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26/09/2008
Políticos da União Européia irritados com projeto polonês de castração
química de pedófilos
O primeiro-ministro polonês Donald Tusk quer aprovar uma lei que imponha a
"castração química" de pedófilos. Políticos do Parlamento Europeu em
Bruxelas fizeram objeções à proposta, mas há pouco que a UE possa fazer para
impedi-la

Christina Hebel

A princípio, parecia apenas um lapso de discernimento altamente emotivo por
parte do primeiro-ministro Donald Tusk, mas agora é oficial. O governo
polonês quer aprovar uma lei que force pedófilos condenados a serem
castrados quimicamente.

Um caso de incesto no subúrbio da cidade de Grodzisk, no Leste polonês,
gerou o atual debate. A polícia recentemente prendeu um homem de 45 anos que
teria abusado sexualmente de sua filha por seis anos. Sua filha de 21 anos
alega ter dado à luz a dois filhos do pai.

A notícia chocou Tusk. "Não acredito que tais indivíduos, tais criaturas,
possam ser chamados de humanos", disse ele. "Neste caso, não dá nem para
argumentar em nome dos direitos humanos". Ele quer impor a "castração
química" como punição na Polônia. Em suas palavras, a castração não seria "a
pedido do condenado, e sim parte do veredicto". A punição forçada se
aplicaria "principalmente a pedófilos, particularmente àqueles que não têm
esperança de melhora".

*"Puro populismo"*

O Ministério de Saúde e Justiça da Polônia está atualmente redigindo as
mudanças necessárias ao código penal do país, e Tusk espera que o projeto de
lei de castração forçada esteja pronto para avaliação pelo Parlamento em
outubro. "Quero introduzir as leis mais duras possíveis contra criminosos
que estupram crianças", disse Tusk na semana passada.

Christoph Joseph Ahlers vê o projeto polonês como "puro populismo". O
psicólogo sexual é co-fundador do Projeto de Prevenção Dunkelfeld do
Instituto de Medicina Sexual, do Hospital de Charité em Berlim, e trabalha
como consultor terapêutico.

Também não estão claros quais seriam os alvos do projeto de lei do
primeiro-ministro Tusk. Em um momento ele fala de "pedófilos" e de
"criminosos que estupram crianças" e, no outro, são "condenados" que
precisam da castração forçada.

O psicólogo sexual Ahlers adverte sobre a confusão de termos. "A pedofilia
não é um ato criminoso, é uma doença na qual o interesse sexual é dirigido a
crianças", diz ele. "Mas isso não significa que todo pedófilo
automaticamente abusa de crianças."

Estudos conduzidos nos EUA mostraram que um terço dos criminosos condenados
por abuso de crianças são pedófilos. Dois terços atacam crianças por outras
razões, inclusive doenças como o alcoolismo. O diário de esquerda polonês
Gazeta Wyborcza, que se opõe à proposta do governo, publicou essas
estatísticas várias vezes. O jornal também informou que o homem de 45 anos
preso no Leste da Polônia não tinha sido considerado pedófilo.

*Uma combinação de psicoterapia e remédios*

Também não está claro o que, exatamente, Tusk quer dizer com "castração
química". De acordo com o psicólogo sexual Ahlers, há três possibilidades
para o tratamento médico de criminosos sexuais. Certos antidepressivos são
uma opção e os chamados anti-andróginos são outra. Os dois são medicações
que reduzem o desejo sexual.

Entretanto, uma classe de drogas normalmente administrada para pacientes de
câncer de próstata também pode ser usada para tratar criminosos sexuais -
são as únicas que tecnicamente seriam classificadas como "castração
química". Elas "quase completamente eliminam o desejo sexual, que permanece
fraco após a administração", disse Ahlers. Os remédios não são aprovados
oficialmente para o tratamento de criminosos sexuais e só podem ser
administrados com o desejo expresso do paciente.

Reino Unido, Dinamarca, Suíça, Suécia e Alemanha já oferecem aos
molestadores de crianças a opção de "castração química", mas apenas de forma
voluntária e administrada por um psicoterapeuta qualificado. Na Alemanha, os
criminosos sexuais têm direito legal a psicoterapia.

O psicólogo sexual Ahlers critica a crença de que os remédios por si sós
resolvem a questão. "Forçar os pacientes a tomarem esses remédios não seria
o tratamento profissional correto", diz Ahlers. "O medicamento por si só não
leva automaticamente a uma melhora do controle do comportamento". Ele
aconselha uma combinação de psicoterapia e medicação.

Na Alemanha, os democratas cristãos conservadores lutaram inúmeras vezes
pela adoção de "castração química". O debate tornou-se especialmente
acalorado nos anos 70, depois da morte do criminoso sexual condenado Jürgen
Bartsch, que violentou e matou três crianças. Para evitar a prisão perpétua
em um hospital psiquiátrico, Jürgen Bartsch optou pela castração. Em abril
de 1976, enfermeiras da sala de operação administraram dez vezes a
quantidade normal de anestesia, e Jürgen Bartsch morreu pouco depois da
operação.

Ahlers adverte contra expectativas muito altas com a castração. "Até mesmo
homens castrados têm relapsos", diz ele. Tudo depende do acompanhamento da
medicação com "psicoterapia qualificada".

*A União Européia não tem autoridade para impedir a castração*

Na Polônia, o debate sobre a questão continua. Ativistas de direitos humanos
e especialistas jurídicos apontam que a constituição polonesa proíbe a
punição corporal. Eles também argumentam que a terapia química forçada,
contra a vontade do paciente, violaria as leis internacionais e polonesas.

Apesar de a Polônia ser associada à União Européia, há pouco que pode ser
feito em Bruxelas para impedir o país de adotar a medida penal. A UE "não
tem autoridade porque o direito penal é uma questão para os Estados
membros," diz Klaus Hänsch, membro alemão do Parlamento Europeu e
ex-representante do social democratas de centro-esquerda. A pena de morte é
a única punição expressamente proibida pela União Européia, diz ele. No
máximo, a União Européia poderia condenar o plano com bases morais e éticas.

"Não acredito que essa castração forçada seria uma punição apropriada
compatível com o direito penal moderno", diz o especialista jurídico da UE.

Elmar Brok, membro democrata cristão alemão do Parlamento Europeu também
critica o projeto de lei chamando-o de "um instrumento inadequado". Os dois
políticos disseram que acreditavam que seria possível para os cidadãos
poloneses questionarem a lei na Corte Européia de Direitos Humanos em
Estrasburgo.

*Poloneses apóiam a idéia de Tusk*

Entretanto, há uma boa chance de Tusk conseguir aprovar a iniciativa. Na
questão, o primeiro-ministro de centro-direita conta com o apoio do
presidente conservador Lech Kaczynski. Não é um apoio qualquer, já que ele
derrubou o irmão gêmeo de Kaczynski, Jaroslaw, como primeiro-ministro nas
eleições de outubro de 2007. Os partidos de quase todas as tendências
políticas do país estão pedindo a adoção de punição mais dura para
criminosos sexuais que abusam de crianças.

Uma atitude conservadora ainda prevalece na sociedade polonesa hoje. Uma
recente pesquisa desenvolvida pelo jornal conservador Dziennik mostrou que
84% dos poloneses apóiam o projeto de Tusk. Essa aprovação não é comum para
o primeiro-ministro e seu governo. Apenas 38% dos poloneses achavam que o
governo estava fazendo um bom papel depois dos primeiros 300 dias de Tusk no
cargo, segundo as pesquisas.

Entretanto, o apoio a Tusk e a seu governo cresceu desde então. De acordo
com uma pesquisa desenvolvida pelo jornal Gazeta Wyborcza de Varsóvia, se os
poloneses fossem às urnas neste final de semana, a Plataforma Cívica de Tusk
conseguiria 58% dos votos, um aumento de 10 pontos desde a última pesquisa,
há duas semanas.

*Tradução:* Deborah Weinberg
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