A ESTAÇÃO DAS BORBOLETAS
Sebastião Vicente*
Se amanhã, você chegar à repartição municipal e for encaminhado para o programa
de tevê mais próximo, não reclame. Se o nível de nitrato na água chegar a um
nível insuportável, nem pense em chamar as autoridades convoque urgentemente
uma repórter, de preferência loura, bem penteada e falante como um papagaio. Se
notar que a cidade está sendo administrada como um loteamento mercantil,
conforme-se: é assim que funcionam os programas de auditório. Se achar que foi
mal recebido pelo assessor do assessor do auxiliar do escritório do chefe do
gabinete do secretário municipal, tome aquela providência ao alcance de todos:
dê uma vaia nele, pois é esse o código de aprovação ou reprovação vigente na
terra da inteligência jogada fora.
Não vá passar vexame espantando-se caso encontre na rua um multidão de tietes
de terninho, saltinho e risinho no rosto sempre que a despachante municipal
estiver em visita a uma obra qualquer. Contenha-se ou, no máximo, misture-se à
massa para não chamar demais a atenção que este, meu bem, é o crime supremo
na nova geração do sim, claro, por que não?, agora mesmo, só se for agora. Nas
datas festivas, esqueça o teatro popular a gente já enjoou desses autos
todos. Programe sua cabeça para assistir a shows animados com a presença de
figuras muito carismática que levantam qualquer audição com sua força de
comunicador popular. Nas bibliotecas, finja-se de morto. Nas livrarias,
socorra-se com a sessão de auto-ajuda. No cabeleireiro, fique à vontade agora
este é o ambiente supremo da cidade do Sol.
Em Ponta Negra, reclame um pouco do serviço do quiosque que é para não lhe
confundirem com um bocó qualquer. No Praia Shopping, curta sua nova vida
variando as cores e os tecidos conforme as mudanças de estação e nunca deixe de
simular a importância de se estar a par de tudo o que há de mais atual. No
Miduei, reprove mas com aquele ar de pouca importância o nível da
freqüência. No Centro da Cidade mas quem vai ao centro da cidade, querido?
Ah, só se houver um evento muito especial. Sinto contrariar mas, naturalmente,
você terá que ir ao Centro da Cidade, pois que a sede da Prefeitura aquele
prédio precisando de um retoque há muito tempo fica por lá. Não tem problema:
use o carro com películas, claro. Na Ribeira, faça de conta que é turista
como a moça daquela canção de Chico Buarque.
Canção de quem, amor? Deixa pra lá. O importante neste momento é que você se
convença da importância da mudança que vem aí. Se você achava que a cidade
estava ficando estressada, abusada, nova rica e tão pedante quanto ignorante,
não tema: o futuro imediato anuncia algo muito pior. E você precisa se adaptar,
não é mesmo? Comece a treinar agora mesmo. Repita, olhando-se no espelho mais
próximo: tudo vai ficar melhor porque eu sou linda como uma borboleta!
* Sebastião Vicente é jornalista e, caso ainda haja alguma dúvida, partidário
da candidata Fátima Bezerra na disputa pela Prefeitura de Natal.
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