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Espelho, espelho meu!
 
Cláudia Magalhães
 
 
 
 
      Estava nu diante do espelho. Olhou seus pés, as pernas finas, o tórax 
pouco definido, os braços compridos, as mãos grandes e magras, o rosto 
delicado, quase feminino. Gostou do que viu, exceto os pelos insuportáveis, que 
o deixavam nervoso, como se tivesse um grave defeito físico. Tinha dezoito anos 
e era virgem. Chamava-se Pedro, que significa pedra, contrastando com sua alma 
de cristal. Uma alma, com um brilho intenso, ofuscada pela imagem que sorria, 
falsamente, diante do espelho. Entrou no banheiro e depilou-se por inteiro. 
Lavou o corpo com água do chuveiro, e a alma, com água de chuva. Secou-se com 
cuidado e, sentado diante do espelho, que ficava ao lado dos porstes de Oscar 
Wilde e Arthur Rimbaud, seus ídolos, calçou as meias finas que estavam sobre a 
cama, cobrindo o sangue que teimava em lhe escorrer pelas pernas. É preciso 
ferir-se para continuar vivo, pensou observando os pequenos cortes sobre a 
pele. Roçou as pernas uma na outra. Nunca experimentara nenhum prazer maior que 
aquele. Colocou a sandália prateada, de salto finérrimo e, por último, o 
vestido vermelho de seda que lhe ia até a altura dos joelhos e deixava a mostra 
seus ombros delicados. Em seguida, seguindo a geografia da alma, pintou o 
rosto.  Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Pedro não mais existia. Pegou 
a bolsa e atravessou a sala com cuidado para não acordar a sua mãe. Quando já 
estava próxima a porta de saída, escutou um leve ranger na madeira da escada. 
Sentiu o sangue gelar e devagar olhou para trás. A sua mãe a observava, na 
penumbra, imóvel. Abriu a porta, com pressa, e saiu para o deserto do mundo, 
com as pernas bambas, pisando no chão firme como quem pisa em areia fofa e 
quente. Com sede de vida, como um criminoso, um homicida. 
 
      Nunca conhecera o seu pai. A sua referência de família girava em torno da 
saia de sua mãe, Alma. Uma saia que cobria com sete anáguas uma lua cheia de 
desejo, com sede de Sol. O seu pai morrera de câncer quando ela estava grávida 
de sete meses, e com ele, a sua felicidade. Tornou-se uma mulher de poucas 
palavras, uma sombra da saudade. Dividia o seu trabalho entre a sua profissão 
de bibliotecária e os pincéis.  Seus quadros, sempre, retratavam pessoas 
tristes, melancólicas. A sua forma de ver o mundo. O que minha mãe está 
pensando de mim nesse momento..., pensou ligando o som do carro. É certo que 
ela sabia que o filho tinha alma de mulher, mas, ela, nem ninguém, nunca o vira 
vestido como tal. Sempre o fazia trancado em seu quarto. Era filho único e o 
véu de noiva da sua mãe substituíra as bonecas que nunca tivera. Leve-me para 
sair hoje à noite, onde haja música e haja gente que seja jovem e viva..., a 
música de Morissey fez sua mente seguir viagem, suspensa na lua.
 
      Chegou na Praça das Flores. Sentou numa das mesas e pediu uma cerveja. 
Sentiu os olhares curiosos, zombeteiros, que desconhecem o valor da vida, 
penetrar-lhe a carne e atingir-lhe o coração. Risos nervosos, gargalhadas 
debochadas soltas ao vento. Nesse momento, envelheceu dez anos. Cada segundo 
parecia horas. Sabia que precisaria enfrentar aquela situação, mas não 
resistiu. Com os cotovelos sobre a mesa, segurando a cabeça com as mãos, chorou 
desesperadamente, sem entender que aquela dor era, em parte, manipulada. Era o 
choro que alcançava o tamanho indefinido das poesias, das músicas, dos livros 
que povoavam sua cabeça cheia de sonhos adolescentes. Diferente de alguns que 
aconteceria ao longo da sua vida, mas não muito, já que todo choro arrasta uma 
série de lástimas, que sob o julgamento dos olhares externos, e por isso, 
afortunados, seriam, facilmente, lançados ao abismo. Sentiu saudade do seu 
quarto e dos inúmeros personagens imagináveis que o rondavam. Posso sentar?, 
perguntou um rapaz alto e magro, que surgira a sua frente como um furacão, 
interrompendo os seus pensamentos. Acenou afirmativamente com a cabeça. Ele 
tinha os cabelos pretos, curtos e desalinhados, e enormes olhos castanhos com 
olheiras escuras que a encaravam destemidos. O seu coração saltou do peito, 
feito um animal selvagem, colando-se ao céu da boca, e o seu corpo ardeu em 
brasa, fazendo a tristeza evaporar-se por completo. Conversaram coisas 
incríveis. Era um paulista de vinte e dois anos, e estudava gastronomia. Estava 
em viagem de férias com os pais e aquela seria sua última noite na cidade. 
Descobriram que gostavam das mesmas músicas, dos mesmos autores e eram 
apaixonados por cinema. Ele era uma pessoa excepcional e a sua companhia o fez 
esquecer seu desprezo por grande parte da humanidade. Bem, já está 
amanhecendo... Eu preciso ir. Vamos viajar ao meio-dia e ainda precisamos nos 
despedir de alguns parentes. Além de descansar um pouco, é claro, ele falou com 
certa tristeza. Pediram a conta e seguiram em direção ao carro dela. Quer que 
eu te deixe em algum lugar?, perguntou na esperança que ele dissesse sim. 
Obrigado, eu estou de carro, agradeceu. Com um lindo sorriso, aproximou-se e, 
segurando-a pela cintura, beijou-a com paixão. Ela sentiu a vida começar 
naquele instante e feito criança explorou o mundo novo pela boca.  Com a 
língua, livre no céu infindo da boca, mudando as estrelas de lugar, revelou 
seus desejos mais secretos. Salivando mel, engoliu, naquele beijo, toda a 
doçura do mundo.
 
      No caminho de casa, lembrou da imagem da sua mãe no alto da escada. Olhou 
para o relógio, eram cinco horas da manhã. Ela, com certeza, estaria acordada. 
O que dizer?, pensou abrindo a porta da sala com cuidado. Silêncio. Foi até o 
quarto dela e, estranhamente, a encontrou adormecida com as mãos sujas de 
tinta. Melhor assim. Descansaria um pouco e enfrentaria esse problema com 
calma, sem hipocrisia, nem mentiras. Seguiu em direção ao seu quarto e viu 
pendurado na parede, no lugar do espelho, um quadro. Era o seu retrato. Estava 
linda com o vestido vermelho. No lugar do rosto assustado, da noite anterior, 
um rosto sereno e feliz. Ao lado, um bilhete: Para minha linda menina, Cristal! 
Ass.: Alma.  Ficou parada, imóvel, tomada por grande emoção. Lembrou com 
carinho da mãe e um perfume suave de manga doce invadiu seu quarto. Cristal... 
Lindo nome!, pensou, sorrindo feliz diante do quadro que, agora, refletia sua 
imagem, como um espelho.
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