ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
Democracia liberal X a Democracia social
10 de junho de 2009, do Rio Grande outrora altaneiro, Bruno Lima Rocha 

Tal como a maioria dos cientistas políticos, entendo que não há uma teoria 
unitária de democracia e que a mesma está em disputa. Também compreendo como 
válida a afirmação de que a vida em sociedade através do exercício de liberdade 
de expressão, de reunião, de organização e de manifestação é pré-requisito 
básico para uma sociedade democrática. 

Embora sejam essenciais, esses direitos não são fins em si mesmos.. E a 
garantia da estabilidade desses direitos não pode existir excluindo a dimensão 
social, distributiva, jurídica e econômica da “democracia” representativa em 
que vivemos. Assim, não compreendo como “democrática” uma sociedade plena de 
direitos, mas onde as maiorias não influem de forma direta sobre e a respeito 
das decisões fundamentais.
É necessário debater qual o conceito de democracia estamos adotando? Isso 
transparece na disputa por definições de democracia e que tipo de partido 
político seria adequado para um regime de alternância de poder, mas sendo que 
este poder se constrói desde abaixo. Abordando este tema através dos partidos 
políticos como unidade de análise, nos encontramos com um debate de fundo. 

O mesmo trata das regras e condutas dos agentes políticos e os limites dessa 
competição. Isto é, os limites da própria democracia que coexiste com o 
oligopólio, como classe de mercado fundamental para o capitalismo. 

Embora haja dezenas de definições de democracia e de partido político, as duas 
categorias existem dentro de um marco divisório: por um lado, a democracia 
liberal e, por outro, a democracia social. Dentro dessas definições ampliadas, 
os dois grandes conceitos de democracia trazem em si o seguinte consenso: 
soberania popular; direitos humanos; igualdade de oportunidades; livre 
expressão. 

Voltando às grandes definições de democracia, faço acordo com esta definição 
generalizável de democracia e vejo que no avanço da democracia liberal, pois à 
medida que os pressupostos neoliberais avançam, a soberania popular perde 
espaço para os agentes que operam na lógica de mercado, vem sendo retirado 
conteúdo dos regimes democráticos. 

Se, de um lado, se perde a capacidade de regulação social, de outro, o regime 
fica politicamente estável, ao menos no que diz respeito aos ritos e 
procedimentos. Para suprir o vazio, outras formas de expressão política vêm 
ganhando terreno. Assim, há mais setores a serem organizados e representados e 
uma perda substancial de direitos reais, embora tenham existência formal. 
Infelizmente, até aí não há nenhuma novidade. 

Tanto no âmbito mais acadêmico como nos setores mais militantes, há uma extensa 
bibliografia abordando o tema dos movimentos populares, dos “novos movimentos” 
e da relação destes com os partidos políticos. Ao mesmo tempo, há um aumento de 
ideologias e atitudes “participativas” que levam as pessoas a se servirem cada 
vez mais do repertório de direitos democráticos existentes, mesmo dentro de 
sociedades excludentes, como as latino-americanas. 

Esta característica agrava o distanciamento entre os partidos legalmente 
constituídos, operando dentro do jogo eleitoral e a partir dos procedimentos 
formais e evitando o conflito para o aumento desses mesmos direitos. Ou seja, 
cada vez mais os partidos liberais (eleitorais) representam menos a alguém e 
atuam mais em defesa de interesses próprios. Isso cria um hiato de 
representação formal, abrindo margem para uma crítica da democracia de mercado 
a partir do próprio ponto de vista democrático, no caso, da democracia social. 

Assim, o uso crescente de novas formas de participação política (ainda não 
formalizadas) e as exigências e os conflitos políticos de temas que conseguem 
se politizar colocam contra a parede os discursos vazios de conteúdo da 
democracia liberal. Isso se dá porque, fruto da correlação de forças, há a 
capacidade de um setor da sociedade, sujeito social organizado –– através de 
um(s) agente(s) dotado(s) deste propósito – ou fração de classe, conseguir 
tornar politicamente aceitáveis temas que em uma etapa anterior eram vistos 
como de ordem moral, privada ou confessional. 

Tal é o caso, dentre vários, dos direitos reprodutivos (questão do aborto), do 
assédio moral (humanização do trabalho) e das causas vinculadas direta ou 
indiretamente à ecologia. Esta última grande bandeira já se torna transversal, 
passando por demandas ambientalistas, preservacionistas, indigenistas, 
camponesas, dentre outras. 

É nesse cenário de quebra do monopólio da representação, fazendo a crítica da 
intermediação profissional e sendo obrigado a operar num terreno de identidades 
fragmentadas e multiplicadas, que reside a necessidade de construir formas 
organizativas políticas para atuar no projeto da democracia social 
(participativa, radical, substantiva e deliberativa). 

Entendo como urgente a definição teórica de um modelo de organização política 
que esteja subordinada aos interesses daqueles setores que se pretende 
organizar. Isto é, uma estrutura política que aposte sua acumulação de força na 
capacidade de mobilização popular, forçando o Estado a atender às suas demandas 
justas, legítimas e históricas e, por conseqüência, atuando sempre por fora dos 
acordos oligárquicos.
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