1)                           Eu aceito, mas não me conformo. Aceito minha vida, 
com as perdas e com as dificuldades; mas não me conformo com elas, busco 
compensações. Eu aceito a vida, mas quero algo melhor. Quero viver em um mundo 
melhor, quero ser uma pessoa melhor também. Eu aceito tudo, inclusive eu 
sofrendo neste universo, mas não posso me resignar com essa aceitação. Sou um 
corpo em que habita um demônio, um anjo e um cara que vive negociando com os 
outros dois. O anjo sempre quer que eu aceite tudo e o demônio é um eterno 
inconformado. E eu (o dos três dentro de mim que responde por meu nome) passo a 
vida negociando com a aceitação absoluta e o relativismo inconformista. 
2)                           Sou humilde, mas não sou modesto. A aceitação me 
ensina a humildade, o inconformismo me faz audaz. Humildade é a consciência de 
minha insignificância e a audácia, a percepção de minha singularidade. E quando 
a falta de modéstia não gera falso reconhecimento e vaidade, ela produz 
infâmia. Sou humilde, simples húmus da terra, mas sou diferente. “Somos 
especiais, não somos iguais uns aos outros” – diz sempre o demônio para mim. 
“Aceitar as diferenças nos iguala como irmãos” – revida o anjo. 
3)                           Eu obedeço, mas não comando – não desejo 
responsabilidades. Os ensinamentos esotéricos dizem que os anjos têm três 
corpos e os demônios têm quatro. Apenas os homens - imagem e semelhança do 
Divino - têm sete corpos: três janelas acima para obedecer aos anjos e quatro 
portas abaixo para comandar os demônios. 
4)                           Eu confio, mas não acredito. Confio nas pessoas, 
mas não acredito em suas idéias. Tenho fé nos seres vivos e sou cético em 
relação ao inorgânico. As crenças formam um sistema de domesticação dos sonhos. 
A confiança é a intimidade dos desejos repartidos. Confio no anjo e no demônio, 
são meus amigos; mas não acredito neles, não sou cúmplice de seus sentimentos, 
desconfio dos seus pensamentos.
5)                           Eu perdôo, mas não esqueço. Porque com o 
esquecimento, tudo acontece novamente. A memória do fato é um aprendizado da 
consciência, é para ser lembrado, não como mágoa, ressentimento ou rancor, mas 
como um ensinamento ético. Eu perdôo para ser perdoado e não me esqueço para 
não ser esquecido.  
 
E, no desterro das lembranças, mandarei o demônio para o inferno e o anjo para 
céu, entregarei minha memória em um altar, confessando que fui feliz; 
libertando-me deste emprego humano, karma de ser professor espiritual das 
criaturas.
 


      
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