito bem!
A gente não entende quase nada!"
O curioso é que, para escrever isto, fui à estante procurar o meu Dom
Casmurro, que deve ser o meu quinto ou sexto exemplar, tendo sido os
outros subtraídos, perdidos ou emprestados, nessa vida aventurosa que
determinados livros levam, passando de mão em mão. Não o encontrei. Devo
ter nas estantes uns 1.500 livros; e às vezes fica difícil encontrar
algo. Não encontrando o meu volume, para a citação recorri a um CD onde
tenho praticamente todo o cânone ocidental.
O melhor de tudo é que, dentro deste CD, que eu não olhava há tempos,
descobri um livro que já procurei desesperadamente sem encontrar: a
"Prosopopéia", de Bento Teixeira, publicada em 1601. Bento Teixeira é
considerado por alguns o primeiro poeta do Brasil, mas isso é história
que vou ficar devendo ao meu caro leitor. *