Cultura de editaisPOR VICENTE SEREJO
JORNAL DE HOJE
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"Não se pode, só para ser contra, condenar os fartos editais que agora as 
fundações de cultura do governo e da prefeitura usam para financiar os grupos e 
suas ações culturais. É possível que a falta de crivo tenha levado o poder 
público a financiar aquilo que não conhece, muito menos sua qualidade. Mas, no 
meio de tudo, há uma forma democrática, com chances iguais para todos, de 
incentivar o mercado e o consumo. Mesmo que se tenha pela frente o risco de uma 
indústria cultural sem regras e sem controles.

O problema parece ser outro. Os editais não obedecem a uma política cultural 
voltada para metas bem definidas. Não se sabe se é a nossa identidade que se 
quer estudar, exercer e preservar quando esses editais são lançados. A 
experiência da Lei Câmara Cascudo - e do seu conselho faço parte há dois anos - 
não boa no sentido das prioridades que poderiam ter sido pactuadas se a lei 
tivesse nascido de debates e discussões de qualidade. Sem obedecer a critérios, 
vale o prestígio de quem possa conquistar patrocínio.

Qual é a definição, por exemplo, do governo e da prefeitura, de patrimônio 
material e imaterial, tão invocados nos releases oficiais? O que merece ser 
garantido como patrimônio? Prédios históricos, e só? Ou a inadiável e já 
incompleta coleção de A República, com a nossa história contemporânea? Seria 
material, por ser papel, ou imaterial, por ser altamente perecível? Seria 
urgente digitaliza-la sob pena de perdê-la ou os editais também acabam 
reforçando uma estéril política de eventos que nada produzem?

Pernambuco tombou a cachaça, o bolo-de-rolo, a tapioca, a gastronomia popular, 
traços do seu povo. E nós? Nada. Temos uma política de restauração capaz, por 
exemplo, de salvar das suas já mortas ruínas o casarão dos Guarapes? Não. 
Reeditamos o nosso cânone histórico e literário, a nossa estética, ou tudo isso 
nos parece sem nenhum valor? Nosso turismo dito cultural, esse exercício de 
tolo pedantismo, tem consciência do que somos, da nossa história, dos nossos 
valores, dos nossos traços?

Ninguém sabe de nada. Nossos gestores lançam editais e editais e estão 
satisfeitíssimos com essa distribuição de benesses. Gostam de números e não de 
cultura. E gritam: 'Lançamos tantos editais com um valor total de tantos 
reais!' Pronto. Pra que mais? As peças? Os shows? Os livros? Ninguém sabe. 
Muitas vezes nem a Fundação José Augusto e o Conselho da lei, gestores da Lei 
Câmara Cascudo. Cobrar? Ora, quem já viu o socialismo caboclo cobrar nada das 
famigeradas bases e dos companheiros?

E assim vamos indo. A política de eventos é o nosso vício. Se antes regalava o 
peito dos gestores de plantão, comensais de vinhos e letras sob os auspícios 
dos cofres públicos, hoje a distribuição é mais ampla. Não há mais aqueles 
privilégios inconfessáveis, é verdade. Mas, em compensação, os diabinhos 
tomaram conta. Aqui e ali aparece algo sério, de bom gosto, nascidos da 
consciência e não das leis de cultura ou desses editais que pululam, todas as 
manhãs, nas páginas domesticadas do Diário Oficial."

Tácito Costa
Data: 14/05/2009 - Horário: 17h32min 


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