Um encontro “esvaziado”
D´luca/DN
Poucos músicos natalenses estiveram reunidos ontem no auditório da FJA para
debater problemas da classe A maldição de Cascudo é cada vez mais presente
entre os setores culturais. A falta de articulação em todas as manifestações
artísticas potiguares - reconhecidamente comprovável entre os próprios atores
do processo - minimiza qualquer vislumbre de almejar ou ‘‘consagrar’’ sucessos
em alguma empreitada. Nenhuma culpa do mestre Cascudo. Ele apenas constatou de
antemão o que parece sina. Na reunião ocorrida ontem na Fundação José Augusto
para discutir a situação da Câmara Setorial de Música compareceram cinco
‘‘gatos pingados’’. O tom da discussão foi de reclamação pela falta de espaço
em rádios, pagamento de direitos autorais, desamparo jurídico e desunião entre
os músicos para reverter a situação. E também acendeu uma luz na melodia
apagada da música potiguar.
As Câmaras Setoriais, como a de Música são canais estreitos com o Ministério da
Cultura. É um meio pelo qual as condições da categoria são repassadas
diretamente e os pleitos são requeridos sob argumentos já discutidos
internamente. Isso quando a Câmara Setorial existe de fato. O Rio Grande do
Norte é dos estados da federação mais desarticulados no assunto. Não só no
âmbito da música. Recentemente em seminário promovido pela Casa da Ribeira com
representantes de outros estados do Nordeste ficou clara a total falta de
intercâmbio da classe teatral (a menos ruim) com os estados vizinhos. O mesmo
acontece nas artes visuais e na música, principalmente.
Para a formação de uma Câmara Setorial é necessária uma série de
pré-requisitos, como por exemplo a formação de um Fórum Permanente de Música,
anteriormente criado no Rio Grande do Norte, em 2003, com o nome Toque no Tom
(TNT) e depois extinto. Quando houve a reunião em Brasília, em 2005, para
escolha de doze Câmaras Setoriais de Música entre os estados, dois músicos
potiguares estiveram presentes para pleitear a formação da Câmara Setorial para
o Estado. Rildo Lima e Paulo Sarkis viajaram com passagens pagas pelo
Ministério da Cultura para comprovarem o óbvio. ‘‘Quando chegamos perguntei a
Paulinho o que estávamos fazendo ali. O RN estava muito longe daquela
discussão’’, comentou Rildo Lima.
Rildo disse ainda que, enquanto ficavam calados havia briga entre
representantes dos outros Estados para serem incluídos entre as doze Câmaras
Setoriais. ‘‘Percebemos o quanto estamos desarticulados e sem argumetos para
conseguir nada junto ao Minc. Para se ter idéia da importância desse canal com
Brasília, o representante do Rio de Janeiro lá era o Frejat’’, ressalta o
músico. O articulador do encontro de ontem, Esso Alencar abordou um ponto
chave: o provincianismo.
‘‘Os músicos potiguares ficam eufóricos quando conseguem apresentações no Seis
e Meia. Por nunca termos trabalhado nesse patamar de envolvimento, não
conseguimos dar o primeiro passo para um pulo maior’’, opinou Esso. E Rildo
Lima resumiu: ‘‘Queremos jogar a Copa do Mundo sem termos sequer um time de
várzea formado’’. Se contassem os participantes de ontem o time ficaria
desfalcado. Além de Rildo e Esso (que levou a convidada Dona Edith), Vlamir
Cruz, Ângela Castro, Antônia Zens e músicos integrantes da própria FJA, como
Tiquinha, Babal e Mirabô, os dois últimos apareceram depois por desconhecerem a
reunião na própria instituição onde trabalham.
ESTIMATIVAS
Mirabô foi quem dimensionou a situação com previsões pessimistas (ou
realistas?): ‘‘Falta união. Trabalho na instituição onde ocorre esta reunião e
não fui informado. E sinceramente, acho muita discussão e pouca ação. Tenho 62
anos e desde os 18 participo de reuniões como esta. Estou do mesmo jeito. Não
vivo nem ganho nada com música. É uma mea culpa. Essas reuniões devem ocorrer
junto com empresários. Uma discussão são os meios legais para produzir música.
Outra é como colocar a música para vender na prateleira’’.
Esso Alencar acredita que o grupo reunido ontem será a matriz para um novo
movimento de articulação da música potiguar. ‘‘Queremos pensar o futuro e não
trabalhar com o que ocorreu no passado’’. Esso disse ainda que irá aproveitar
as duas oficinas de capacitação musical promovidas na FJA para o Projeto
Pixinguinha, nos dias 22 e 23 deste mês, para reunir novamente os músicos para
avançar com as discussões. Já há a idéia de promoção de um Festival de Música
Potiguar como forma de mostrar poder de articulação e funcionar como chamariz
para este movimento.
A culpa é de quem?
Um exemplo claro e lamentável de inércia em que vive a classe musical no Estado
é comprovada no processo de convocação do edital para o Prêmio Núbia Lafayette,
promovido pela FJA. O edital e a mídia foram claros ao divulgarem um processo
de seleção para 40 músicos gravarem CDs, com direito a 1.000 cópias, tudo
financiado pela instituição. Até o prazo final de inscrição apenas 20 músicos
haviam inscrito seus trabalhos e provocou a prorrogação do prazo. Os exemplos
recaem ainda na ausência de público e dos próprios músicos em projetos voltados
à música potiguar, como o Poticanto.
Diante do cenário, uma questão foi levantada: de quem é a culpa? Professores
universitários trabalham com músicas de autores nacionais em provas; rádios
cobram jabar para tocar autores potiguares; falta política pública de
incentivo; os próprios músicos têm vergonha de tocar suas músicas autoriais em
shoppings e bares. E o que a classe tem feito para mudar a situação? Rildo
citou o exemplo até do desamparo jurídico: a carência de discussão do assunto
também desestimulam advogados a conhecerem a Lei de Direitos Autoriais e os
músicos não têm a quem recorrer para requerer seus direitos. ‘‘Pouca gente sabe
que se você toca sua música em um bar tem que receber por isso’’.
SAIBA MAIS
A Câmara Setorial de Música, criada pelo Ministério da Cultura em 2005 e
coordenada pela Funarte a partir de inúmeras reuniões com a categoria musical,
procurou em sua composição reunir agentes da cadeia criativa através dos fóruns
estaduais de música, agentes da cadeia produtiva através das entidades civis
organizadas ligadas à música e o poder público através de representantes do
Ministério da Cultura, assim como de outros ministérios afins, de acordo com o
tema. Compreendedo a complexidade do assunto, a CSM procurou através de sete
reuniões temáticas promover discussão sobre as principais propostas e impasses
do setor. Os relatórios completos, com suas proposições pactuadas ou não,
retratam as preocupações em comum e as áreas de conflito. Procurando discernir
os interesses corporativos e econômicos, cabe ao Estado propor medidas que
intervenham ante desequilíbrios, em grande parte fruto de uma histórica
ausência do
mesmo, em favor da sociedade e do patrimônio musical atual e potencial.
(Trecho do documento)
O QUE É O ECAD?
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) é uma sociedade
civil, de natureza privada, instituída por lei federal e mantida pela atual Lei
de Direitos Autoriais brasileira. É administrado por dez associações de música
para realizar a arrecadação e a distribuição de direitos autorais decorrentes
da execução pública de músicas nacionais e estrangeiras, permite que o Brasil
seja um dos mais avançados países em relação à distribuição de direitos
autorais de execução pública musical.
(Wikipédia)
SÉRGIO VILAR
DA EQUIPE DO DIÁRIO DE NATAL
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