Marcelus Bob, um artista contemporâneo conhecido no Beco da Lama e na Europa
Carlos Santos/DN
"Contemporâneo”. Alerta ao leitor: haverá repetição da palavra ao longo do
texto. Nada proposital. A justificativa é auto-explicativa pela temática
abordada - a arte contemporânea. E também pela reprodução fiel às palavras
do entrevistado: Marcelino William de Farias, conhecido no Beco da Lama e em
doze países europeus como Marcelus Bob, um artista plástico contemporâneo de
vanguarda. A mistura de adjetivações, esta sim, é propositada. É que
Marcelus Bob é múltiplo e suga ainda outras classificações indefectíveis à
sua personalidade de cidadão possibilista. Dos grandes nomes das artes
plásticas potiguares, Marcelus senta no bagageiro da frase do colega Fábio
di Ojuara de que ‘‘toda merda agora é arte contemporânea’’ para contestar
obras de artistas ditos contemporâneos.
Um exemplo clássico nas últimas discussões do gênero causou polêmica
inclusive nesta vila-Natal. Partiu de críticas do poeta Ferreira Gullar ao
artista plástico Guillermo Habacuc. O espanhol pendurou um cão vira-lata
pela corda numa parede de galeria de arte. O animal definhou até a morte.
Segundo Habacuc, a idéia seria reproduzir uma ‘‘instalação perecível’’ como
obra de vanguarda. O artista plástico alemão Gregor Schineider, também ano
passado, procurou um paciente terminal como participante de instalação na
qual o doente morreria na galeria de arte rodeado de gente. A intenção do
artista seria diminuir o medo da morte nas pessoas. Arte contemporânea,
moderna ou vanguardista, a tal instalação é passiva de questionamentos tão
radicais quanto os propósitos ‘‘artísticos’’ dos ditos.
É o que faz Marcelus Bob, taxado pelos ‘‘artistas de photoshop’’ de artista
atrasado, pelo uso de materiais convencionais como a tinta a óleo e tinta
acrílica, usada para pintar telas exportadas para além do Atlântico e
receber da revista alemã Neve Blatter o status de entre os 100 maiores
artistas de vanguarda do mundo. Afinal, o que é arte contemporânea?
‘‘Contemporâneo é viver o período e, mesmo com arte milenar propor temáticas
novas. Mas nada de gambiarras que nem a Cosern aguenta mais. É preciso
habilidade com o pincel. Meu sorriso é desprezo por teorias; quero ver a
prática’’. E completa: ‘‘Não entendo de arte contemporânea, mas sou
contemporâneo. Vivo da minha arte há 30 anos. Isso é ser contemporâneo’’.
Marcelus disse contar nos dedos os artistas pintores do Estado. ‘‘Hoje se vê
artistas multimeios. Quando existia vanguarda era legal. A gente avançava
com produções de qualidade. Hoje a arte está se autodegenerando’’.
Para expressar seu protesto sob as artes contemporâneas, digamos,
fedorentas, Marcelus Bob prepara uma exposição inusitada. Seus humanóides
desta vez serão expectadores de outras ‘‘telas’’. ‘‘Vou expor a anti-obra
com as palhetas que uso para pintar meus quadros. Em minha ignorância
artística me pergunto se é contemporâneo. Nada mais original que apresentar
a originalidade da obra. Duchamp botou um pinico na galeria para fundar a
arte contemporânea e os artistas natalenses agora querem colocar seus
piniquinhos nos salões que se dizem contemporâneos’’. Pelo menos a opinião
do ensandecido poeta Plínio Sanderson foi positiva: ‘‘Original, genial, me
disse com o olhão aberto’’, lembra Marcelus. A exposição está prevista para
este ano. ‘‘Duas lâminas de eucatex, um galão de PVA, dois rolos de cinco
polegadas, 100 metros de nylon, 100 gramas de pitons e está feita minha
exposição contemporânea’’.
*DOM QUIXOTE*
É bem possível que um dos presentes na anti-exposição de Marcelus seja um
convidado ilustríssimo, herói literário de várias parságadas: Dom Quixote,
aquele mesmo de La Mancha. É que o artista tomou a liberdade de enviar um
convite ao filho de Cervantes para visitar pontos representativos de Natal e
protagonizar uma série de telas pictórias em que Dom Quixote divide a cena
com paisagens da cidade. ‘‘Escolho a temática das séries a partir de estudos
e depois desenvolvo pictoriamente’’.
Por que Dom Quixote? ‘‘É dos heróis mundiais o mais perambulante. Andou por
tudo quanto é canto. E a meu convite veio a Natal e agora tem vínculo com a
cidade por meio da minha arte’’. Estes são os mais novos trabalhos de
Marcelus. Dom Quixote talvez seja dos personagens literários mais
reproduzidos sob diferentes manifestações artísticas. Nas telas de Marcelus,
o esbelto cavaleiro sonhador recebe contornos já conhecidos dos natalenses e
apreciadores estrangeiros da obra do transgressor e irreverente Marcelus: os
humanóides.
*HUMANÓIDES*
A marca maior em 30 anos de atividade artística de Marcelus Bob são os
humanóides. Eles ganharam vida nos muros da cidade no início dos anos 80. À
época Marcelus foi o único autorizado pela prefeitura a grafitar em muros.
Os cenários das telas de Marcelus detém, claramente, influência da arte do
grafite. Antes de estrear nos muros pintou duas ou três telas para
aperfeiçoar o personagem ainda hoje presente em esquinas de Natal. A face
dos humanóides são em maioria encobertos pela sombra do capuz. Como explica
Marcelus, evoluíram com os anos e mostraram o ‘‘fucinho’’, depois a face
inteira. Mas ainda guardam o enigma do capuz.
‘‘Eles podem ser bonitos, feios, gordos ou magros. É um possibilista’’.
Todos esboçam expressões sérias, tristes ou angustiadas. Segundo Marcelus é
porque ainda estão desentrosados com a sociedade. ‘‘Quando estiverem mais
ambientados eles vão sorrir. Por enquanto não há motivo’’. Marcelus disse
que expôs um dos seus humanóides na Bodega do Deda, em Mãe Luíza e perguntou
aos clientes o que viam na figura. ‘‘Recebi os mais diferentes depoimentos,
desde pastor de ovelhas à coisa do demo. Até membro da Ku Kux Klan. É o
efeito do personagem encapuzado da sociedade’’.
*ARTES VISUAIS*
‘‘Sou a favor da arte contemporânea desde que ela alcance a arte’’. A
opinião de Marcelus vem seguida de justificativa: ‘‘Isso, na minha
ignorância artística’’. Nessa mesma explicação, Marcelus enaltece talentos e
revelações da cidade ‘‘de nível internacional’’, sem apoio merecido do poder
público. Para Marcelus, há 20 anos os salões e premiações eram específicas
aos artistas plásticos. ‘‘Hoje o pintor disputa com escultor, fotógrafo com
desenhista nos agora chamados salões de artes visuais, que englobam
instalações, objetos - coisa para ludibriar artista’’.
Marcelus disse que propôs premiações individuais aos artistas plásticos ou
divididas por categoria à prefeitura e apresentou proposta de exposição ao
valor de R$ 80 mil. ‘‘Armei até discussão com um cidadão no bar que me
intitulou artista tupiniquim e disse que faria exposição com R$ 5 mil. Mas é
exposição profissional? Na prefeitura me disseram que só faz exposições de
no máximo R$ 20 mil. São pessoas sem capacidade e sem didática dos próprios
assuntos que administram. É tudo ludibriação. É conversa para boi dormir. E
boi não dorme mais com papo; boi agora come a vaca’’.’’.
*ATELIÊ*
Dentro do seu Centro Histórico Marcelus Bob é cidadão do mundo. Nascido no
Passo da Pátria em 1958, foi criado no morro de Mãe Luíza e adotou a Cidade
Alta há cinco anos. Se existe autodidata dada as essências do
existencialismo ou de Piaget, Marcelus Bob é um deles, mas recebeu
influêcias do pai repentista e escultor e da mãe, instrumentista de corda.
Em casa de arquitetura neoclássica na Rua Gonçalves Ledo, o artista montou
seu ateliê na entrada de sua morada.
No espaço de aproximados 25 metros quadrados, a tela de trabalho está
situada ao centro. Na mesa escorada na parede ficam empilhados Cds em
maioria de rock progressivo como Pink Floyd, junto ao som. No instante da
reportagem o artista ouvia o último álbum do compositor potiguar Geraldo
Carvalho. Também à mesa o troféu O Poti, do qual lhe rendeu vídeo no youtube
já com milhares de acessos dada sua performance verbal ao receber a
premiação. Mais encostado, o livro do poeta natalense Bianor Paulino: O
empalhador de palavras, de haikai.
Ainda no ambiente, palhetas, recortes e quadros, além do violão do roqueiro
líder do Grupo Escolar. Marcelus adianta que tem música nova pronta para
concorrer mais uma vez ao festival de música MPBeco, em parceria com Paulo
Ricardo. É neste ambiente que o artista, sem hora ou compromisso, produz sua
arte. ‘‘Pinto quando me vêm a mensagem. É como um anjo mandando eu
trabalhar’’.
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