24 DE MARÇO DE 2008 - 17h58 - http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=34665
Filme aborda relação entre Wilson Simonal e regime militar
Em 2002, o humorista Cláudio Manoel, da trupe Casseta & Planeta, começou a
buscar patrocínio para um documentário sobre Wilson Simonal (1939-2000).
Encontrou dois tipos de pessoas: as que não se interessavam, por desconhecer
quem tinha sido Simonal, e as que diziam coisas como "não quero me meter
nisso", "para que mexer nessa história?".
Ninguém Sabe o Duro que Dei, filme de Manoel, Micael Langer e Calvito Leal que
será lançado no festival É Tudo Verdade (no próximo sábado, no Rio, e nos dias
4 e 5 de abril no CineSesc, em São Paulo), é o primeiro olhar do cinema sobre
esse homem que, como diz Nelson Motta no documentário, "virou um tabu, um
leproso, um pária" na música brasileira.
O degredo começou em agosto de 1971, quando sua popularidade como cantor só era
superada (e não por muitos pontos) por Roberto Carlos. Suspeitando de que seu
contador o roubava, ele mandou dar-lhe uma surra. O problema é que a surra foi
dada por dois agentes do Dops (Departamento de Ordem Política e Social),
serviço público cuja especialidade era torturar adversários da ditadura militar
- e falsos adversários também.
Um inspetor, Mário Borges, disse à imprensa que Simonal era informante do Dops
- e a pecha de dedo-duro nunca mais se descolou dele, jogando-o num longo
ostracismo. "Ele pagou uma pena dura demais, desproporcional para uma surra,
porque sua condenação foi até o fim da vida. Para ele, não teve anistia",
afirma Cláudio Manoel.
Mas o documentário não é uma defesa de Simonal. Por um lado, até piora sua
situação, pois os três diretores, empenhados em saber o máximo sobre o que
aconteceu, contrataram um detetive para localizar Raphael Viviani - o contador
que foi o pivô da história.
No filme, Viviani diz que foi torturado com choques elétricos no Dops e só
aceitou assinar uma confissão do roubo - que ele nega ter cometido - quando
ameaçaram pegar sua família. Talvez a história tivesse terminado aí, não fosse
sua mulher ter dado queixa do seu desaparecimento. O delegado resolveu
investigar o caso, viu Viviani todo machucado e chegou ao nome de Simonal.
Ingenuidade
O cantor alegou ter recorrido ao Dops porque vinha recebendo ameaças
terroristas e disse, talvez para impressionar, que tinha conhecidos na polícia
política. Quando, mesmo sem provas, foi classificado como informante, ele se
enrascou.
"Ele foi infeliz no caminho que seguiu", afirma Viviani no filme. Por esse
lado, o contador até ajuda a imagem de Simonal, pois reforça a idéia
predominante no documentário: o cantor era um boquirroto ingênuo, sem
consciência da gravidade da situação política de então - e morreu pela boca.
Pela surra que mandou dar, Simonal foi condenado em 1972 a cinco anos e quatro
meses, que pôde cumprir em liberdade. Pela fama de dedo-duro, pagou enquanto
esteve vivo - e depois também.
Em 2003, após a família pedir uma investigação sobre o caso e diante do
documento de 1999 da Secretaria Nacional de Direitos Humanos informando que não
havia nenhuma prova de que Simonal tivesse servido à ditadura, a OAB (Ordem dos
Advogados do Brasil) o reabilitou simbolicamente.
"Ele dizia para mim: 'Eu não existo na história da música brasileira'", conta,
no filme, Sandra Cerqueira, a segunda mulher de Simonal, que acompanhou sua
amargura, seu alcoolismo e sua grande raiva - o documentário tem imagens dele
em programas de TV clamando inocência.
"Ele tinha uma atitude provocativa que não o ajudava a fazer amizades. Era
metido a besta, um crioulo de sucesso que andava de carrão e comia as filhas
dos brancos. Era um negro liberto", diz Manoel, tocando na questão racial,
muito presente no longa.
Boa parte do filme cobre o "antes da queda". Com depoimentos de Pelé, Miele,
Chico Anysio e Tony Tornado, o documentário pode contribuir para que não sejam
ditas frases como a ouvida por Cláudio Manoel de um frentista: "Pô, seu
Casseta, vai fazer um filme sobre o cara que torturou o Caetano (Veloso)?"
Simonal, ao fim, aparece ao lado do próprio Pelé - possivelmente o único negro
mais famoso do que ele no Brasil da época -, fazendo comercial da Shell,
cantando The Shadow of Your Smile com Sarah Vaughan, regendo o Maracanãzinho
lotado e esbanjando malícia (ou pilantragem, como se dizia). "Pilantragem é o
não-enchimento, o descompromisso com a inteligência", diz ele no filme, sem
saber que a frase seria premonitória.
Repercussão
Max de Castro e seu irmão, o também músico Wilson Simoninha, assistiram a
Ninguém Sabe o Duro que Dei e não pediram modificações no filme sobre o pai.
Mas só porque não acham certo interferir em obra alheia.
Segundo Max, pôr o depoimento do contador Raphael Viviani na parte final do
documentário deixou a história "incompleta". O filho de Simonal sustenta: "Não
há contra-argumentos depois. E a coisa não é tão simples como aparece no
filme".
Na opinião de Max, "não fica claro que houve ações anteriores (à surra). Ele
(Simonal) procurou saber o que estava acontecendo (em relação ao roubo).
Sabendo da origem humilde dele, do fato de não ter tido um pai, você consegue
imaginar ser possível a atitude que ele tomou, ainda que nada justifique".
Nascido em 1972, ano em que o pai foi condenado, Max ressalta que Simonal não
era politizado - daí ter pensado que era um trunfo dizer que conhecia gente do
Dops. "Ele tentou usar a malandragem e o jogo de cintura. Não percebeu o
tamanho da encrenca em que estava entrando."
Apesar das ressalvas e de ver o filme como "apenas uma introdução" à vida do
pai, Max considera importante que se fale de Simonal. Ele acredita que é a
juventude quem está reabilitando o cantor. "Pessoas que se deparam
acidentalmente com a obra dele e não têm nenhum ranço ideológico querem saber
quem foi esse artista. Os mais velhos, mesmo os que gostavam dele, não se
sentiam à vontade", diz ele, contando receber com freqüência monografias de
universitários sobre o pai.
Da Redação, com infomrações da Folha de S.Paulo
Redação
Veja quais são os assuntos do momento no Yahoo! +Buscados
http://br.maisbuscados.yahoo.com