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Em Pedaços
Cláudia Magalhães
A noite corria doce. As águas do rio lembravam calda de açúcar e as
nuvens do céu, tufos de algodão. Ele esperava por seu amor na ponte dos
desejos, sentindo-se um novo homem. Cantarolava a sua música preferida, com a
felicidade no peito alcançando as notas da loucura, que em seguida, perdiam-se
no vento, num vôo belo e insano. Sentia-se livre de todos os erros. Paria a si
mesmo e fazia-se anjo. Milagres do amor... Ela chegou na hora marcada. Era
alta, branca, de cabelos pretos e olhos amarelos. Vestia um vestido de algodão
com estampa de flores miúdas que lhe ia até os pés. Ele aproximou-se,
segurou-lhe a cabeça com as duas mãos e beijou-lhe a testa, o que a fez levar a
mão esquerda até os lábios, num gesto de timidez. Ele é tão gentil!, Pensou
entregando-lhe a mão. Venha, vamos caminhar um pouco, ele pediu com doçura. Com
trinta e poucos anos, sentiu-se uma adolescente. Nunca foi feliz no amor,
embora tivesse tido vários relacionamentos. Todos terminaram de forma pacífica,
sem grandes traumas, exceto o último, o grande amor da sua vida, mas que a
abandonara com violência, deixando-a em pedaços que agiam como se fossem
independentes, correndo, se humilhando por uma migalha daquele amor, destruindo
a sua essência, reduzindo-a a carne e ossos. Agora, um ano depois, estava ali.
Talvez, estivesse sendo muito ousada em se entregar a um estranho daquela
forma, afinal, só trocaram algumas poucas palavras quando ele ligou para o seu
número por engano. Que importa? Ainda estou doente e nenhuma dor pode ser maior
que a minha, pensou tentando afastar a tristeza. Caminhavam conversando
amenidades quando começou a chover fortemente. Ele segurou firme a mão dela,
atravessaram o pátio de um parque abandonado e seguiram até uma pequena
casinha. Venha, aqui estaremos protegidos da chuva, disse abrindo uma porta
velha de madeira. A casinha resumia-se a uma salinha, com uma pequena mesa de
madeira e um imenso espelho na parede de entrada, e a um pequeno banheiro.-
Nunca havia estado nesse lugar - cometou sentindo muito frio.- Faz, mais ou
menos, um ano que esse parque está abandonado. – Falou tirando o enorme casaco
e colocando-o sobre a mesa. Aproximou-se dela e olhou-a profundamente por
alguns segundos.- Você quer fazer sexo comigo? – Ela perguntou num impulso.-
Quero amar você...- Existe uma grande diferença entre fazer sexo e fazer amor.-
Eu quero a mesma coisa que você. Pode ter certeza, o amor está incluído
nisso... Ele beijou-lhe os dois olhos e a boca. Ele é apenas um estranho,
ela pensou tentando controlar o desejo que aumentava violentamente. Fechou os
olhos, e através daqueles carinhos, tentou materializar a saudade do amor
perdido. Sentiu a temperatura de seu sexo subir rapidamente, acumulando calor,
tal qual uma panela de pressão prestes a explodir, a devorar-lhe as carnes com
a sua água de fogo, e queimar-lhe os ossos até restar-lhe somente o pó. Ainda
com os olhos fechados, ela tirou a roupa revelando as suas carnes brancas.
Deitou-se no chão frio, abrindo levemente as pernas. Era-lhe tão grande o
desejo que sentiu uma enorme vontade de chorar. Como você é bela!, Ele disse,
pensando na imensidão do amor escondido por trás daquela porta, daquela flor em
carne. Sentiu o perfume doce do amor invadir a pequena sala. Caiu de joelhos e
abocanhou-lhe o sexo. Precisava preparar-lhe o caminho, desenrolando o tapete
liquido, sorvendo cada gota daquela água santa para dentro do seu corpo,
benzendo-o. No início, com cuidado e carinho, enchendo o ambiente de gemidos
baixos, doces, até tornar-se um ato desesperado, cheio de ansiedade. Pare, está
doendo!, Ela gritou, causando, nele, grande alteração no espírito. Mordeu-lhe o
sexo com força, Ele não poderia escapar, não daquela vez. Ela soltou um grito
animal quebrando o silêncio da noite. Em desespero, estendeu o braço direito,
pegou um dos seus sapatos e com o salto fino desferiu-lhe vários golpes na
cabeça, até conseguir desvencilhar-se e correr para o lado oposto daquele
pequeno inferno.- Louco! Você é um louco!- Eu amo você! - Disse olhando-a
intensamente.- Eu quero ir embora!- Não torne as coisas mais difíceis pra mim.
Diga que me ama...- Eu não posso amar você, nos conhecemos há poucas horas.-
Por favor, diga que me ama...- Eu não amo você! – gritou com desespero.
Nesse momento, ele teve a absoluta certeza. O que ele procurava não estava
naquele coração. Tirou uma faca do casaco e enfiou no peito dela. Ela caiu
trêmula no chão. Observou-a com cuidado. Ela já não estava mais ali. O
esconderijo do amor estava, finalmente, arrebentado. Começou, então, a sua
busca, partindo-o, deformando-o. Aonde você está? Na cabeça, nos fazendo perder
o juízo, a razão? Na boca, que guarda o céu e cospe obscenidades? Nas mãos,
atado em suas linhas tortas? No sexo, que chora no amor e na masturbação? Nos
pés, que correm com sede de lama?, Procurou desesperadamente até a exaustão,
até entender que ele se escondera num lugar que ele não teria acesso. Ele fugiu
da vida. Com a dor, escorregadio e sem forma, entrou no sono dela, e se
escondeu em seus sonhos..., pensou, com a dor estampada no rosto. Nesse lugar,
ele não poderia entrar. O amor havia surgido em sua vida para, novamente, horas
depois, deixar somente carne, sangue e vísceras. Observou pela janela a
noite se recolhendo para dormir. Precisava agir antes que amanhecesse. Colocou
os pedaços de carne e ossos num saco. Olhou-se no espelho, estava com uma
aparência horrível, sujo de sangue e suor. Tomou um banho demorado e vestiu a
mesma roupa. Pegou o casaco que ficara sobre a mesa, tomando o cuidado de
abotoá-lo por completo, dos joelhos até o pescoço, a fim de esconder as manchas
de sangue. Com a mente em branco e com o seu amor em pedaços, retornou a ponte
dos desejos e, guiado pelo instinto, jogou o saco no rio. Era a terceira vez,
naquele ano, que saía com o Sol, cheio de desejos e sonhos e voltava na
madrugada, faminto de amor. Apesar da enorme tristeza no peito, não podia se
queixar de solidão. Misturado aos seus inúmeros e bons amigos, logo, logo,
estaria recuperado. Seja um bom menino!, Lembrou com carinho das últimas
palavras da sua querida mãe antes de sair de casa. Precisava comprar pão
fresquinho e preparar-lhe o café. Dormiria, pelo menos, uma hora, em seu colo,
antes de ir para o trabalho. As águas do rio, agora, refletiam o céu em
vermelho, destruindo a vaidade de Deus. Tentou cantar. Não conseguiu, a sua
língua estava presa no céu , com gosto de sangue. Então, chorou. Os seus olhos
deram a sua boca o gosto amargo da vida, o sal que mantém sobre a terra somente
a carne e os ossos, mas que é inimigo do amor, que ele tanto amava, mais que
qualquer outra pessoa. Agora, precisava dormir. Com a luz do Sol, talvez o
encontrasse novamente, então cantaria a sua canção preferida, sonhando com um
final feliz.
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