Dácio Galvão: "Cultura não é área de assistência social" Presidente da Capitania das Artes faz balanço da gestão e analisa setor cultural da cidade. Por Alex de Souza e Zenaide Castro
Nasemana - Qual a avaliação que você faz desses quatro anos de gestão? Dácio Galvão - Nós conseguimos estabelecer uma parceria na cidade, com os setores organizados na cultura, e isso foi, digamos assim, um divisor, um marco na nossa gestão. Porque só compartilhando, só dividindo é que a gente pôde pensar e fomentar a cultura local. Na medida em que esse descentramento do discurso passou a ser pragmatizado, eu acho que em vários setores a gente pôde fluir, pôde desenvolver um trabalho que tivesse a ver com o localismo cultural mesmo, né? Traduzindo, eu quero dizer o seguinte: tudo que a gente pensou, nós pensamos nessa relação, digamos, dialética, da cultura local num diálogo com a cultura nacional. Vejo que esse resultado de mediação, de fomentação, que a instituição fez, democratizou o acesso dos artistas, dos produtores, dos intelectuais, à própria instituição. Então, nós conseguimos instaurar um tipo de relação com vários segmentos da população - e isso também parte de uma cultura de um gestor maior que é Carlos Eduardo. Ele nunca pegou um telefone para ligar mim para intervir nisso ou naquilo, nunca houve isso. Isso naturalmente tem que ser dividido com ele, porque ele traça o objetivo maior da ação política. Nesse ponto, trabalhei muito à vontade. Não sofri pressão dessa ordem, o que eu diria que não é comum, ou não era comum na cidade. Nessas parcerias com ONGs, com setores organizados, nós estabelecemos um fortíssimo calendário cultural para a cidade. Paralelamente a isso, nos preocupamos com o caráter formativo. Instituímos bases de formação na área de cultura muito sólidas, de muito boa qualificação. A Zona Norte é um exemplo típico. A gente conseguiu requalificar o Espaço Chico Miséria, que era um espaço de lazer, num conceito mais linear do termo, e transformamos num espaço cultural. Nisso hoje temos instalados uma média contínua de quase 900 alunos na área de música, com bons professores. Ao mesmo tempo, conseguimos levar para lá a primeira escola de formação teatral com reconhecimento técnico, pelo Ministério da Educação. As informações que tenho é que essa é a segunda do país. Isso é um ganho fundamental, importante para a cidade. Conseguimos levar para lá um Núcleo de Formação em Artes Visuais. Na banda sinfônica, trouxemos grandes maestros para dar cursos de capacitação. Fizemos aí, no mínimo, 60 concertos educativos da banda sinfônica. Desafio qualquer administração a ter feito isso. O Balé da Cidade ganhou um corpo, na área contemporânea, mais estimulante. No Balé Escola, com quase 400 alunos em processo formativo, a cada ano, o espetáculo se baseou numa lenda de Cascudo, para se fixar um interesse maior na obra de um intelectual local. O próprio Auto de Natal é uma escola a cada ano para os atores, atrizes e bailarinos que por lá passam. Você gera uma possibilidade de utilizar, a cada edição, 600 novos artistas. Para você ter uma idéia, em todas as edições do Auto você tinha apenas um grupo de bailarinos que participavam. Nós mantivemos na primeira edição, por uma questão de respeito, para a partir daí promover essa mudança, com novos atores, novos bailarinos e sem atração global. Você sabe que aqui em Natal e no Rio Grande do Norte você tem várias companhias teatrais, mas tem oito que monopolizam a estrutura do teatro e da dramaturgia. A gente ousou nesse sentido em intervir. E tem o espaço Jesiel Figueiredo, que nós assumimos nos últimos meses, que está com Grimário Dantas à frente, onde nós estamos trazendo a influência da música e das danças urbanas. Estamos com a coleção Letras Natalenses com 16 edições lançadas até o fim do ano. São conteúdos permanentes. Quero crer que essa linha editorial que nós implantamos tem uma contribuição enorme a ser dada para a boa literatura do estado. Nasemana - Dentre as realizações da Capitania, o maior investimento se deu na consolidação do calendário cultural, principalmente do Natal em Natal. Você acredita que esse evento realmente 'pegou' na cidade e que ele chega a fazer diferença no turismo? Dácio Galvão - Eu não tenho dados estatísticos para isso. Não seria eu a pessoa. O que posso dizer é que a própria imprensa noticiou o aporte de pessoas que lá se fizeram presentes. Acho que não posso fazer um evento sem gente. O que eu tomei conhecimento pela própria imprensa, das quantificações do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, é que a gente conseguiu manter a média em 25 mil pessoas. Não conheço nenhum outro evento da cidade que tenha esse fator agregador. E gratuito. Esse projeto Natal em Natal não fui eu, nem foi Carlos Eduardo, nem foi essa prefeitura [quem criou]. Ele já havia. Agora havia teoricamente. A gente apenas deu forma, que pode ser aperfeiçoada. Ninguém tem salto alto, nem a última voz. Não. Acho que a cidade tem potencial altíssimo, ela precisa avançar os mecanismos mais e mais. E acho que a gente deu uma boa colaboração. Quais os museus existentes em quatrocentos e poucos anos da cidade? Nenhum. Nós geramos dois. São museus definitivos? Não. Agora, foi uma grande idéia, foi. Não tenha dúvida. Não quero fazer uma prestação de contas a você do que a gente fez. O que eu quis passar é que me preocupa uma certa chapa-branca na imprensa de querer dicotomizar e diminuir essas coisas. Acho isso atrasadíssimo. Não tem uma cidade do país, da América Latina, do Caribe, do mundo hoje que não tenha que trabalhar com evento. O capitalismo venceu no século 21, existe uma cadeia produtiva, ela é incontestavelmente irrefreável. E é necessário que a cidade possa intervir com isso. Agora, intervir de uma forma que se preserve, dentro do processo de globalização, que tenha consciência aguçada em seus valores, na sua identidade, sem xenofobismo. Acho que esse calendário deve ser ampliado, deve ser mantido e esses setores devem cada vez mais exigir, como exigem da gente. Nasemana - Dentre os eventos do calendário, Carnaval, São João, Natal, tem algum que não ficou do jeito que você planejava, que poderia ser diferente? Dácio Galvão - Acho que o São João é o que tem o maior ranço do clientelismo. Nós fizemos um grande esforço e conseguimos avançar, mas diria que não avançamos muito. Porque eu considero que a competitividade tem que acabar. A gente sabe que os dois grandes sistemas de comunicação hoje, Globo e SBT, ditam os concursos juninos. E estipulam fórmulas.Acho que o poder público tem que detonar aquilo e apoiar as comunidades nos arraiás. E sem competição. Porque senão vira mercado. Vira mesmo. É complicado isso. Agora, é preciso ousar, ter coragem para promover uma mudança nisso. Lembro que entrei no Sandoval Wanderley no primeiro ano... Rapaz, tinha 500 pessoas me vaiando, porque eu estava instalando o primeiro debate sobre festejos juninos. Com o pessoal de antropologia da universidade e tal, sem intelectualizar demais a questão, mas querendo levar um certo conteúdo, porque estava degringolado. Não estou querendo que seja alavantu e anarriê para sempre porque nunca foi. Mas esse processo reelaborativo nunca teve um peso do capital tão grande como está tendo nos últimos tempos. Por isso são importantes esses estudos que ensinam a ver isso e, de uma forma simples, se levar a quem faz, esses brincantes, que muitas vezes são pessoas ingênuas, manipuladas pela mídia. São esforçados, às vezes tiram do próprio bolso, ficam devendo grana. Mas isso é uma questão que as pessoas confundem. Área de cultura não é área de assistência social. Isso é outro setor. O carnaval indicou que tem toda condição de evoluir. Faltou músico pra gente contratar, as pessoas ficaram felizes. Nasemana - A cultura tem sérias limitações de orçamento e isso não é um privilégio apenas de Natal. A lei de incentivo funciona como um mecanismo que ajuda a aportar mais recursos para o setor. Qual a dificuldade em se implantar, na lei Djalma Maranhão, o fundo municipal de cultura para facilitar mais o acesso a recursos, sem o artista precisar bater à porta dos empresários? Dácio Galvão - Esse é outro equívoco. Se falou em criar um fundo municipal, mas o fundo já é criado. Esses setores organizados, alguns deles, ainda não aprenderam, por exemplo, a trabalhar com a lei de incentivo, o que acho um atraso. A prefeitura todo ano dá R$ 2 milhões para vocês trabalharem e volta R$ 1 milhão... Tem condições? R$ 1 milhão financia muita coisa. Não é possível. Às vezes as pessoas se atrapalham porque isso é uma burocracia muito fácil. A prefeitura renuncia. Tem uma comissão em que eu, como presidente, nunca precisei ir desempatar nada. Nunca prendi um processo aqui por um minuto. Nunca fiz um lobby. A partir daí, tá aqui o seu certificado. Aí é uma outra questão que o poder público não tem a ver: são os empresários, uma classe dominante que não tem sensibilidade com a cultura porque sabe que é um vírus, que pode mudar a vida das pessoas. É muito simples atribuir a responsabilidade ao poder público. Os setores civis da sociedade têm que se organizar e lutar. E a gente tem que admitir que alguns artistas estão em 1970. A Feira de Sebos é um grande evento. Disse isso a Abimael [Silva], a Jácio [Torres, sebistas]. Pergunto: 'Vocês não têm condições de se organizar?' Chegam aqui 10, 15 dias antes e querem 'só R$ 20 mil'. Merecem R$ 50 mil. Mas isso aqui não é bodega, que você abre a gaveta e tá aqui a grana. Você tem que tramitar um processo, tem o orçamento participativo que é uma forma democrática de buscar recursos. Ninguém vai lá. São vários mecanismos que têm que evoluir. A lei de incentivo é um mecanismo que precisa também melhorar. Tenho um projeto, o Nação Potiguar, e nunca cobramos. E é um projeto de oito anos. Acho que qualquer projeto incentivado não deve ser cobrado. Tem incentivo, então não pode cobrar. Mas isso é outro papo... Nasemana - Mas o que falta para tirar o fundo municipal do papel? Dácio Galvão - Acho que não houve mais empenho da nossa parte. Faço essa autocrítica, uma autocrítica que não está relacionada só à administração pública e vou explicar por quê. Quem deveria estar co-gerenciando isso comigo era o Conselho Municipal de Cultura. Acontece que quando assumi, o conselho estava constituído de forma irregular. Fui tentar ajeitar a lei, passei 11 meses lutando porque não tinha uma assessoria jurídica. Só consegui montar agora, há dois meses. Quando constituímos o conselho, ele viu que a lei estava absolutamente capenga. E começamos a lutar para aprimorar essa lei. Mas não conseguimos, porque a burocracia é muito grande. O conselho deveria estar dividido essa responsabilidade e ele é constituído paritariamente. Então volto a dizer: a responsabilidade não é só do poder público. O que precisa haver é um aprofundamento na legislação do Conselho Municipal de Cultura. Legislação essa que tem um certo hibridismo confuso também na parte de patrimônio histórico, com a Semurb. Cansei de levantar isso na administração. Não conheço nenhuma cidade no Brasil onde a secretaria de meio ambiente e urbanismo faça parte do patrimônio histórico e artístico. Na hora que tivermos um empenho maior que o que tivemos - e conseguimos alguns avanços - isso é fácil de equalizar. Acho que o fundo precisa avançar e defendo que seja aplicado nesses valores aos quais nos referimos o tempo todo. A cultura popular de Natal tende, como de resto nas outras cidades, a ser tragada pelo mercado. Protecionismo, não. Mas proteção, sim. Há uma diferença. O fundo de cultura tem que ter esse zelo, essa preocupação. A gente tentou dar uma visibilidade a Raimundo Brasil que ele nunca tinha tido. No entanto, a classe média é preconceituosa, os intelectuais são preconceituosos, não vão para a Ribeira ver. Porque aquilo é uma merda, aquilo não existe, aquilo é uma grande caretice, aquilo é postiço. Mas bota 10 mil, 15 mil pessoas para ver. E não tenho nenhum problema em dizer que antes de estar aqui eu não ia ver. Então é um problema de preconceitos históricos, de conservadorismo, de cultura dominante. Para você vencer tudo isso e avançar dentro da questão pública, aparentemente é uma axioma simples, mas pragmaticamente não é tão simples. Nasemana - Você é produtor cultural, mantém a Fundação Hélio Galvão e, apesar de uma passagem pelo Centro de Documentação da Fundação José Augusto, está tendo pela primeira vez a experiência de gestor público. Essa experiência do outro lado da mesa mudou sua visão? Dácio Galvão - Muito. Aprendi muito. Não senti muita diferença em lidar com a tribo, porque sempre fui índio. Essa galera toda me conhece do gueto, não me conhece nem da Hélio Galvão, da José Augusto, nem da Capitania das Artes. Isso facilitou nossa relação, porque eu tinha um crédito natural pelas lutas que travamos conjuntamente. E aprendi muito porque não tinha essa noção burocrática da administração. E é uma burocracia para você não vencer, é para travar, sabe? Há até um fascismo nisso, porque preconiza uma legalidade fantástica e na verdade é para você não andar. Mas faz parte do processo democrático e da luta de todos os segmentos. Nasemana - E da sua produção como escritor, pretende retomar alguns projetos após sair da Capitania? Dácio Galvão - Eu tenho um projeto na gaveta que não sei se faço no ano que vem ou no próximo. Ao longo de 10 anos, fiz parcerias com vários músicos e compositores. E pretendo lançar essa trabalho autoral, com 16 faixas, que reúne mais de 80 músicos e tem gente como Zé Celso Martinez Correa, Zeca Baleiro, Alceu Valença, Walter Franco, Arnaldo Antunes, Naná Vasconcelos, Geraldo Azevedo e outros artistas, que são os intérpretes dos meus textos. Vou lançar esse disco, que irá se chamar Poemúsicas. Vou lançar junto com um livro que estou chamando de Quasetexto. São textos jornalísticos que eu publiquei em vários periódicos ao longo de 15 anos. E pretendo retomar a pesquisa do doutorado, sobre o modernismo de 22, em que um dos focos são os poemas de Cascudo e a relação dele com a música. URL :: http://www.nominuto.com/cultura/dacio_galvao_cultura_nao_e_area_de_assistencia_social_/28912/
