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Lua Negra
 
                                                                 Cláudia 
Magalhães



      É através da vontade, de uma grande vontade, que um amor se prende a 
outro, o resto é solidão, erro que cola à alma dos que não cedem, não insistem 
ou simplesmente não o aceitam em sua essência, penso eu, Como me chamo? Ora, 
que importa meu nome? Iguais a ele existem milhares de outros no mundo, e o que 
difere as mulheres uma das outras são as intensidades de suas vontades, metade 
delas na cabeça, a outra metade em suas luas que renovam o mundo quando 
levantam as saias.
      É certo que essa renovação depende, por um lado, da qualidade do ventre, 
um ventre imundo só pode gerar criaturas imundas, e por mais que a alma seja 
limpa, perfumada, o simples contato de um com o outro acaba por contaminá-la. 
Por outro lado, temos a participação do sêmen que, movido pelo acaso, pode doar 
sua melhor ou pior parte. É dessa forma que construímos o mundo, sim, nós, 
posto que deus é puro demais para isso.
      Nesse mundo, nasci. Em uma rua qualquer, numa cidade qualquer. 
Informações que não posso revelar, pelo simples fato que, algumas horas após 
meu nascimento, ainda cheirando a sangue, fui posta enrolada num lençol sujo, 
fétido, presumo, na porta de Carmem e Manoel, um casal distinto, donos de uma 
pensão.
      Seja por bondade divina, seja por desejar algum lugar no paraíso ou por 
mera curiosidade humana, ou seja ainda por pura piedade desprovida de qualquer 
interesse (Se é que isso, realmente, existe!), os donos da pensão me adotaram 
como filha, a partir daí, passamos a sentir um amor grande demais para não 
matar, roubar ou trair.
      Tímida, cresci indo da escola para casa durante a semana, e de casa para 
a igreja aos domingos, onde conheci o meu marido, Paulo, primeiro e único 
namorado, ambos com dezessete anos, no ano em que concluíamos o segundo grau e 
que nos preparávamos para o vestibular. Infelizmente, minha mãe veio a falecer 
nesse período, o que me fez adiar a faculdade para cuidar do meu pai, já com 
setenta e dois anos, e da pensão. Nesse mesmo ano, me casei e, no ano seguinte, 
realizei o maior sonho dele, ter um neto. Nunca morri de amores por Paulo. 
Éramos na verdade mais amigos que amantes, além disso, éramos bem parecidos, 
extremamente tímidos. Na verdade achava a minha vida monótona e sem graça.
      Cuidava da pensão sozinha, desde as refeições servidas até a troca de uma 
lâmpada, posto que Paulo tem aversão a qualquer tarefa doméstica. A pensão é 
pequena. Um primeiro andar cor de abóbora, recuada, sem muro, com um pequeno 
jardim na entrada. No térreo, temos uma espaçosa varanda, onde geralmente me 
deito para ler, enquanto meu filho brinca, uma sala de tv, a cozinha, dois 
banheiros e enorme quintal. No andar superior temos seis quartos, um do meu 
pai, outro meu e de Paulo, e o restante são ocupados geralmente por estudantes 
universitários. 
No quarto ano de casamento, enquanto meu filho tirava um cochilo depois do 
almoço, e eu descansava na rede da varanda lendo Bel-Ami, de Maupassant, ela 
apareceu. Era uma estudante de jornalismo e procurava um lugar mais barato e 
próximo da faculdade. Extremamente comunicativa, não necessariamente bonita, 
mas tinha certo charme. Chamava-se Clara. Era alta, tinha os cabelos castanhos, 
curtos e um sorriso cheio, encantador. Acertamos sua estadia e conversamos por 
horas sobre a minha grande paixão, os livros. À noite, apresentei-a a Paulo, 
que chegava do trabalho, ele trocou meia dúzia de palavras e subiu para o 
quarto. Acabamos nossa conversa literária jantando juntas. Estava extremamente 
feliz, tínhamos tantas afinidades e ela era uma excelente companhia. Passei a 
esperar, com ansiedade, a hora dela voltar da universidade para as nossas 
longas e intermináveis conversas. Observei que todos os dias ela e Paulo 
chegavam juntos, por volta das dezenove horas, Paulo trabalhava numa loja de 
informática perto da faculdade e, coincidentemente, eles pegavam o mesmo 
ônibus. Chegavam sempre sorrindo, animados. Na segunda semana, isso passou a me 
incomodar, o que fez com que eu passasse a evitá-la. Clara passou a ser uma 
obsessão. Passei a ter insônias terríveis imaginando um possível romance entre 
os dois e todas as noites, antes de dormir, eu perguntava as mesmas coisas:

- Clara lhe atrai, não é mesmo?
- Porra, eu já pedi que parasse com essas perguntas idiotas!
- Está gostando dela, não é?
- Claro que não! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso!
- Você fica todo alegrinho quando ela está por perto.
- Você é louca!
- Eu sei de tudo...
- Tudo o quê?
- Você sonha com ela todas as noites...
- Eu vou embora daqui. Estou falando sério!
- Tanto faz...

      Ele achava ridículo o meu ciúme, o que me causava grande revolta. Senti 
algo estranho, um deserto no peito. Passei a não suportar as luzes e a andar 
pela pensão feito um réptil, grudando nas paredes, me arrastando pelos cantos, 
pisando mole no chão, para poder vigiá-la. Ela não saía do meu pensamento...
      Certa manhã, encontrei a porta do seu quarto entreaberta. Entrei e a vi 
adormecida sobre a cama. Senti uma vontade enorme de destruí-la. Não sabia de 
onde vinha tanto ódio, não ainda... Observei, pendurado por um fio de nylon 
grosso na parede mofada da cama, um enorme espelho. Peguei uma vassoura que 
estava próxima a porta e com o cabo empurrei com cuidado o fio até a pontinha 
do prego enferrujado e saí com o coração aos saltos em direção à cozinha. 
Coloquei uma xícara de café e fiquei esperando. E se ele não cair? Bem, só me 
resta esperar... Nesse momento, escutei uma pancada seca seguida de um grito 
fino, estridente. Maldita! Eu sou uma grande Maldita!, pensei correndo em 
direção ao quarto dela. Ela estava em pé, de costas, aparentemente sem nenhum 
arranhão. Sem que ela me visse, voltei para meu quarto e encontrei Paulo 
sentado na cama.

- Que barulho foi esse? – perguntou ainda sonolento
- O espelho do quarto de Clara caiu – falei andando, sem parar, de um lado para 
o outro
- Essas paredes estão podres, a qualquer momento essa pensão desaba.
- Infelizmente ela não morreu!
- Você me dá medo...
- Então morra logo de uma vez ao escutar essa: Eu armei para o espelho cair! 
Entrei no quarto dela, hoje cedo, e enquanto ela dormia, com um cabo de 
vassoura puxei o fio de nylon até a pontinha do prego, mas o maldito espelho só 
resolveu cair quando ela já não estava mais na cama!
- Chega! Não agüento mais, vou embora desse inferno!

      Arrumou, rapidamente, a mala e, sem dizer uma palavra, saiu. Fui em 
direção ao quarto dela, e a encontrei, sentada de costas, observando pela 
janela Paulo partir.

- Ele foi embora, está feliz por isso?
- Você sabe o que é frustração? – perguntou num fiapo de voz
- O quê? – perguntei sem entender qual era sua real intenção
- Frustração é querer, realmente, algo e covardemente deixá-lo pra trás

      Apesar da penumbra vi que ela chorava. Senti um medo insuportável quando 
descobri, naquele instante, que todos os sentimentos que passaram pelo meu 
coração eu sabia diagnosticar, exceto o que passei a sentir naquele momento. 
Sem saber ao certo o que fazer, nem dizer, fui até a janela e fiquei observando 
o céu coberto de nuvens, e não menos nublado estava o meu olhar. Ela continuou 
baixinho:

- O amor foi criado por algum louco, de alguma parte de seu corpo, menos dos 
olhos, pois nada vê e por isso não privilegia os que enxergam. Talvez tenha 
sido criado da cabeça, pois seus atos são estranhos e incoerentes; para os que 
tentam compreendê-lo, queima-lhes o juízo; para os que tentam contradizê-lo, 
cava-lhes um buraco no peito, pintando seus dias de cinza; para os que tentam 
fugir, corta-lhes as pernas, fazendo dos que querem correr, rastejar. Somos 
parecidas, sonhamos com manhãs abençoadas por luas... e para os covardes essa 
lua é negra...

      Um misto de medo e vergonha me invadiu quando senti suas mãos puxando 
levemente meus cabelos pra trás e com delicadeza serem trançados. A cada 
movimento delas, sentia nossas mentes se enlaçando como uma espécie de ritual 
maligno e irresistível. Não sei ao certo se perdia ou ganhava sensatez, quando 
minha mente, no lugar do recuo, resolveu ultrapassar a linha tênue que separa o 
amor do ódio, e este, quanto mais próximo do amor, mais terrível se torna e 
mais escorregadio, pois é feito de lama. Desabei no choro, sentindo minha alma 
viva, e nela restando, do meu passado, somente a estranheza dos sentimentos 
vazios. Vai amanhecer e o sol vai aparecer em forma de lua... , pensei prevendo 
o futuro. Segurei seu punho, sentindo seu coração pulsar fortemente, e sem 
poder suportar mais, entre soluços, desabafei: Eu te amo, Clara! Eu te amo...
Há dois anos estamos juntas e esse amor me realiza. Às vezes, ele se transforma 
num ódio passageiro causando grande confusão em meu coração. Qual a diferença 
do amor e o ódio, mesmo? Não importa! O importante é que, hoje, ele é apenas um 
pretexto para que eu possa dizer Eu te amo, e me fazer sentir viva, 
extremamente viva...
 
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