por Nelson Patriota
Jornalista e escritor
 O POEMA/PROCESSO PRECISA MUDAR DE GÊNERO?Passados quarenta anos do lançamento 
do poema/processo, no bojo das idéias reformistas do concretismo, esse 
movimento tem um acerto a fazer com os tempos de hoje: dizer a que veio. Seu 
descarte da palavra, apregoado em seu octálogo de 1967, e ratificado por 
diversos de seus membros, continua em questionamento. Já se pode dizer, 
contudo, que o poema/processo (o que quer que isso signifique) virou história. 
Autodenominado último movimento de vanguarda (sic), talvez devido à repulsa de 
seus integrantes à mudança, tem a difícil missão de abrir espaço para o novo 
sem recuar de suas próprias premissas.

É tempo de se perguntar então qual o lugar do poema/processo na cultura 
brasileira. E uma das respostas mais sugestivas suscitadas por essa pergunta 
veio do poeta Alexei Bueno. Em sua “Uma história da poesia brasileira”, (2007), 
ele o situa no campo das artes visuais, não da literatura. A afirmação, 
perspicaz, é, no entanto, plausível, já que os próprios teóricos daquele 
movimento fazem alarde da obsolescência da palavra, colocando, em seu lugar, 
conceitos abstratos como processos, concretudes e estruturas em função do 
processo, sem se dar ao trabalho de explicá-los. Ora, a literatura é o domínio 
da palavra. Assim, onde esta está banida, aquela não pode prosperar.

O octálogo fundador do poema/processo é seguramente um documento curioso, 
enquanto proposta cultural, porque ao mesmo tempo em que repudia a palavra em 
nome de algo que provou não substituí-la, tenta convocar para as suas fileiras 
novidades musicais, como a música dos Beatles, sobre a qual afirma que qualquer 
uma de suas músicas contém mais informação estética para o homem de hoje do que 
certas músicas ditas clássicas (Beethoven, Wagner, Villa-lobos (sic), 
incorrendo no equívoco de confundir música erudita – sinfonia, ópera etc. – com 
música popular.

O ponto fraco do poema/processo reside na baixa densidade dos seus preceitos 
teóricos (aí incluídos os do abstrato e evasivo Wladimir Dias-Pino, com quem 
tentamos em vão dialogar sobre o p/p, anos passados). Tomemos, por exemplo, a 
idéia de um “processo” do poema, ou seja, de uma possibilidade de alterá-lo 
indefinidamente, tarefa que tanto pode ser executada por seu autor, como por 
outras pessoas – imaginemos, neste caso, um público participativo e capaz de 
inserir alterações (recriações) no trabalho original. Ora, as artes plásticas 
já usam esse procedimento há tempos. A japonesa Yoko Ono seduziu o ex-beatle 
John Lennon justamente com uma instalação que exigiu a participação do artista 
inglês. Na música, a idéia de transformação está presente nas variações 
(pensemos nas Variações sobre um tema de Diabelli, desse Beethoven cujas obras, 
para os teóricos do p/p, estão abaixo de uma canção dos Beatles; ou nas
 Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach). Na poesia, existem paródias, 
paráfrases, versões etc. Lembremos as inúmeras traduções do “Soneto” de Arvers, 
ou a “Paráfrase de Ronsard”, de Manuel Bandeira, ou a “Chanson d’Automne”, de 
Verlaine, que mereceu do poeta Luís Carlos Guimarães três variações, outras 
tantas de Nei Leandro de Castro, Celso da Silveira, entre outros. Nenhuma 
dessas obras está interditada a novas traduções, paráfrases, variações etc.

A verdade é que a simpática idéia, defendida pelo professor Marcos Silva na 
revista Brouhaha (ano 3, n. 10, setembro/outubro de 2007, mas só agora 
lançada), de imaginar que o p/p descobrisse em cada pessoa o artista que lhe 
jaz oculto, não se mostrou factível, talvez por uma razão muito simples: nem 
todo mundo tem, oculto em si, um artista em potencial. Imaginemos o contrário: 
que registro guarda a história, nesses quarenta anos, de eventos coletivos de 
produção maciça de poemas processos?

O já citado documento de 1967, como se pode ler no número da referida Brouhaha 
comemorativa dos 40 anos do p/p, (relativa, portanto, ao ano de 2007), pode-se 
ler, entre outras coisas, que ele tenta estabelecer laços de identidade com 
valores literários de notória filiação vanguardista, como a poesia de cummings, 
a prosa de Joyce, o cinema de Godard, entre outros. Em termos nacionais, invoca 
o surgimento de novos processos poéticos (sem jamais explicar o que os 
diferencia dos “velhos processos”) de Wladimir Dias-Pino, Décio Pignatari e 
Augusto de Campos. A ausência do poeta Jorge Fernandes como vanguardista local 
(posto que o documento é assinado por norte-rio-grandenses) é, digamos, 
estranha. Será que Jorge não cultivou suficientemente os novos processos 
poéticos, tão incensados no movimento? E a prosa de Guimarães Rosa, não foi 
suficientemente radical para perfilá-lo ao lado de um Joyce ou mesmo de um 
Décio?

Como, após o boom de 67 ocorreu, cinco anos depois, uma “parada tática” que 
parece durar até hoje, o poema/processo não sofreu uma revisão por parte de 
seus criadores. E só aqui e ali um ou outro integrante se aventura a encarar as 
questões pendentes ou mal resolvidas, deixadas na esteira da “parada tática”. 
Por exemplo, a questão Cascudo. 

O próprio Moacy Cirne, um decano do p/p, rompeu o silêncio que cercava a 
questão há 40 anos e num tardio, corajoso artigo reconhece dois equívocos: o 
primeiro, ter negligenciado Cascudo, colocando-o à margem das preocupações do 
movimento que desencadeou o p/p.; o segundo, foi não procurá-lo, não tentar o 
diálogo com o mestre. E esse segundo equívoco é particularmente incômodo para 
Cirne porque ele acredita hoje, que “o monumento-Cascudo aceitaria dialogar com 
o poema/processo”. Será? Mas como? Antes ou depois do alardeado projeto de 
queimar livros de Cascudo? 

O poema/processo teve o mérito de reunir um grupo de artistas que, ao atingir a 
vida adulta, se emanciparam de suas limitações artísticas e encontraram 
expressão em diversas outras formas de arte. Pensemos em Nei Leandro, Dailor 
Varela, Jarbas Martins e Moacy Cirne (poesia), em Marcos Silva (artes 
plásticas, literatura e docência universitária), em Anchieta Fernandes (cinema 
e pesquisa), em Falves Silva e J. Medeiros (artes plásticas).

É tempo, então, de o poema/processo fazer um mea culpa e reconhecer suas 
limitações e seus erros, ao invés de se limitar a exaltar seus méritos, seus 
feitos, e seu caráter pétreo, que encobre a idéia de que a idéia de vanguarda 
morreu com ele, ou que continua vivo graças a ele. É uma aporia que combina com 
os teoremas finisseculares de um Fukuyama, por exemplo, para quem a história 
acabou. Não combina com a de criação artística. 

A sugestão dada por Bueno pode ser um caminho nessa direção. Talvez seja 
chegada a hora de o quarentão poema/processo mudar de gênero e trocar sua 
indumentária literária por vestes mais vaporosas, mais próprias às galerias de 
arte, para onde deve se mudar com armas e bagagens. A lustrosa colagem que 
adorna a frente da contracapa da citada Brouhaha é um bom exemplo do potencial 
artístico que o poema/processo apresenta como ramo das artes plásticas.


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