ESTRATÉGIA & ANÁLISE
 ISSN 00331983
O Senado que se basta 
29 de junho de 2009, Bruno Lima Rocha, do Rio Grande outrora altaneiro 

A instituição parlamentar no Brasil vive de sua dubiedade e isso já há muito 
tempo. Quando no hoje longínquo ano de 1984 o Congresso Nacional com maioria da 
Arena recusa a emenda das Diretas para presidente, em tese ali iniciava o 
princípio do fim do domínio oligárquico nas duas casas. Ledo engano, porque a 
cultura política que dialogava com a ditadura e possibilitou invenções de 
triste memória como os “senadores biônicos”, “reciclou-se” para assumir o poder 
do Estado brasileiro. As palavras são duras, mas reais. Os que eram apoio para 
a o regime da caserna tornaram-se a base política do regime “democrático” do 
rito liberal. 
Desse modo, a continuidade foi vista a olhos nus e não assume quem não quer. 
Aos poucos os componentes do palanque das Diretas foram se “adaptando” e já na 
Constituinte uma parte deles participava avidamente do Centrão. Este bloco, 
dotado de eufemismo o qual já abordei em artigo anterior, era a direita 
programática na legislatura que conseguiu a proeza de escrever a Carta Magna e 
negociar um mandato tampão para José Sarney, sempre em troca de prebendas, tais 
como as sempre presentes concessões para rádio e TV. 

Não há que se demonizar a José Sarney e sua trupe, uma vez que a composição da 
Aliança Democrática já contava com a UDN, travestida de Arena e depois de PFL. 
O MDB, transformado em PMDB, dá vazão às demandas regionais já nas eleições 
estaduais de 1982. Ganhou em vários estados e depois arrasou no pleito do Plano 
Cruzado, em 1986. Um dia depois da esmagadora vitória eleitoral nos estados e 
no Congresso, seu governo, com Sarney à frente, decretava o fim do Plano 
Cruzado I e o Cruzado II assistiu sua “inauguração” com mais de 30 mil pessoas 
na Esplanada dos Ministérios simplesmente quebrando tudo o que viam pela 
frente. Mesmo os mais humildes não toleram que subestimem sua inteligência. 
Parece que a lição não foi aprendida. 

No Senado, se vê a continuidade da contaminação institucional 

Houve quem defendesse a renovação parlamentar como forma de injetar sangue novo 
nas casas e assim romper com velhos vícios. Ledo engano. Primeiro porque os 
vícios não são “vícios”, mas algo constitutivo do uso privado da máquina 
estatal detentora de mandato público. Segundo, porque assim como no presídio, 
quando o réu primário entra leigo e sai professor na escola do crime violento 
embora de pouca monta, nas casas parlamentares, o ritmo é ditado pelos líderes 
das bancadas por legenda, estado ou grupo de interesse. Se alguém pensa que 
exagero, basta conferir o acionar político da senadora Kátia Abreu (DEM-TO) e 
de seu correligionário de Goiás, o sempre atuante latifundiário e deputado 
federal Ronaldo Caiado (DEM-GO). 

Ao invés de mudar o comportamento interno, o que se viu foi a clássica 
renovação para perpetuação. Mais uma vez exercito a memória recente, recordando 
que o Congresso onde o então presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador 
da base de apoio ao governo (PTB-AL), tinha maioria e rolo compressor foi o 
mesmo que o ajudou a derrubar. Logo após a queda do maior factóide político do 
Brasil, o Congresso vivera meses de agonia com o escândalo dos Anões do 
Orçamento. Na ocasião se vira modus operandi semelhante ao dos últimos 15 anos 
de gestão de Sarney, Calheiros e Cia. À frente da câmara alta da república. Um 
servidor de carreira levou para a lona alguns políticos conhecidos e outros de 
perfil político irrelevante, inversamente proporcional ao tamanho de suas 
fortunas pessoais sem origem e nem procedência. Quem se recorda dos finados 
Ricardo Fiúza (PP de Pernambuco, ex-ministro de Collor) e de João Alves 
acertou. Mas, as teias de
 relações escusas vão mais além. A CPI dos Anões começara logo após a saída de 
Collor, ganhando pouco fôlego em função do acionar da negativa de Itamar Franco 
(vice de Collor que assumira em outubro de 1992). Como se nota, a continuidade 
de ações corriqueiras, como as levadas adiante por José Carlos dos Alves dos 
Santos – o funcionário público que operava o esquema dos anões, dentre eles os 
14 cassados – não são nada recentes. 

A auditoria é um começo, mas o raciocínio lógico deve ser de outra ordem 

Se dia a dia fatos novos vêm à tona e sendo estas mesmas verdades factuais 
apenas uma parte do todo, nos deparamos com algo que tem uma grandeza 
inequívoca. Quando aplicado o princípio do serviço público de Publicidade da 
própria máquina e de seu acionar, nos damos conta de que o que há no Senado não 
é “desvio”, mas forma distinta. Não quero dizer que concordo com os absurdos 
feitos há 15 anos, a noção é outra. O que afirmo sem nenhuma hesitação é duro 
de admitir. Se o faço em sala de aula tenho de ter o brio de escrever e 
difundir. Ou seja, o que há no Senado não é a crise pela conduta fisiológica 
dos seus membros. O que há é a simples difusão desta mesma conduta. Ou seja, o 
público brasileiro consumidor de informação se depara com algo que é sistêmico 
e não corriqueiro. 

Num local de trabalho com 81 senadores, todos se conhecem e tem a obrigação de 
dominar o rito interno e as normas de funcionamento desta parcela do Poder 
Legislativo. Ao locupletarem-se os representantes majoritários dos estados 
cometeram dois tipos de crime. Uma parte, por usufruir de modo criminoso do 
patrimônio coletivo para fins privados, na maior parte das vezes por razões 
infames. Outros, por talvez nada fazer, cometem o crime de omissão. Não é 
válida a hipótese de inocência política nesse nível decisório. Menos ainda de 
desinformação. Desinformar-se do funcionamento do parlamento sendo detentor de 
mandato é no mínimo a omissão a qual me referi acima. 

Considerando que no mínimo 45% dos senadores ainda são contra o afastamento de 
Sarney (PMDB-AP e base de apoio do governo Lula) da presidência do Senado, a 
“crise” continua e não ouso antecipar um desfecho provável. O de praxe é a 
medida da Mesa Diretora de afastar de suas funções dois diretores da câmara 
alta. Além disso, a Comissão encarregada de analisar os atos secretos concluiu 
seu relatório, responsabilizando Agaciel Maia, ex-diretor da Casa, como 
executor dos chamados atos secretos. Até aí mais do mesmo, porque é parte do 
jogo a corda estourar embaixo. Um homem de confiança, em sendo leal ao seu 
padrinho político, vai cair sozinho e em silêncio. Em geral, estas atitudes 
costumam ser bem recompensadas pelos que manipulam recursos públicos para fins 
privados. 

Que os otimistas me desculpem, mas até agora a única boa nova para a lavagem 
geral das entranhas do Senado da república é a solicitação de auditoria externa 
a ser executada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O alvo das 
investigações será a revisão dos contratos para aquisição de produtos e 
serviços. Terão trabalho de sobra e pressões abundantes. Esta pode ser uma boa 
notícia caso os auditores consigam responsabilizar os mandantes e não apenas os 
operadores de contratos. Isto porque vejo uma ação desta monta como ponto de 
partida e não de chegada. Ou seja, além de auditar, o Senado tem de ser 
redimensionado. 

O insulamento e a autonomia de um órgão de Estado não são nenhuma novidade 

O gigantismo e a falta de missão é um problema crônico de estruturas afins. 
Todo órgão de Estado superdimensionado tende a mover-se de forma previsível na 
defesa de interesses próprios. O caso mais contundente da história do Brasil 
recente foi o da chamada comunidade de informações nos últimos anos da 
ditadura. O Sistema Nacional de Informações (Sisni) e o Serviço (SNI) tinham em 
total mais de 20.000 pessoas a tempo completo ou parcial dedicados a produzir 
informação motivada por uma doutrina de segurança e desenvolvimento já em 
decadência. A segurança interna do regime não tinha inimigo em armas para 
combater e o desenvolvimento almejado com o Brasil Potência e no 2º Plano 
Nacional de Desenvolvimento se encontravam solapados pela dívida externa e a 
inflação galopante. Sem alvo legítimo, a luta se tornou autofágica. Os porões 
continuavam sombrios e dedicaram-se a assombrar os arautos da Abertura gradual 
e restrita. Após o
 atentado do Riocentro (1º de maio de 1981), não houve remédio que não 
desmontar a estrutura de comando interno paralelo, dissolvendo os Doi-Codis. 
Ainda assim, os danos residuais seguem com a ação dos irregulares do extinto 
SNI agindo na ponta de operações internas compartimentadas e de duvidosa 
legitimidade. 

Se nos valermos do triste exemplo do “monstro da comunidade de informações”, 
segundo um de seus criadores, Golbery do Couto e Silva, é necessário cortar na 
carne e fazer drástica redução de pessoal não concursado. Se for para fazer uma 
limpeza no modo de funcionamento do Senado, a auditoria é só o começo. No 
momento, a opção válida parece ser o afastamento de Sarney, um movimento 
habitual de entregar alguns anéis para não perder todos os dedos. 

Pode parecer implicância, mas a compreensão da chamada “crise” do Senado passa 
por uma divergência interna na base do governo, rachando a apertada maioria 
ali. Não houvesse a disputa entre Tião Viana (PT-Acre) sendo apoiado pelos 
tucanos e derrotado pelo senhor do Maranhão embora seja senador do Amapá e nada 
haveria saltado nem ocorrido. Assim, julgo não ser nem relevante nem válido 
nenhum discurso de moralismo interno entre senadores. O gigantismo do Congresso 
como um todo e do Senado em particular é um convite para o insulamento de um 
poder que representa muitas vezes apenas a si mesmo e aos 10 mil de seu entorno 
direto. A devassa teve e terá de vir de fora. Espero que isso seja apenas o 
começo. 
 
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