Está lá, á página 125, sobre os hippies que adotaram Natal:
Z Y Ψ
Esse aqui é figura fora de série. É “estranja” ou seja, nasceu em
outras paragens, lá no outro lado do globo, e, como a estrela de Davi (é o seu
nome), foi nascer na Terra Santa. É, nasceu em Tel-Aviv, na Judéia, como Jesus.
Aos três anos vai viver na Europa com os pais e mais precisamente na velha
Albion. É, portanto, cidadão britânico por adoção.
Nos anos oitentas casa-se com brasileira e vem viver por aqui,
tornando-se cidadão brasileiro, ou melhor, desta feita, cidadão universal.
Estamos falando de David Maurice Hasset, diretor e fundador da
Cultura Inglesa de Natal apoiada pelo British Council...
Como um druida ele “parou” na Cidade do Sol.
Com David estou a inovar, ou seja, farei colocação diferente.
Deixarei que ele próprio, como europeu, como inglês e como brasileiro nosso
contemporâneo e participante in loco das grandes movimentações político-juvenis
da época, fale sobre si e sua experiência como um hippie percorrendo a
Grã-bretanha – aliás, percorrendo quase todas as áreas do planeta – nos anos
setenta. E assim o faço porque fiquei curioso em saber se David escreveria tão
bem o português, como fala e compreende.
Fiquei, nem tanto surpreso, mas realmente admirado com sua
capacidade de se expressar, via escrita, em nossa língua. Pequeníssimos
detalhes e eu nem os consideraria erros.
Eis aí, portanto, seu depoimento em texto conciso, a retratar
primorosamente o sentimento beat, sua propagação como veículo de incutir no
homem comum uma posição mental-intelectual-espiritual mais condizente com a
divindade existente em cada ser e se encaixando como uma luva se encaixa à mão
neste ensaio. Vamos ver:
MUNDO PERDIDO?
Sim, confesso que me conto entre aqueles jovens inquietos e desvairados dos
anos 60 que a História costuma congregar sob o rótulo HIPPIE, seja para pichar,
dourar ou simplesmente enterrar. Pior ainda: esse “vale de lágrimas” que todo
mundo percorre ainda não “corrigiu” meu modo de ser, tirando-lhe o espírito
ingênuo e zonzo.
Os jovens da geração baby-boom do pós-guerra formam parte de uma longa tradição
de retirantes da sociedade organizada que procuravam se desligar da vida
regrada centrada em dinheiro e competitividade e manchada por guerras,
preconceitos e pobreza. Os adeptos do “flower power” sucederam-se aos beatnik e
compartilhavam muitas vezes as atitudes dos anarquistas como Bakunin,
procurando criar comunidades utópicas onde não imperasse a força autoritária do
Estado. De certa forma os hippies queriam fugir da vida medíocre e superficial
e dos papéis tradicionais ditadas pela sociedade. Mas também estavam em busca
de algo mágico, superior.
O culto a “música, amor e flores”, exaltado pelas drogas, trazia emoções
surpreendentes e sensações alheias, espelhadas nos sons futuristas do
sintetizador eletrônico e na arte psicodélica. Havia uma nova indagação para a
espiritualidade. Muitos dos meus colegas dedicavam noites à pesquisa das
crenças ancestrais: astrologia, tarô, magia; ou procuravam ressuscitar as
cerimônias dos druidas. As religiões orientais – budismo, taoísmo, Hare Krishna
e outras – foram retrabalhadas em novas formas sincréticas simbolizadas pelas
figuras de São Francisco de Assis e Cristo retratadas em cores psicodélicas nas
camisetas e pôsteres. Não se considerava uma aberração acreditar em fadas, e
figuras míticas como Merlin, os dragões e os heróis vikings dominavam as capas
dos discos. A nova mídia de massa deu uma inesperada força de expressão a toda
essa efervescência com suas manifestações belas e alucinadas.
O movimento Hippie era uma flor estranha de feições variadas. Por um lado, a
sua seiva libertária produziu uma horda de jovens rebeldes delinqüentes e
desajustados que muitas vezes se deixavam cair em excessos perdendo o rumo ou
até a própria vida. Por outro lado as suas frutas exóticas alimentavam os
papagaios, hippies de butique, que ostentavam o estilo e gíria, mas não se
adequavam aos ideais do movimento. Por outro lado, ainda, a estranha erva
desabrochou na flora intoxicada dos idólatras, idealistas e idealizadores.
Considero-me parte desse último grupo, uma mistura bizarra de inconformados
cujos sonhos utópicos continuaram a influir nas próprias vidas, levando os
mesmos por caminhos inesperados. Na época eu cursava a bioquímica na
Inglaterra. Experimentei tudo e me deixei encantar, desperdicei o meu tempo na
universidade, ainda meio à toa em vez de seguir carreira, fiz tudo às avessas.
O que importava era a viagem de exploração do espírito. A vida cotidiana
parecia uma ilusão.
Creio que, mesmo sem o fenômeno hippie, essa multidão esotérica e sonhadora com
a qual convivi teria levado a uma vida descomunal. Mas a “cultura alternativa”
era a força que congregou a nossa energia e criatividade reformadora, que uniu
por um breve período mágico o grupo de pessoas díspares e depois o soltou aos
ventos. No meu caso, a semente hippie veio pousar posteriormente nas terras do
Brasil e se fixou no campo de ecologia. Consegui, assim, por em prática, de
forma modesta, o “Flower Power” que inclui a reverência pelos outros seres
vivos. No caso dos meus contemporâneos, a filosofia hippie encontrou a sua
expressão nas artes, na educação, nas obras de caridade... até na política,
rejeitando o autoritarismo e criando ondas liberais.
Ser um hippie, afinal, não é uma matéria do vestir, do comportamento, do tipo
de emprego, moradia ou amigos. É uma aproximação filosófica à vida que enfatiza
a liberdade pessoal, a paz, o amor, um respeito para o outro (seja qual for a
sua cor, religião ou ideologia) e para o planeta Terra. Tirando os excessos de
libertinagem, este é o núcleo da filosofia do hippie: liberdade com
responsabilidade. Essa semente continua presente dentro de cada pessoa que se
permita acreditar na possibilidade de transformar o mundo.
O sonho não acabou...
David Hasset
22.5.04
Aí, David. Bonito! Emocionante, principalmente este último
parágrafo escrito (e sentido) por quem viveu e conviveu “na matriz” todo aquele
período divino-maravilhoso.
Vejamos alguns dados pessoais de Hasset – sentiram a gênese do
sobrenome? Gente, o cara nasceu na Terra Santa, em Tel-Aviv onde seus pais se
casaram. O casal, com David bebê, tentou se estabelecer na Ilha de Chipre
primeiramente, mas depois partiu para a Inglaterra, nômades, como bons judeus
itinerantes. Quando lá chegaram, Londres encontrava-se bastante danificada
pelos bombardeios da II Guerra. Seu pai decide radicar-se em Loughborough, nas
férteis terras dos Midlands (centro da Inglaterra), onde conseguiu emprego na
faculdade de Tecnologia.
David, para mim particularmente, bebeu da Fonte da Juventude lá pelos lugares
mágicos por onde andou, pois é incrivelmente jovial, alegre, vivaz, encantador,
apesar da idade, que, aliás, eu nem sei qual é. Só sei que pelos idos de
1967/70 estava na universidade. Foi daí sua primeira incursão ‘hitting the
road’ - esta expressão eu criei agora. Fez peregrinações solitárias pela
litoral sul e região dos lagos no norte da Inglaterra.
Na Universidade de Bristol começou a exploração em cavernas (ele é
paleontólogo), atividade que o levou à Irlanda.
Nos anos seguintes “pernas para que as quero” – viagens mais
distantes, inclusive até a, então, União Soviética. Daí, África do Norte
(imaginem, como deve ter se “aplicado” com aquelas drogas maravilhosas do
Marrocos, êin?), e Ásia (uau, o ópio da Cashemira e do Nepal!!!), onde fez um
trekking ao redor do Monte Everest.
Acabou se graduando em Economia, Administração, Exportação e áreas
afins, pela Universidade de Londres e pelas instituições que regulamentam essas
profissões na Grã-bretanha. Ensinou essas matérias em faculdade no centro de
Londres. Tem um irmão que mora atualmente em Gibraltar, no sul da Espanha e uma
irmã que vive em Nottingham. Sua mãe continua em Loughborough.
Casou-se com brasileira, ainda na Europa – então, após um tempo,
vieram para o nosso país em julho de 1979. Passou breves períodos em São José
dos Campos e Recife antes de se fixar com a esposa em Natal, onde fundaram a
Cultura Inglesa em julho de 1981. Vem se dedicando cada vez mais ao estudo e
proteção da natureza, atividade à qual está ligado desde a juventude.
David Hasset é ativista profícuo pró-conservação do meio ambiente
do torrão potiguar. Dirige um sítio ecológico na praia da Pipa com qualificação
internacional dedicado ao estudo, conservação, pesquisa, visitação pública e
observação de parte da mata nativa sul litorânea, ou Mata Atlântica - ou o que
restou dela.
É, obviamente, professor de inglês de longo curso. Um diploma de
língua inglesa da Cultura não é brincadeira não. Interessados na melhor escola
de inglês da cidade como também conhecer David, o telefone está dado: 3211-6070
Deve constar como prazerosa e motivo de orgulho para nós,
potiguares, a presença na terra dos “comedores de camarão”, duma figura do
quilate de DMH. Palmas ao seu sonho que é o de todos nós que vislumbramos (é
ainda um sonho utópico?) um mundo harmonioso.
Assim foi, sem dúvida, a semente deixada pelos hippies.
Pois então: “God Save David Maurice Hasset”.
Y Y Y
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