PILHAGEM DO SACRO NO RN30 de março de 2009
Por Márcio de Lima Dantas
Professor de Literatura Portuguesa da UFRN e ensaísta
Usando como desculpa a renovação e atualização dos rituais da Igreja Católica,
encarnada sobretudo na chamada Renovação Carismática, os últimos tempos foram
testemunha de uma desenfreada e astuciosa destruição do patrimônio sacro das
nossas
igrejas mais antigas.
Imagens seculares de madeira, tocheiros de prata, lampadários, coroas de metais
preciosos, adereços das imagens e outros objetos de devoção e culto ou de
adorno foram desaparecendo do cenário dos nossos templos, caracterizando um
acintoso ataque à memória histórica e afetiva das comunidades detentoras de um
já restrito espólio dos seus antepassados.
Esses bens culturais, embora pertencentes à Igreja Católica, deveriam ser
preservados para o usufruto de todos os cidadãos. Malgrado pertencerem a uma
instituição religiosa, essas pequenas mas importantes coleções encontram-se
envolvidas em tradições locais, algumas já seculares. Com efeito, num Estado
como o nosso em que rareiam os museus históricos ou temáticos, os templos se
revestem de uma importância não apenas como lugar de culto e celebração de
cerimônias religiosas, mas também como lugar no qual se deveria preservar uma
parte da nossa história.
Configurando-se como um dever da posteridade para com aquilo que ainda deve ser
conservado como valor: a memória dos antepassados e alguns costumes já
praticamente atingindo a extinção e o desconhecimento das novas gerações. Se em
algum momento do futuro tivermos necessidade de inquirir à historia para
tentarmos compreender certos eventos ou comportamentos, pouco ou nada nos dirá
os vestígios preservados do passado, visto que pouco ou quase nada nos resta.
A mutilação das igrejas pode ser constatada em diversas partes. Além de mutilar
e pilhar, acrescentam elementos alheios ao projeto arquitetônico inicial,
descaracterizando e desfigurando a antiga harmonia composta pelos diversos
paradigmas integradores do prédio como obra de arte. Refiro-me não apenas ao
prédio em si, mas ao que antigamente era tido como “tesouro da igreja”, coleção
de objetos preciosos ou semi-preciosos integrantes do patrimônio de cada
paróquia.
Infelizmente, a passagem de párocos-bárbaros muito contribuiu para a destruição
e descaracterização das igrejas. Retirando altares-mores, pintando santos de
maneira extremamente caricata, restaurando precariamente imagens antigas de
madeira, enfim, atentando contra a dimensão histórica e o valor estético dos
objetos.
Lamentavelmente, essas novas gerações de padres com sua ostensiva má-formação
espiritual e temporal parecem não saber que as igrejas e seus objetos de adorno
e culto
integram o patrimônio artístico de uma comunidade, assim como fazem parte do
patrimônio afetivo e memorialístico dos habitantes de um lugar.
Eu não iria tão longe em cobrar uma sólida formação em teologia ou filosofia
(alguns desconhecem passagens bíblicas; outros são incapazes de interpretar uma
metáfora elementar de um dos Evangelhos), mas não é muito esperar que se
comportem como cidadãos minimamente preocupados com os rebanhos a que estão
ligados.
Essas duas dimensões, uma exterior e outra de natureza mais íntima, não podem
ser relegadas a um segundo plano, sob pena de se perder o genius loci de
pequenas cidades quase centenárias, atualmente vivendo à mercê do lixo
produzido pela indústria cultural, principalmente o que é produzido pela
televisão.
Que fique, pois, bem claro que o acima exposto não é índice de um incondicional
anticlericalismo, mas uma crítica a um desvirtuamento de alguns clérigos pouco
afeitos às coisas do divino e mais apegados ao mundano.
O engraçado de tudo isso é que só desaparece o que tem valor – já observaram
isso? – mais uma prova de que quem “some” com os objetos sabe muito bem o que
está fazendo. Os vasos de plástico permanecem lá. O mais grave dessa situação é
o fato de saber que uma parte dos objetos de adorno e culto foi doada pelos
fiéis ao longo da história da paróquia.
Como sabem, havia um antigo costume de se fazer promessas aos santos de
devoção, e se pagar com objetos (vasos, flores, tocheiros, toalhas de
labirinto) que seriam postos nos altares dos santos prediletos, embelezando e
enriquecendo a igreja. Tanto é que o chamado tesouro da igreja, como acima
aludi, é uma instituição extinta ou em vias de desaparecer.
A pilhagem das igrejas – fenômeno generalizado no Estado - não se configura
apenas como um simples “sumiço” de objetos de valor histórico ou artístico,
tendo outras implicações. Falo do conjunto de símbolos e imagens integrantes de
um logos afetivo, capaz de fazer perdurar a identidade cultural de uma dada
comunidade.
Eu diria até, francamente, que se a destruição se constituísse apenas um
desrespeito às crenças religiosas, não seria lá muita coisa, pois como todos
sabem, um mito substitui outro. O ritual dedicado a um mito vale outro. Assim
sempre caminhou a humanidade. Não será diferente daqui para frente.
O problema maior talvez esteja num dos elementos integrantes do mal-estar
generalizado que grassa no espírito do tempo de nossa época, falo de um
“ninguém está ligando para nada”, coisa não difícil de constatar nos
relacionamentos com a coisa pública ou mesmo nos relacionamentos interpessoais.
A noção de compromisso e responsabilidade encontram-se em extinção, levando a
um generalizado “salve-se quem puder”. Com tanta coisa para ocupar a cabeça,
tais como “No limite”, o Carnatal, a compra do aparelho celular mais recente, a
batalha da passagem aérea e as diárias para mais uma viagem de apresentação de
um trabalho, afora a luta diária e encarniçada pelo poder e evidência na mídia…
Talvez seja querer demais o envolvimento das pessoas com o patrimônio histórico
e artístico do Estado do Rio Grande do Norte, que não dá voto nem vez a seu
ninguém.
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