Cena Urbana

Colunista: Vicente Serejo
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MAQUIAGENS CULTURAIS 
A cultura foi um show de maquiagens nos últimos anos. Se o maior pecado da 
Fundação José Augusto é não ter uma política cultural definida, fragmentada 
pelo traço rotineiro dos próprios deveres do organograma, na Prefeitura a 
politicagem foi a marca. Espetáculo agravado por um jornalismo cultural de 
descarada cumplicidade - servidor de suas vaidades e acólito dos erros sem nada 
questionar, numa quermesse de carrossel de cavalinhos de luminosos elogios. 
Numa coisa a Capitania das Artes foi perfeita de tão aguçada na sua visão: ao 
perceber o grande e visível desejo do prefeito Carlos Eduardo Alves de ser um 
novo Carlos Lacerda, reunindo, numa mesma alma, um político genial e um 
intelectual brilhante. Não fez o milagre, claro. Nem poderia. Mas montou os 
cenários da quermesse e bateu palmas. A Capitania traçou o risco e fez o 
bordado, a proteger uns e discriminar outros, como se fora uma propriedade 
privada.
Nem por isso todas as conseqüências foram ruins. Como prestigiou alguns amigos 
que por coincidência são bons escritores, ficaram alguns bons livros, sem um 
plano editorial capaz de documentar a prosa e a poesia de Natal. Caiu no 
espetáculo dos suplementos culturais e, estes, no aplauso gracioso. Resultado: 
nada o falso jornalismo questionou. E não exerceu seu papel crítico ao misturar 
as folhas. Na feia e pobre mixórdia feita de interesses uns e de conveniências 
outros. 
Resultado: fica pouco. Um gordo álbum de recortes; uma coleção de elogios e 
sorrisos bem fotografados, e só. O museu da cultura popular, na antiga Estação 
Rodoviária - monstrengo cujo melhor destino teria sido a tromba dos tratores - 
é um vexame. Não faz a leitura da obra de Câmara Cascudo, o maior nome nacional 
deste saber. Parece ser o efeito tardio de velho rancor familiar. O memorial da 
cidade? É a novidade, sim, mas, perdoem: foi uma idéia deste cronista. 
Quanto a não fazer política, não é bem assim. Fui conselheiro, pelo menos 
alguns anos, da Fundação Hélio Galvão, por convite de sua direção. Havia uma 
razão que só descobri nesses anos recentes: naquele tempo eu também era editor 
do Diário de Natal e, como tal, tinha algum poder de influência na publicação 
de matérias. Como os editores de cultura de hoje, esses que integram o conselho 
editorial e editam a revista do alcaide, tudo financiado pelas burras oficiais. 
Fui convidado várias vezes para os cafés festivos que a Fundação Hélio Galvão 
promovia nos aniversários do então deputado Carlos Eduardo Alves. Reconheço: um 
bom investimento. Neles nunca se tratava de cultura. Só conversas amenas 
naquelas manhãs pitorescas do Tirol. Na política municipal mais recente, 
anterior a 2008, vivi intensos exercícios da palavra e logo provei o gosto 
forte da ingratidão. Foi a vida que quis assim. E a maquiagem derreteu no calor 
da luta...



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