Quero minha gameleira, devolva!
 
 
Até o fim da década de 80, Natal era bastante arborizada. O que aconteceu? 
Lembro – me da Av. Rio Branco com suas Acácias, Gameleiras e Pau-Brasil. Era 
bonito de se ver. Lembro da Bernardo Vieira e seu canteiro central. Ali 
cresciam sobre o barro barreiras, árvores de espinhos, do sertão ou cerrado. 
Todas finadas, coitadas. 
Quando viajava para Fortaleza, Natal era exemplo que enchia-me de orgulho. 
Limpa, arborizada. Era um exemplo de cidade.
Pois é, o tempo passou, pouco tempo na verdade. O que aconteceu? Lembro da 
prefeita Vilma derrubando as gameleiras da praça João Maria. Lembro das 
infinitas podas transformando em azul, o teto verde da Av. Rio Branco. 
Foi por aí, não parou mais. 
Hoje, o recente largo da ribeira é branco. Não preciso dizer mais nada. Está na 
paisagem, impresso pelo tempo, as contradições de duas épocas de uma mesma 
cidade. A praça Augusto Severo, antiga, arborizada. Árvores tropicais enormes, 
bem cuidadas. Sombras ao meio-dia. Vizinho, o largo contemporâneo. Alvo, 
cáustico, sem uma bananeira. O que foi que aconteceu? 
Talvez um problema multicultural, multiparticipativo. 
Será que faltou chuvas, o sol ta muito quente, o que foi cara? 
Pois bem, com aquecimento global ou não, a temperatura dos últimos 30 anos 
continua a mesma. Varia entre 35º.  
-Mais está quente demais. Liga o ar condicionado amor. Ar condicionado é bom. 
Vou virar um velho chato, rabugento. Alguns são assim por que viram seu mundo 
ser destruído. Substituído pelo novo. Na verdade, o velho, dublado pela farsa 
do novo, moderno. 
Pois é, como pode mudar, da noite para o dia, valores éticos, morais, 
sensoriais e estéticos de uma cidade? Hoje tem tão poucas árvores em Natal que 
devíamos batizá-las. 
Padre João Maria que nos salve. Dos bispos de Olinda também.
 
serrão


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