O TEMPO EM QUE AS PINIQUEIRAS AINDA ERAM
BESTAS<http://omeiodarua.blogspot.com/2008/11/do-tempo-em-que-as-piniqueiras-ainda.html>
Por
:Rafael Duarte

A vida passa devagar para o velho Pedro engraxate. Aos 63 anos, ele
sobrevive do passo apertado das centenas de pares de sapato que vem e vão
pela antiga Praça da Cocada, na rua João Pessoa, em pleno Centro de Natal.
Hoje, a praça carrega outro nome: John Kennedy. Mas nem disso ele reclama.
Também não fala mal do governo e muito menos da falta dos fregueses. Saudade
mesmo o velho Pedro engraxate tem do tempo em que trabalhava como zelador
nos dois mais tradicionais cinemas daquela região: os cinemas Nordeste e Rio
Grande. Perdeu a conta de quantos filmes de faroeste e de guerra assistiu
entre uma espanada e outra nas poltronas. Diz apenas que aquele era um tempo
diferente:

- Naquele tempo as piniqueiras ainda eram bestas. Hoje você nem reconhece
mais. Antes, não. Quando vinha uma você sabia que era piniqueira. Aí chamava
para ver um filme e, depois, ia sarrar por aí. Mudou tudo. Antigamente a
noite nas ruas do Centro só andava gato e cachorro. Agora tem muito
vagabundo.

Quando pergunto da história de uma galega misteriosa que vendia os bilhetes
no cinema Nordeste, ele prova o quão cruel é o tempo:

- Era a Eugênia. Mas ela hoje está só o bagaço.

Depois que deixou o cinema, Pedro nunca mais assistiu a um filme. Nem de
faroeste nem de guerra:

- Para quê? Hoje passa tudo na televisão... e eu também não tenho mais
paciência, não. Bom era o John Wayne. Gostava também da 'Noviça Rebelde', 'E
o vento levou...', hoje perdeu a graça. Trabalhei dez anos no Cinema
Nordeste e nove anos no Rio Grande. Era muito bom. Chegava às 6 horas da
manhã e saía às 7 da noite pronto para tomar umas pingas.

O velho Pedro engraxate nunca brincou em serviço. O ponto fixo onde trabalha
é prova. Há 19 anos, conseguiu junto à prefeitura a concessão de um caixote
de madeira instalado em frente à estátua do ex-presidente dos EUA, John
Kennedy. A indicação veio de Antônio, o amigo sapateiro que tomava conta do
caixote ao lado. A oportunidade, no entanto, teve um preço. Biriteiro de
primeira, Antônio escapava de vez em quando da labuta e deixava Pedro
tomando conta do negócio. Veio o primeiro freguês, o segundo, o terceiro e
as escapadas do amigo, que a essa altura já tinha virado colega, ficaram
cada vez mais freqüentes. Se precisava de uma grana, Pedro sabia a quem e
onde recorrer:

- Às vezes ele estava sem dinheiro para tomar uns caroço de pinga e eu dava
só para poder tomar conta do ponto e tirar um dinheiro. Tinha dia que ele
mesmo pedia. Aí vagou o ponto do lado e ele perguntou se eu não queria
trabalhar ali. Fui à prefeitura e, como não tinha ninguém mesmo, eles me
deixaram tomando conta.

O caixote do Pedro engraxate fica entre outros dois caixotes, todos azuis.
No da esquerda, trabalha um coroa botafoguense. O outro, de Antônio, está
vazio desde o dia 12 de março, quando Pedro perdeu o amigo.

Pedro teve se virar entre as perdas e conquistas da vida incerta que assumiu
desde que deixou a roça em Caiçara, interior da Paraíba, onde nasceu e
trabalhava com o pai, para vir morar em Natal:

- Não queria passar minha vida inteira na roça. Peguei minhas coisas e vim
para Natal trabalhar na feira do Alecrim, na barraca de uma tia. Logo depois
um primo meu disse que tinha uma vaga de zelador no cinema Rio Grande e fui
trabalhar lá.

O velho Pedro engraxate, na verdade, queria mais. E confessa que o que mais
conquistou, no Centro que o acolheu, foram amigos. Taxistas, engraxates,
sapateiros, comerciantes, ambulantes. É feliz. Ainda que o Centro de que
tenha mais saudade seja o do tempo em que as piniqueiras ainda eram bestas.
E esse tempo, admite, não volta mais.

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