"Acho que não existe mais arte", disse Lévi-Strauss em entrevista ao "Mais!"
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u471632.shtml
trecho:
FOLHA Em Olhar, Escutar, Ler, o senhor escreveu que há momentos na história da
arte em que a qualidade estética diminui quando crescem o saber e a habilidade
técnica. É o que acontece hoje?
LÉVI-STRAUSS Não. Quando escrevi isso, estava pensando na história da
tapeçaria. A mais bela tapeçaria que conhecemos é a dos séculos em que o
tapeceiro dispunha de número limitado de cores. Esse número de cores só
aumentou nos séculos 18 e 19. Em vez de cem cores, hoje temos 10 mil ou 100
mil. A qualidade se enfraquece. O problema da arte moderna, ao menos nas artes
plásticas, não é um enriquecimento dos meios técnicos, mas, ao contrário, um
considerável empobrecimento. Isso é verdade para as artes plásticas, mas não
para a música, que se torna cada vez mais erudita. Não gosto nem um pouco da
música contemporânea, mas reconheço que ela é extremamente erudita.
FOLHA - Para que serve a crítica de arte hoje?
LÉVI-STRAUSS - Desde sempre, o papel da crítica foi tanto traduzir, por meios
literários, a emoção do espectador diante da obra, quanto tentar compreender
justamente as razões e os mecanismos dessa emoção. O problema é que acho que
hoje não existe mais arte. Há alguns modos de expressão, que continuamos
chamando por nomes tradicionais - pintura, música, literatura -,mas creio que
sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes.
FOLHA - O senhor escreveu que a grandeza de Poussin vem em parte do "segundo
grau" - é um pintor que pinta de maquetes, por exemplo, e não diretamente da
realidade. Não seria exatamente uma exacerbação desse "segundo grau", um
esquecimento do real, o problema da arte hoje, com o pós-modernismo, a arte
como "segundo grau" de si mesma?
LÉVI-STRAUSS Você está misturando duas coisas: o fenômeno da criação de uma
forma profunda, como em Poussin e outros; e o fenômeno epidérmico a que você
faz referência. A grandeza de Poussin vem do fato de ele ser um gênio, e não de
outra coisa. Mas isso não é suficiente para explicar a obra. É preciso saber
como funcionam a obra e o gênio. O "segundo grau" permite compreender o modo
pelo qual ele trabalha e o tipo de emoção que sentimos diante de seus quadros.
Diante de uma tela de Poussin, temos a impressão de estarmos na frente de um
pequeno teatro. Essa impressão vem de como o quadro é composto. Mas não basta
isso para fazer um grande quadro.
FOLHA - O senhor define a arte moderna não-figurativa como um naufrágio. Por
que a questão do realismo e da verossimilhança lhe interessa tanto?
LÉVI-STRAUSS O mundo é de tal riqueza, e estamos tão longe de esgotar todas
essas virtualidades, que me parece ingênuo querer criar fora disso. Quando vejo
um quadro não-figurativo, penso que é sempre menos belo que o espetáculo
não-figurativo que me oferece a natureza, na forma de um cristal, um jogo de
luz etc.
FOLHA - O senhor trata também da representação do sobrenatural em Poussin.
Aonde foi parar o sobrenatural na arte contemporânea? O senhor acha que a
representação do sobrenatural ainda existe na arte?
LÉVI-STRAUSS Quando falei do sobrenatural em Poussin, estava me referindo a
suas paisagens. Uma paisagem de Poussin não se parece com as de [pintores
impressionistas franceses como] Pisarroou Sisley. É uma paisagem monumental,
que é mais bela do que qualquer paisagem real que possamos observar.
FOLHA - Mas o senhor analisa a representação da morte e do sobrenatural em
Poussin também, com a imagem do crânio, por exemplo. Hoje, a arte abstrata não
poderia ser a representação desse sobrenatural, do invisível, no mundo
contemporâneo?
LÉVI-STRAUSS - Deixo essa questão aos amantes da arte abstrata.
FOLHA - Por que o senhor despreza a fotografia?
LÉVI-STRAUSS - Digamos que isso vem de uma pequena exasperação diante da
espécie de veneração da fotografia que vimos aparecer há alguns anos. Fiz
milhares de fotografias ao longo de minha vida. Algumas são bastante belas. Mas
não se deve exagerar. A mais bela fotografia não existirá jamais diante de um
belo quadro. Esse meu desprezo foi mais um movimento de mau humor.
FOLHA - O senhor está trabalhando num livro de fotografia sobre o Brasil.
LÉVI-STRAUSS Trabalhando é exagero. Quero selecionar de 3 mil negativos que fiz
durante minha estada no Brasil cerca de 200 ou 300 fotos e publicá-las de
maneira mais apresentável do que em Tristes Trópicos. São fotos de expedição e
muitas da cidade de São Paulo, que não consigo mais situar. [A antropóloga]
Manuela Carneiro da Cunha teve a gentileza de me trazer mapas de São Paulo da
época para que eu consiga localizar onde as fotos foram feitas. É muito
difícil. Temo que essas imagens tenham perdido o interesse. Não consigo dar
início ao trabalho. Elas me chateiam.
FOLHA - O senhor acredita que todas as artes podem ser interpretadas pelo
estruturalismo, pela linguagem- que toda arte é linguagem?
LÉVI-STRAUSS Em todas as artes, há autores e obras que se prestam melhor a uma
análise estruturalista e outros que são, digamos,mais rebeldes. Se me pedissem
para fazer uma análise estrutural de Em Busca do Tempo Perdido [o romance de
Marcel Proust], acho que me veria em maus lençóis. Não digo que seja
impossível, mas seria uma tarefa imensa.
FOLHA - Numa entrevista recente a CatherineClément,7 o senhor disse que todos
os autores de verdade, em arte, são estruturalistas.
LÉVI-STRAUSS Não me lembro de ter dito isso. Creio que uma das formas de
interpretar e compreender a criação artística é abordá-la pelo ângulo
estruturalista. Mas não me lembro de ter dito que todos os verdadeiros autores
são estruturalistas. Você me desculpe eu lhe dizer isto, mas, quando dou uma
entrevista, respondo qualquer coisa [risos].
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