Sistemas antidemocráticos temem ideias', diz Vargas Llosa
Escritor foi retido no aeroporto de Caracas e advertido que não poderia
fazer declarações políticas no país
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[image: Escritor peruano havia participado de uma conferência na Venezuela]
Alejandro Rustom/Reuters
Escritor peruano havia participado de uma conferência na Venezuela
CARACAS - O escritor peruano Mario Vargas Llosa reagiu à pressão que sofreu
na imigração do aeroporto de Caracas afirmando que os "sistemas
antidemocráticos têm medo de ideias". O escritor foi retido por uma hora e
meia nesta quarta-feira, 27, e advertido que, como estrangeiro, não teria
direito de fazer declarações políticas na Venezuela.
"Ninguém pode colocar limites ao livre pensamento. Eles pensam que ideias
são como bombas, que podem causar explosões sociais. Nós não queremos isso",
disse, segundo a AP. O escritor viajou à Venezuela para participar da
conferência "O Desafio Latino-Americano: Liberdade, Democracia, Propriedade
e Luta contra a Pobreza", organizada pela "Cedice", um think tank
conservador baseado em Caracas, que também convidou o ex-presidente
boliviano Jorge Quiroga.
"Eles revistaram minha bagagem e comprovaram que não trago nada de
contrabando, nenhum material explosivo, nem subversivo, salvo alguns livros
de poesias", disse o escritor. Na segunda-feira, 25, seu filho, o jornalista
Álvaro Vargas Llosa, também ficou retido por três horas enquanto seus
documentos eram checados.
O ministro da Cultura da Venezuela, Héctor Soto, declarou que Vargas Llosa
havia sido "insolente" e "desrespeitoso" com o país e com "os ícones da
população", segundo o jornal El Universal, de Caracas. Soto disse que o
escritor assumiu a cidadania espanhola porque "tem vergonha" de ser um
peruano.
*Liberdade de expressão*
O episódio ocorre em um momento em que o debate sobre a liberdade de
expressão toma fôlego na Venezuela. Nesta quarta-feira completaram-se dois
anos que a emissora opositora RCTV saiu do ar porque Chávez rejeitou renovar
sua licença.
Funcionários do setor de comunicações, atores e grupos opositores realizaram
no fim da tarde de quarta-feira uma manifestação em Caracas em apoio à RCTV,
que agora transmite via cabo de Miami. Em debates, entrevistas e discursos,
diversos venezuelanos também demonstraram seu repúdio às ameaças recentes de
Chávez contra outra TV opositora - a Globovisión.
À tarde, o ministro de Comércio da Venezuela, Eduardo Samán, apresentou à
promotoria provas de supostas irregularidades na compra de 24 veículos
confiscados na sexta-feira, 22, numa das casas de Guillermo Zuloaga, dono da
Globovisión. Zuloaga, que tem uma distribuidora da Toyota, diz que os
automóveis foram adquiridos de forma regular e denuncia perseguição
política.
"O tema da liberdade de expressão está hoje mais vivo do que nunca. O
governo quer regular todas as formas de pensamento e ameaça a Globovisión
para impedir críticas", disse o diretor da RCTV, Marcel Granier.
Em maio de 2007, o governo venezuelano recusou-se a renovar a licença da
RCTV, que estava havia 53 anos no ar e era campeã de audiência. A
justificativa foi a de que Granier teria participado do fracassado golpe
contra Chávez em 2002. Na época, foram realizados protestos em toda a
Venezuela em apoio à emissora.
Desde então, a Globovisión tem sido a única emissora opositora que ainda
transmite na rede aberta - embora apenas para as três principais cidades do
país. Mas, há três semanas, o chanceler Nicolás Maduro acusou a emissora de
fazer "terrorismo midiático" ao noticiar o terremoto que abalou Caracas no
dia 4 sem consultar as autoridades venezuelanas.
Após o tremor, a Globovisión disse que sua intensidade foi de 5,4 graus,
citando o Serviço Geológico dos EUA. Além disso, o diretor da TV, Alberto
Ravell criticou a "reação lenta" do governo. Segundo autoridades, por tais
faltas a Globovisión pode ser multada ou obrigada interromper suas
transmissões temporariamente. Na sexta-feira, a Organização dos Estados
Americanos (OEA) e o relator da ONU para a Liberdade de Opinião e Expressão,
Frank La Rue, manifestaram preocupação pelas ameaças do governo venezuelano.
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