Nos dois últimos sábados não compareci à Residência, espaço onde se reúnem
universitários dos mais diversos cursos da UFRN residentes ou não em suas
precárias acomodações.
Por causa da chuvarada que deu. No entanto compareci no domingo.
Encontrei os poucos que estavam nas imediações, entre uma e outra
caída d’água, esparsos e jururus. Era o clima.
— Na Cidade do Sol não estamos acostumados com este céu cinzento,
opressivo, com esta umidade que entra pelos poros, brrrrrr... – manifestou-se o
Professor Zé Van Nilson dando uma bola em baixo de um cajueiro.
Um universo de poetas de todos os matizes prolifera pelas redondezas e é aos
sábados e domingos quando não tem aulas e todos os residentes, a maioria vindos
das cidades do interior se reúnem para curtir o lazer, conversar, beber,
filosofar, fumar que essa prática é a mais apreciada conquanto a expectativa é
o pôr-do-sol...
O poeta Rios Brás Cubas é um dos mais antigos frequentadores. Derna do tempo em
que ainda era estudante do curso de engenharia. Hoje está aposentado como
professor daquela universidade federal.
Passam-me a notícia de que o poeta tem estado adoentado de tanto beber.
O segundo mais antigo é o Professor Zé Van Nilson que apesar do sobrenome é
potiguar mesmo. Natural da folclórica Macaíba.
Então lá pras tantas se iniciou uma discussão sobre o anti romantismo da poesia
de Rios Brás. A discussão que mais na frente tornou-se interminável provocou a
minha saída, sorrateira, de fininho, quando os ânimos começaram a esquentar
motivados por opiniões diversas e pelo efeito do álcool que, àquela altura,
quase duas horas depois da cerimônia do pôr-do-sol, já estava num grau prá lá
de animado.
Então aproveitei para visitar o poeta in loco em sua toca lá no Alecrim.
Comprei uma tremenda pizza de calabresa e com bastante azeitona como ele bem
aprecia, pois eu estava com uma tremenda fome. Aproveitaria para comê-la em sua
companhia.
Ficou muito contente quando me viu, porém estava bastante debilitado e a
manifestação de alegria foi um sorriso que mais parecia uma careta embora
exalasse sinceridade em toda plenitude.
Sua esposa diz que ele não quer comer nada. Só bebe.
Perguntou logo se eu tinha trazido “uma coisinha”. Falei q não, infelizmente
(para Rios Brás), pois eu estava “dando um tempo” até porque já estava na hora.
Afinal fumei maconha desde o ano de 1966 até o dia 31 de dezembro de 2008. Já
lá se vão 42 anos de atividade “canabisnol”.
— Não trouxe uma coisinha, mas trouxe uma tremenda pizza pra gente degustar.
Que tal?
Ele fez outra careta como a recusar, mas sua esposa já estava chegando com a
pizza fatiada e dois pedaços, um em cada prato para nós dois. Então disse à
mulher que só comeria se ela o deixasse tomar uma:
— Só umazinha, preta. Só umazinha... – ele a chama de Preta ou, às vezes,
Pretinha.
— Pois bem, mas só de você comer duas fatias. Ta legal?- Chantageou a
companheira.
— Tá bem – disse o poeta fazendo cara de mau e segurando o prato
estendido.
Pois não é que o poeta comeu mesmo as duas fatias. Só que acompanhadas por três
doses de vodka com fanta-laranja em copo duplo e com duas rodelas de limão, o
seu drinque predileto.
Depois da refeição – e das três doses – o poeta parecia outro homem.
Entusiástico e falante o papo se estendeu agradavelmente adentrando duas horas
depois ao assunto decorrente na Residência quando foi questionado o
anti-romantismo de sua poesia. Aí ele cresceu em entusiasmo e falou por mais
duas horas explicando teórica, didática e filosoficamente o romantismo latente
em toda a sua poesia. Que pena que eu não tinha um gravador!...
No final de tudo, pra arrematar escreveu um longo poema e, desta vez, não o
atirou no cesto de lixo, mas pela primeira vez em anos entregou-me gentilmente
e pediu que o colocasse no painel de avisos da residência para que todos
entendessem quão romântica é a sua poesia.
Saí de lá quase meia noite prometendo que no próximo sábado passaria em sua
casa para irmos juntos à Residência. Depois, já em casa, pensando bem...
Porque não levá-lo para assistir ao MPBeco, êin?
Eis a reprodução do poema que está lá no quadro de avisos da Residência
Universitária:
VOCÊ É UMA GRANDE MULHER AGORA
Uma mulher me balançou,
botou em mim pra quebrar
me deu uma rasteira legal
que é pra eu me mancar
e não achar que o todo era tudo —
o meu muro caiu.
Uma mulher foi encantada
quando me encantou,
quando me amou de verdade
quando tentou fazer de mim
o que o céu não decretou,
o que não estava armado.
Enfim, uma mulher me seduziu,
me mostrou o seu poder
de como será um jugo legal
sobre os homens ancestrais
que no legaram os deuses
voltar-se ao matriarcado.
Uma delas me mandou lá p’ro alto
para um espaço prá lá de sideral,
não teve jeito, razão
ou apelo sentimental
se não me turvasse a visão
do que não estivesse a fim.
Pois foi uma linda mulher
em êxtase transcendental
— emancipada viveu —
falando ao mundo através de mim.
Ela foi feita assim
de sedas e com espinhos
como a provar ao coração...
a realidade é, no fundo, lá fora
os mais incríveis caminhos —
maior do que qualquer ficção.
Baby, você é uma grande mulher, agora.
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